Na sexta-feira (24/07/2026), o jurista Wálter Maierovitch avaliou que a Polícia Federal poderá indiciar o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) até 16 de agosto, data prevista no calendário eleitoral para o início da propaganda das Eleições 2026. A manifestação ocorreu após o ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal, autorizar a abertura de inquérito destinado a apurar a origem, o percurso e a destinação de aproximadamente R$ 61 milhões atribuídos ao empresário Daniel Vorcaro, ex-controlador do Banco Master, para o financiamento de “Dark Horse”, filme sobre a trajetória política do ex-presidente Jair Bolsonaro. A estimativa apresentada pelo jurista, entretanto, não corresponde a um prazo oficialmente estabelecido pela PF ou pelo STF, mas a uma projeção jurídica sobre o possível avanço das diligências antes do início formal da campanha eleitoral.
Maierovitch afirma que PF já teria elementos para eventual indiciamento
Durante participação no programa UOL News, Maierovitch afirmou que os elementos já reunidos permitiriam à Polícia Federal avançar na análise da possível responsabilidade do senador. Segundo o jurista, a formalização do indiciamento ainda dependeria, entre outros procedimentos, da oitiva de Flávio Bolsonaro e da consolidação do conjunto probatório.
“A polícia já tem, e vai ter mais em mãos, o necessário para indiciar o Flávio Bolsonaro.”
O jurista observou que o parlamentar poderá exercer o direito constitucional de permanecer em silêncio durante eventual interrogatório. Na avaliação apresentada, porém, a realização da oitiva seria uma etapa necessária antes de uma decisão fundamentada da autoridade policial sobre o indiciamento.
Maierovitch também sustentou que a proximidade das convenções partidárias e do início da campanha não deveria impedir a continuidade das apurações. Para ele, o ministro André Mendonça cumpriu sua função ao autorizar a investigação diante da existência de fatos que justificariam a verificação policial. A manifestação foi publicada pelo UOL como conteúdo de opinião e não representa anúncio ou posicionamento oficial da Polícia Federal.
André Mendonça autoriza investigação sobre financiamento de “Dark Horse”
O ministro André Mendonça autorizou, na quinta-feira (23/07/2026), a abertura do inquérito para investigar os recursos destinados ao filme “Dark Horse”. A decisão atendeu a pedido da Polícia Federal e recebeu parecer favorável da Procuradoria-Geral da República, comandada pelo procurador-geral Paulo Gonet.
A investigação deverá verificar os valores efetivamente transferidos, identificar as pessoas físicas e jurídicas envolvidas, rastrear as operações financeiras e apurar se o dinheiro chegou às empresas responsáveis pela produção audiovisual. A PF também poderá confrontar as transferências com contratos, notas fiscais, mensagens, áudios e documentos bancários relacionados ao projeto.
O caso chegou inicialmente ao STF por meio de uma comunicação apresentada pelo deputado federal Lindbergh Farias (PT-RJ), que pediu a investigação de possíveis irregularidades na captação e na movimentação dos recursos. A PGR considerou que os fatos estavam relacionados às apurações sobre o Banco Master já conduzidas sob a relatoria de André Mendonça, razão pela qual o procedimento foi encaminhado ao gabinete do ministro.
Documentos apontam R$ 61 milhões transferidos para estruturas ligadas ao filme
As suspeitas surgiram após reportagens publicadas em maio de 2026 apresentarem mensagens, áudios, planilhas e documentos bancários relativos às negociações entre Flávio Bolsonaro e Daniel Vorcaro. Segundo o material divulgado, o valor total discutido para o financiamento do filme poderia alcançar US$ 24 milhões, equivalentes a aproximadamente R$ 134 milhões na cotação mencionada pelas reportagens.
Desse total, teriam sido efetivamente transferidos cerca de US$ 10,6 milhões, aproximadamente R$ 61 milhões, em seis operações realizadas entre fevereiro e maio de 2025. Parte dos recursos teria sido enviada pela empresa Entre Investimentos e Participações a uma estrutura financeira sediada nos Estados Unidos e relacionada ao projeto cinematográfico.
O inquérito deverá esclarecer se os valores foram integralmente destinados à produção de “Dark Horse”, se as operações correspondem aos serviços descritos nos documentos apresentados e se houve circulação do dinheiro por empresas ou fundos sem relação comprovada com a execução do filme. Até a conclusão das diligências, as hipóteses permanecem sob investigação e não constituem comprovação de crime.
Áudios registram cobranças atribuídas a Flávio Bolsonaro
Entre os elementos tornados públicos estão mensagens de voz atribuídas a Flávio Bolsonaro nas quais o senador solicita a continuidade dos pagamentos para evitar atrasos na produção. Em um dos registros, enviado em setembro de 2025, o parlamentar teria manifestado preocupação com compromissos financeiros assumidos com profissionais envolvidos no longa-metragem.
O senador teria citado nominalmente o ator norte-americano Jim Caviezel, escalado para interpretar Jair Bolsonaro, e o diretor Cyrus Nowrasteh. Em outra mensagem, atribuída a novembro de 2025, Flávio teria reforçado a necessidade de cumprir os pagamentos para impedir a paralisação do projeto.
As conversas ganharam relevância porque vieram a público depois de Flávio Bolsonaro ter negado inicialmente possuir relação com Daniel Vorcaro. Após a divulgação dos áudios, o senador reconheceu que manteve contato com o empresário e afirmou que a aproximação ocorreu exclusivamente para tratar do financiamento privado do filme.
Flávio Bolsonaro nega irregularidades e afirma não ter recebido dinheiro
Em sua defesa pública, Flávio Bolsonaro afirmou que buscou patrocínio privado para uma produção cinematográfica privada sobre a trajetória de seu pai. O senador declarou que não houve utilização de dinheiro público, oferta de vantagem indevida, intermediação de negócios governamentais ou recebimento pessoal dos valores.
O parlamentar também sustentou que o contato com Daniel Vorcaro ocorreu no contexto de uma relação contratual ligada à produção. Segundo essa versão, o empresário havia assumido compromissos financeiros com o projeto, mas interrompeu os pagamentos antes da conclusão do cronograma previsto.
As declarações integram a versão defensiva e deverão ser confrontadas com os documentos financeiros, os contratos, os registros de transferências e as informações produzidas durante o inquérito. A investigação terá de estabelecer se o financiamento foi uma operação privada regular ou se os recursos tiveram origem, destinação ou finalidade incompatíveis com a documentação apresentada.
Indiciamento não equivale a denúncia ou condenação
O indiciamento é um ato privativo do delegado de polícia. De acordo com a Lei nº 12.830/2013, a medida deve ser fundamentada em análise técnico-jurídica que indique a possível autoria, a materialidade e as circunstâncias do fato investigado.
A eventual decisão de indiciar Flávio Bolsonaro significaria que a autoridade policial identificou indícios suficientes para atribuir formalmente ao senador uma possível participação nos fatos apurados. A medida, contudo, não equivale a denúncia do Ministério Público, abertura de ação penal ou condenação judicial.
Depois da conclusão do inquérito, a Procuradoria-Geral da República poderá solicitar novas diligências, arquivar o procedimento ou apresentar denúncia ao Supremo. Somente se a denúncia for aceita pelo tribunal o investigado passa à condição de réu em processo criminal.
Eventual indiciamento não impede automaticamente candidatura
Isoladamente, um indiciamento policial não provoca inelegibilidade automática nem impede o registro de candidatura. A Lei da Ficha Limpa estabelece restrições principalmente em casos de condenação criminal transitada em julgado ou proferida por órgão judicial colegiado, além de outras hipóteses específicas previstas na legislação eleitoral.
O efeito mais imediato de um eventual indiciamento antes da campanha seria político e eleitoral. A condição de investigado formalmente apontado pela Polícia Federal poderia ser explorada por adversários, ampliar os questionamentos públicos sobre o financiamento do filme e obrigar a candidatura a dedicar parte de sua comunicação à apresentação de explicações.
O Partido Liberal escolheu Flávio Bolsonaro como candidato à Presidência da República em convenção nacional realizada no sábado (25/07/2026), um dia depois da manifestação de Maierovitch. A escolha partidária ainda deverá ser formalizada perante a Justiça Eleitoral dentro do prazo de registro das candidaturas.
Dia 16 de agosto marca início da propaganda eleitoral
O calendário aprovado pelo Tribunal Superior Eleitoral estabelece 15 de agosto como prazo final para que partidos, federações e coligações registrem suas candidaturas. A partir de 16 de agosto, estarão permitidas a propaganda eleitoral geral, inclusive na internet, a realização de comícios e outras atividades formais de campanha.
Foi com base nesse marco eleitoral que Maierovitch projetou a possibilidade de indiciamento até 16 de agosto. Não há, entretanto, informação pública de que a Polícia Federal tenha assumido compromisso ou recebido determinação judicial para concluir essa etapa da investigação até essa data.
O andamento dependerá do cumprimento das diligências, da obtenção de documentos, da análise dos fluxos financeiros e das oitivas consideradas necessárias. A PF possui autonomia técnica para avaliar se existem elementos suficientes para indiciar algum dos investigados e em qual momento essa decisão poderá ser formalizada.
Linha do tempo do caso “Dark Horse”
Dezembro de 2024
- 08/12/2024: mensagens analisadas pela imprensa indicam a articulação de uma aproximação entre Flávio Bolsonaro e Daniel Vorcaro.
- 11/12/2024: teria sido marcada uma reunião na residência do empresário para discutir o financiamento do filme.
Fevereiro a maio de 2025
- Documentos indicam a realização de seis transferências, que teriam somado aproximadamente US$ 10,6 milhões, equivalentes a cerca de R$ 61 milhões, para estruturas relacionadas ao projeto cinematográfico.
Setembro de 2025
- 08/09/2025: áudio atribuído a Flávio Bolsonaro registra cobrança pela retomada dos pagamentos e preocupação com atrasos na produção.
Novembro de 2025
- 16/11/2025: nova mensagem atribuída ao senador reforça a cobrança por recursos e demonstra proximidade com Daniel Vorcaro.
- 17/11/2025: o empresário é preso no contexto das investigações sobre o Banco Master.
- 18/11/2025: o Banco Central determina a liquidação da instituição financeira.
Maio de 2026
- 13/05/2026: reportagens divulgam áudios, mensagens e documentos sobre as tratativas financeiras. O material aponta um financiamento negociado de até US$ 24 milhões, com aproximadamente US$ 10,6 milhões efetivamente transferidos.
Junho de 2026
- O deputado Lindbergh Farias apresenta ao STF pedido de investigação sobre a origem e o destino dos recursos.
- A Procuradoria-Geral da República manifesta-se favoravelmente à apuração e indica que o caso deve tramitar sob a relatoria de André Mendonça.
Julho de 2026
- 23/07/2026: André Mendonça autoriza a Polícia Federal a abrir o inquérito e rastrear o caminho dos recursos.
- 24/07/2026: Wálter Maierovitch avalia que Flávio Bolsonaro poderá ser indiciado até 16 de agosto.
- 25/07/2026: o PL oficializa, em convenção partidária, a escolha de Flávio Bolsonaro para disputar a Presidência da República.








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