Nesta segunda-feira (20/07/2026), a leitura conjunta das principais pesquisas eleitorais divulgadas desde abril mostra uma mudança relevante na geografia da disputa presidencial: o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) ultrapassou o senador Flávio Bolsonaro (PL) no Sudeste, região em que o campo bolsonarista havia obtido vantagem nas eleições de 2022, enquanto permanece à frente no Nordeste, embora registre sinais de desgaste na avaliação do governo e entre beneficiários de programas sociais. A pesquisa Genial/Quaest de julho atribui a Lula 40% das intenções de voto no primeiro turno, contra 28% de Flávio, e aponta vitória do presidente por 45% a 37% em eventual segundo turno.
Pesquisa Quaest amplia vantagem nacional de Lula
A 27ª rodada da pesquisa Genial/Quaest ouviu 2.004 eleitores, entre os dias 10 e 13 de julho de 2026, em 120 municípios. O levantamento possui margem de erro nacional de dois pontos percentuais, nível de confiança de 95% e registro no Tribunal Superior Eleitoral — TSE sob o número BR-07181/2026.
No cenário estimulado de primeiro turno, Lula alcançou 40%, seu maior resultado na série iniciada em fevereiro. Flávio Bolsonaro apareceu com 28%, depois de registrar 33% em maio e 29% em junho. Ronaldo Caiado marcou 4%; Renan Santos, 3%; Romeu Zema, 2%; e os demais nomes testados ficaram entre zero e 1%. Indecisos representaram 11%, enquanto votos brancos, nulos ou a declaração de não comparecimento somaram 8%.
No confronto direto, Lula passou de uma vantagem de seis pontos em junho — 44% a 38% — para oito pontos em julho, quando marcou 45% contra 37%. O presidente também liderou as simulações contra Ronaldo Caiado, por 45% a 36%; Romeu Zema, por 45% a 35%; e Renan Santos, por 45% a 33%.
A avaliação do governo apresentou equilíbrio: 48% aprovam e 47% desaprovam a administração federal. Em abril, a aprovação estava em 43%, diante de 52% de desaprovação. Desde então, o indicador positivo avançou cinco pontos, enquanto o negativo recuou nove. Na avaliação qualitativa, 36% classificaram o governo como positivo, 36% como negativo e 26% como regular.
Sudeste registra inversão entre Lula e Flávio Bolsonaro
O movimento mais expressivo ocorreu no Sudeste, maior região eleitoral do país. Em abril, Flávio Bolsonaro aparecia com 36%, diante de 31% de Lula. Três meses depois, o presidente passou a liderar por 35% a 28%, resultado de um avanço de quatro pontos do petista e de uma queda de oito pontos do adversário.
A avaliação do governo acompanhou essa mudança. A aprovação no Sudeste subiu de aproximadamente 38% para 44%, enquanto a desaprovação recuou de 58% para 50%. Embora o saldo regional continue numericamente desfavorável à administração federal, a diferença diminuiu de maneira significativa entre abril e julho.
O deslocamento possui peso eleitoral porque o Sudeste reúne São Paulo, Minas Gerais, Rio de Janeiro e Espírito Santo. Em 2022, Jair Bolsonaro obteve vantagem expressiva em São Paulo, Rio de Janeiro e Espírito Santo, enquanto Lula venceu por pequena diferença em Minas Gerais. A recuperação presidencial nessa região, caso se mantenha, pode reduzir a dependência do desempenho historicamente elevado do PT no Nordeste.
Rio de Janeiro apresenta mudança em relação a abril
No Rio de Janeiro, pesquisa do Instituto Paraná divulgada em 2 de julho mostrou Lula com 41,6% das intenções de voto no primeiro turno, diante de 38,6% de Flávio Bolsonaro. Em abril, o quadro era inverso: Flávio tinha 39,6%, e Lula, 36,7%.
Em eventual segundo turno entre os dois, o levantamento registrou 44,7% para Lula e 44,4% para Flávio, configurando empate técnico. Em abril, o senador liderava por 47% a 40,5%. A pesquisa ouviu 1.600 eleitores fluminenses e foi registrada no TSE sob o número BR-05371/2026.
A aprovação do governo no estado também avançou. O índice passou de 41,4% em abril para 47,9% em julho, enquanto a desaprovação caiu de 55,2% para 49,3%. A avaliação positiva — soma de ótimo e bom — ficou em 33,8%, ante 41,7% de ruim ou péssimo.
São Paulo permanece dividido
Em São Paulo, pesquisa Datafolha realizada entre 1º e 3 de julho registrou empate de 35% entre Lula e Flávio Bolsonaro no primeiro turno. Em eventual confronto direto, Flávio apareceu com 46%, e Lula, com 43%, diferença compreendida no limite de competitividade indicado pela margem de erro de dois pontos percentuais.
O levantamento ouviu 1.608 eleitores e foi registrado sob os protocolos SP-01703/2026 e BR-06481/2026. A situação paulista evidencia que a recuperação do presidente no Sudeste não ocorre de forma uniforme: Lula ampliou sua competitividade, mas a oposição mantém força eleitoral relevante, sobretudo no interior e nos segmentos mais conservadores.
Nordeste mantém ampla vantagem para Lula
No Nordeste, Lula continua com seu melhor desempenho regional. A pesquisa Genial/Quaest atribui ao presidente 55% das intenções de voto, contra 24% de Flávio Bolsonaro. A diferença de 31 pontos mantém a região como principal base territorial do lulismo e supera amplamente as margens verificadas no Sudeste, Sul e Centro-Oeste/Norte.
A aprovação do governo alcança 61% entre os nordestinos, diante de 35% de desaprovação. O resultado é superior à média nacional, mas a série dos últimos meses indica redução gradual da aprovação e aumento da avaliação negativa, movimento diferente daquele observado nas demais regiões.
Portanto, os dados não indicam perda da liderança regional nem ruptura da base eleitoral petista. O que aparece é uma erosão proporcional em um território no qual Lula obteve, em 2022, percentuais próximos ou superiores a 70% em diversos estados. Uma diminuição dessa margem pode ter importância nacional, mesmo que o presidente continue vencendo com ampla vantagem.
Bolsa Família apresenta oscilação entre junho e julho
Pesquisa Nexus/BTG divulgada em 14 de julho identificou mudança entre eleitores que recebem o Bolsa Família ou vivem em domicílios beneficiários. A intenção de voto em Lula caiu de 68% em junho para 58% em julho, enquanto Flávio Bolsonaro avançou de 13% para 25% nesse segmento.
O levantamento entrevistou 2.003 eleitores por telefone, entre 10 e 12 de julho, com margem de erro de dois pontos percentuais e nível de confiança de 95%. A pesquisa foi contratada pelo BTG Pactual e registrada no TSE sob o protocolo BR-07981/2026.
A variação precisa ser acompanhada nas próximas rodadas porque se trata de um grupo historicamente favorável ao presidente e numericamente importante no Nordeste. Uma pesquisa isolada, entretanto, não permite concluir que houve transferência consolidada de votos ou mudança estrutural, especialmente porque os resultados podem oscilar dentro das margens específicas dos recortes amostrais.
Popularidade de Lula não se transfere automaticamente aos aliados
A vantagem presidencial no Nordeste não se reproduz de maneira automática nas disputas estaduais. Na Bahia, pesquisas realizadas por diferentes institutos apresentaram resultados divergentes entre o governador Jerônimo Rodrigues (PT) e o ex-prefeito de Salvador ACM Neto (União Brasil).
Em março, a RealTime Big Data mostrou ACM Neto com 44% e Jerônimo com 39%, diferença próxima ao limite da margem de erro. Em maio, levantamento do Instituto Ipsensus registrou o governador numericamente à frente. As diferenças metodológicas, os períodos de coleta e os cenários testados impedem que um único levantamento seja utilizado como retrato definitivo da disputa baiana.
O histórico eleitoral também recomenda cautela. Em 2022, Lula recebeu 6.097.815 votos na Bahia, equivalentes a 72,12% dos votos válidos, enquanto Jair Bolsonaro obteve 2.357.028, ou 27,88%. A vantagem de 3.740.787 votos registrada no estado foi superior à diferença nacional entre os dois candidatos. Ainda assim, o desempenho presidencial não impediu que a eleição estadual fosse decidida apenas no segundo turno.
Eleitor independente altera equilíbrio da disputa
Outro componente da recuperação de Lula é o eleitor que não se declara alinhado ao lulismo nem ao bolsonarismo. Em eventual segundo turno, o presidente passou de 26% em abril para 40% em julho nesse segmento. No mesmo período, Flávio Bolsonaro recuou de 33% para 27%.
A mudança representa uma inversão de 20 pontos na diferença entre os dois nomes: Flávio liderava por sete pontos e passou a ficar 13 pontos atrás. Esse eleitorado tende a apresentar menor fidelidade partidária e maior sensibilidade a temas como inflação, emprego, segurança pública, saúde, desempenho administrativo e comportamento dos candidatos.
A Quaest também mostra que 65% dos eleitores que já escolheram um nome consideram o voto definitivo, enquanto 35% admitem mudança. Entre os apoiadores de Lula, 77% classificam sua decisão como consolidada; entre os eleitores de Flávio, o índice é de 62%. Os números indicam maior estabilidade da base presidencial, mas preservam um contingente relevante disponível para disputa durante a campanha oficial.
Questões econômicas e segurança influenciam o comportamento eleitoral
A melhora eleitoral de Lula ocorre apesar de persistirem avaliações críticas sobre custo de vida, poder de compra e emprego. A pesquisa Quaest mostra que a percepção econômica continua menos favorável do que os resultados de intenção de voto e aprovação do governo.
A violência aparece como a principal preocupação nacional, mencionada por 31% dos entrevistados. Saúde e economia registram 15% cada; corrupção, 14%; problemas sociais, 13%; e educação, 5%. Esses temas tendem a ganhar centralidade durante a campanha por atingirem diretamente a vida cotidiana e influenciarem o eleitor menos identificado ideologicamente.
O levantamento também registrou rejeição de 57% a Flávio Bolsonaro, enquanto 51% dos entrevistados afirmaram que Lula não merece permanecer por mais quatro anos e 45% defenderam a continuidade. A combinação entre rejeição elevada aos principais nomes e avaliação dividida do governo mantém aberta a possibilidade de oscilações durante o período eleitoral.
Linha do tempo da disputa presidencial de 2022 a julho de 2026
- 30/10/2022 — Lula vence o segundo turno: o petista recebeu 60.345.999 votos, equivalentes a 50,90% dos válidos. Jair Bolsonaro obteve 58.206.354 votos, ou 49,10%. A diferença nacional foi de 2.139.645 votos.
- 11/02/2026 — Avaliação do governo permanece negativa: a Genial/Quaest registrou 45% de aprovação e 49% de desaprovação. No Nordeste, 61% aprovavam o governo; no Sudeste, 42%.
- 27/02/2026 — Paraná Pesquisas mostra disputa regionalizada: Lula tinha 55,5% no Nordeste, contra 27,6% de Flávio. No Sudeste, Flávio aparecia com 37,2%, e Lula, com 36%, caracterizando equilíbrio.
- Abril de 2026 — Flávio lidera no Sudeste: a série da Quaest apontava o senador com 36% e Lula com 31%. Entre independentes, Flávio tinha 33%, e Lula, 26%, em eventual segundo turno.
- 02/07/2026 — Lula cresce no Rio de Janeiro: o Paraná Pesquisas registrou 41,6% para Lula e 38,6% para Flávio no primeiro turno; no segundo, houve empate numérico de 44,7% a 44,4%.
- 08/07/2026 — Datafolha registra empate em São Paulo: Lula e Flávio marcaram 35% no primeiro turno. No confronto direto, Flávio teve 46%, e Lula, 43%, dentro de um cenário competitivo pela margem de erro.
- 14/07/2026 — Nexus/BTG aponta oscilação no Bolsa Família: Lula passou de 68% para 58% entre beneficiários ou moradores de domicílios atendidos, enquanto Flávio avançou de 13% para 25%.
- 15/07/2026 — Quaest mostra Lula com maior vantagem da série: o presidente alcançou 40% no primeiro turno, contra 28% de Flávio, e liderou o segundo turno por 45% a 37%. No Sudeste, Lula marcou 35% e Flávio, 28%; no Nordeste, o resultado foi de 55% a 24%.
- 20/07/2026 — Início das convenções partidárias: partidos e federações passam a formalizar candidaturas e alianças até 5 de agosto. O registro das chapas deve ocorrer até 15 de agosto, e a propaganda eleitoral começa em 16 de agosto. O primeiro turno será realizado em 4 de outubro, e eventual segundo turno, em 25 de outubro de 2026.
A recuperação de Lula no Sudeste é o elemento politicamente mais relevante da sequência de pesquisas. A região havia sido decisiva para Jair Bolsonaro em 2022 e concentra os maiores colégios eleitorais do país. O avanço presidencial, entretanto, não representa domínio consolidado: São Paulo permanece dividido, o Rio de Janeiro apresenta empate técnico em segundo turno e Minas Gerais ainda será influenciada pela definição dos palanques estaduais e pela presença de outras candidaturas do campo conservador.
No Nordeste, os dados exigem interpretação proporcional. Lula continua liderando por mais de 30 pontos e mantém aprovação superior a 60%, o que impede classificar o quadro como perda do reduto eleitoral. Há, contudo, sinais de redução da margem histórica, especialmente na avaliação do governo e entre beneficiários do Bolsa Família. O impacto nacional dependerá da capacidade do presidente de conservar os percentuais regionais de 2022 e, simultaneamente, ampliar sua votação no Sudeste.
O cenário permanece aberto porque pesquisas representam retratos do período de coleta, não previsões definitivas. A campanha formal, a evolução dos preços e da renda, a segurança pública, a formação dos palanques estaduais e a rejeição aos principais nomes serão determinantes. As próximas rodadas deverão indicar se o avanço de Lula no Sudeste e a oscilação no Nordeste constituem tendências duradouras ou movimentos circunstanciais antes das urnas de outubro.
*Real Time Big Data, divulgada em 12/03/2026: BA-08855/2026. O levantamento ouviu 2 mil eleitores nos dias 10 e 11 de março.
*Instituto Ipsensus, divulgada em 21/05/2026: BA-07247/2026. A pesquisa ouviu 1.500 eleitores entre 9 e 13 de maio.







Deixe um comentário