Presidente Milei diz que só Flávio Bolsonaro pode “parar Lula”, PL oficializa candidatura e Itamaraty nega vistos a enviados de Trump

Neste sábado (25/07/2026), o Partido Liberal — PL — oficializou, durante convenção nacional realizada na Arena Pacaembu, em São Paulo, a escolha do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) como candidato à Presidência da República, em um ato marcado pela presença do presidente da Argentina, Javier Milei, por apelos à união da direita e por críticas ao presidente Lula, à esquerda, ao Judiciário e ao sistema político. Paralelamente, o Ministério das Relações Exteriores confirmou que negou vistos a dois integrantes do Governo Donald Trump que pretendiam vir ao Brasil para discutir temas relacionados às eleições, à liberdade de expressão e ao sistema eletrônico de votação.

Convenção do PL oficializa Flávio Bolsonaro à Presidência

A convenção confirmou formalmente a candidatura presidencial de Flávio Bolsonaro, escolhida pelo PL após meses de articulações internas e negociações com partidos do campo conservador. O evento começou por volta das 11h15 e reuniu dirigentes nacionais, parlamentares, autoridades estaduais e representantes do bolsonarismo. A candidatura ainda deverá ser registrada perante a Justiça Eleitoral até 15/08/2026, conforme o calendário definido pelo Tribunal Superior Eleitoral — TSE.

Entre os participantes estavam o presidente nacional do PL, Valdemar Costa Neto, o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas, o prefeito paulistano, Ricardo Nunes, e os senadores Rogério Marinho e Sergio Moro. Familiares do candidato, incluindo sua mãe, Rogéria Bolsonaro, e seu irmão Renan Bolsonaro, também acompanharam a cerimônia.

A ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro não compareceu presencialmente, mas enviou uma mensagem em vídeo. Na gravação, destacou a participação feminina na política e manifestou apoio à candidatura. A aparição ocorreu depois de uma tentativa de reconciliação entre Michelle e Flávio Bolsonaro, após divergências públicas relacionadas às articulações eleitorais do grupo.

Flávio associa candidatura ao legado de Jair Bolsonaro

Em seu discurso, Flávio Bolsonaro afirmou que pretende “resgatar o Brasil” e vinculou sua candidatura à trajetória política do pai, o ex-presidente Jair Bolsonaro. Ao abordar a situação jurídica do ex-chefe do Executivo, classificou-a como perseguição e prometeu honrar seu legado político. O senador também criticou decisões judiciais e falou em supostos abusos e perseguições, sem mencionar nominalmente magistrados ou tribunais específicos.

O evento exibiu ainda um vídeo produzido com recursos de inteligência artificial no qual Jair Bolsonaro aparecia orientando os apoiadores a receberem o candidato escolhido. A utilização da gravação reforçou a tentativa de transferir para Flávio Bolsonaro a liderança eleitoral e a identificação política construídas pelo ex-presidente.

No campo programático, o candidato defendeu propostas relacionadas ao endurecimento das penas, à ampliação do número de presídios federais e à expansão das escolas cívico-militares. Os discursos também abordaram segurança pública, combate ao crime organizado, redução do tamanho do Estado e políticas econômicas de orientação liberal.

Escolha do candidato a vice permanece indefinida

Apesar da oficialização da candidatura presidencial, o PL não anunciou o nome que ocupará a vice-presidência. A legenda mantém negociações com o Republicanos e com a federação formada por União Brasil e Progressistas, denominada União-PP, numa tentativa de ampliar a coligação, o tempo de propaganda eleitoral e a estrutura partidária da campanha.

A composição da chapa é um dos principais obstáculos enfrentados pelo partido. O Republicanos possui entre seus principais quadros o governador Tarcísio de Freitas, enquanto União Brasil e Progressistas concentram bancadas expressivas no Congresso e estruturas regionais relevantes. Até o momento, entretanto, não existe acordo público para que essas legendas apoiem formalmente a candidatura presidencial do PL.

O prazo para a realização das convenções termina em 05/08/2026. Os partidos terão até 15/08/2026 para registrar as chapas perante a Justiça Eleitoral, e a propaganda eleitoral geral será autorizada a partir de 16/08/2026.

Milei declara apoio e associa Lula ao socialismo

Principal convidado internacional da convenção, Javier Milei utilizou o discurso para declarar apoio direto a Flávio Bolsonaro, atacar governos de esquerda e apresentar a disputa presidencial brasileira como parte de um confronto político regional entre forças liberais e socialistas.

“Eu creio que somente Flávio pode parar Lula e trazer uma verdadeira mudança para todos os brasileiros.”

O presidente argentino também associou o Governo Lula ao socialismo, afirmou que o Brasil correria riscos econômicos e institucionais caso permanecesse sob essa orientação e declarou confiar em Flávio Bolsonaro para combater organizações criminosas e grupos ligados ao narcotráfico. As declarações foram apresentadas como posicionamentos políticos de Milei, sem a divulgação de dados técnicos que comprovassem as previsões formuladas sobre o Brasil.

O argentino afirmou ainda que as forças de direita deveriam se preparar para uma eleição conflituosa, criticou setores da esquerda e incentivou manifestações contra o presidente Lula. Durante a fala, reclamou de não ter conseguido visitar Jair Bolsonaro e enviou uma saudação pública ao ex-presidente, a quem chamou de amigo.

“Onda azul” torna-se eixo político da convenção

Os discursos de lideranças do PL e de aliados utilizaram a expressão “onda azul” para defender uma expansão eleitoral da direita na América Latina e no Brasil. O prefeito Ricardo Nunes afirmou que o movimento deveria alcançar governos estaduais e cadeiras do Senado, enquanto outros participantes pediram que divergências pessoais e partidárias fossem superadas em torno da candidatura presidencial.

A presença de Milei conferiu dimensão internacional ao ato e reforçou a tentativa do PL de inserir a candidatura de Flávio Bolsonaro em uma rede regional de movimentos conservadores. Antes da convenção, o presidente argentino reuniu-se com Tarcísio de Freitas no Palácio dos Bandeirantes e recebeu a Ordem do Ipiranga, maior honraria concedida pelo Estado de São Paulo. Flávio Bolsonaro e Ricardo Nunes também participaram da agenda.

A participação de um chefe de Estado estrangeiro em uma convenção partidária brasileira constitui um gesto político incomum e evidencia o alinhamento entre Milei e o bolsonarismo. O apoio ocorre em um contexto no qual diferentes lideranças conservadoras procuram apresentar recentes resultados eleitorais da América Latina como parte de uma mudança regional de orientação política.

Itamaraty nega vistos a integrantes do Governo Trump

Enquanto Milei participava da convenção em São Paulo, o Itamaraty confirmou que havia negado, na sexta-feira (24/07/2026), os pedidos de visto de Riley M. Barnes e Samuel Samson, integrantes do Departamento de Estado dos Estados Unidos.

Barnes ocupa o cargo de secretário-assistente para Democracia, Direitos Humanos e Trabalho, enquanto Samson atua como secretário-assistente adjunto. Segundo informações atribuídas a autoridades brasileiras, os norte-americanos pretendiam reunir-se com autoridades eleitorais para discutir liberdade de expressão e assuntos relacionados às eleições presidenciais de outubro. (

A avaliação do Governo brasileiro foi de que a visita poderia representar uma instrumentalização política do debate sobre as eleições e o sistema eletrônico de votação. O pedido ocorreu poucos dias depois de um encontro de políticos brasileiros com diplomatas, durante o qual foram levantadas suspeitas sobre as urnas eletrônicas.

Fontes brasileiras ouvidas pela Reuters apresentaram uma interpretação mais específica: a missão norte-americana teria a intenção de questionar a integridade do sistema eleitoral e influenciar o ambiente político anterior à votação. O Departamento de Estado dos Estados Unidos não havia respondido ao pedido de comentário da agência até a publicação da reportagem.

A ausência de uma manifestação pública detalhada do Governo norte-americano impede, até o momento, a confirmação independente de todas as agendas e dos objetivos atribuídos aos representantes. Permanecem, portanto, a versão brasileira sobre uma possível interferência política e a informação de que os enviados pretendiam abordar liberdade de expressão e procedimentos eleitorais.

Declaração sobre Smartmatic antecedeu tensão diplomática

A controvérsia começou a ganhar maior dimensão na terça-feira (21/07/2026), quando Flávio Bolsonaro participou de um encontro com representantes diplomáticos em Brasília e associou as urnas eletrônicas brasileiras à empresa Smartmatic. Durante o evento, o senador também defendeu o envio de observadores internacionais para acompanhar as eleições. (

A associação entre a Smartmatic e a fabricação ou programação das urnas brasileiras é falsa. O TSE esclarece que o projeto do equipamento e do sistema eletrônico de votação foi concebido e é administrado pela Justiça Eleitoral. Os aparelhos são fabricados por empresas selecionadas mediante licitações públicas, sob coordenação direta dos técnicos do tribunal.

Segundo a Corte, a Smartmatic nunca forneceu urnas nem participou da programação dos equipamentos. A empresa prestou, em outros períodos, serviços de conexão de dados, voz e treinamento de profissionais de suporte, sem atuar na fabricação das máquinas ou na apuração dos votos. Ela também participou de uma licitação para produzir urnas em 2020, mas foi derrotada pela Positivo Tecnologia.

Após a repercussão, a equipe de Flávio Bolsonaro afirmou ter “integral confiança” no processo eleitoral e sustentou que o senador não pretendia questionar a integridade das urnas. A manifestação, contudo, não apresentou elementos que comprovassem a vinculação inicialmente indicada entre a Smartmatic e os equipamentos utilizados no país.

A Federação Brasil da Esperança, formada por PT, PV e PCdoB, protocolou representação no TSE contra Flávio Bolsonaro e outros parlamentares. A ação solicitou a retirada de publicações que relacionavam a Smartmatic às urnas brasileiras e pediu a aplicação de multa de até R$ 30 mil aos envolvidos.

Reuniões com diplomatas possuem precedente eleitoral

O episódio recupera a memória institucional da reunião promovida por Jair Bolsonaro com embaixadores estrangeiros em 18/07/2022, quando o então presidente apresentou questionamentos sem comprovação sobre o sistema eletrônico de votação. O encontro foi transmitido por veículos e canais oficiais do Governo Federal.

Em junho de 2023, o TSE concluiu, por cinco votos a dois, que houve abuso de poder político e uso indevido dos meios de comunicação. A decisão declarou Jair Bolsonaro inelegível por oito anos, contados a partir das eleições de 2022.

Embora os episódios de 2022 e 2026 possuam contextos jurídicos e políticos próprios, a utilização de encontros com representantes estrangeiros para discutir a confiabilidade das eleições voltou a ocupar posição central no debate público, agora acompanhada de uma controvérsia diplomática direta entre Brasil e Estados Unidos.

Linha do tempo

  • 20/07/2026: começa o período oficial das convenções partidárias para escolha dos candidatos às eleições gerais.
  • 21/07/2026: Flávio Bolsonaro reúne-se com representantes diplomáticos, associa incorretamente as urnas brasileiras à Smartmatic e pede o envio de observadores internacionais.
  • 22/07/2026: o TSE reitera que a Smartmatic não fornece urnas ou programas utilizados no sistema eleitoral brasileiro.
  • 22/07/2026: PT, PV e PCdoB apresentam representação ao TSE contra Flávio Bolsonaro e aliados.
  • 24/07/2026: o Itamaraty nega vistos a Riley Barnes e Samuel Samson, integrantes do Departamento de Estado dos Estados Unidos.
  • 25/07/2026: Javier Milei reúne-se com Tarcísio de Freitas, recebe a Ordem do Ipiranga e participa da convenção do PL em São Paulo.
  • 25/07/2026: o PL oficializa Flávio Bolsonaro como candidato à Presidência, mas mantém indefinida a vaga de vice.
  • 05/08/2026: termina o prazo para as convenções partidárias.
  • 15/08/2026: encerra-se o prazo para o registro formal das candidaturas.
  • 16/08/2026: começa a propaganda eleitoral geral nas ruas e na internet.
  • 04/10/2026: realização do primeiro turno das eleições gerais.
  • 25/10/2026: eventual segundo turno para presidente e governadores. (

A convenção consolidou Flávio Bolsonaro como representante presidencial do PL, mas não solucionou a principal fragilidade política da candidatura: a construção de uma coligação mais ampla. A permanência da vaga de vice em aberto e a ausência de apoio formal de partidos relevantes indicam que a unidade apresentada no palco ainda depende de negociações nacionais e regionais. A presença de Milei fortalece a mobilização do eleitorado ideologicamente próximo ao bolsonarismo, mas também amplia a internacionalização da disputa brasileira.

A negativa dos vistos acrescenta uma dimensão diplomática à controvérsia sobre as urnas. O Governo brasileiro sustenta que a missão poderia ser utilizada para interferir politicamente no processo eleitoral, enquanto o Departamento de Estado ainda precisa esclarecer publicamente os objetivos, as agendas e os interlocutores previstos. A transparência de ambos os governos será necessária para distinguir atividades diplomáticas regulares de eventuais iniciativas destinadas a influenciar a competição interna.

O episódio envolve três frentes que permanecerão sob acompanhamento: a definição do candidato a vice de Flávio Bolsonaro, o andamento das ações eleitorais relacionadas às declarações sobre a Smartmatic e a resposta oficial dos Estados Unidos à negativa dos vistos. O PL, o TSE, o Itamaraty e o Departamento de Estado norte-americano terão papel direto nos próximos desdobramentos, enquanto os prazos de agosto conduzirão a disputa para a fase formal de registros e propaganda.


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