Tarifas de Trump ameaçam exportações de pneus e ampliam risco sobre indústria e empregos em Feira de Santana

Neste sábado (25/07/2026), Feira de Santana enfrenta um novo fator de risco para sua atividade industrial após a entrada em vigor das tarifas adicionais impostas pelo Governo Trump aos produtos brasileiros. Embora os efeitos sobre toda a economia municipal devam ocorrer de maneira gradual, a elevada participação dos Estados Unidos nas exportações locais e a concentração da pauta em pneumáticos colocam a indústria feirense entre as mais expostas da Bahia. O governador Jerônimo Rodrigues e a Federação das Indústrias do Estado da Bahia (FIEB) defendem negociação diplomática, inclusão de produtos baianos nas listas de exceções, proteção aos empregos e a criação de uma agenda estadual de apoio às cadeias produtivas atingidas.

Feira concentra exportações em pneus e depende do mercado dos Estados Unidos

Dados baseados no sistema oficial Comex Stat indicam que Feira de Santana exportou aproximadamente US$ 61,9 milhões entre maio de 2025 e abril de 2026. Desse total, cerca de US$ 35 milhões tiveram os Estados Unidos como destino, o equivalente a 56,5% das vendas externas municipais no período.

O grau de dependência do mercado norte-americano é significativamente superior ao observado no conjunto da economia baiana. Em 2025, os Estados Unidos receberam 7,1% das exportações da Bahia. No primeiro semestre de 2026, essa participação caiu para 6,3%, segundo o Observatório da Indústria da FIEB.

A diferença demonstra que o risco não está distribuído igualmente pelo território estadual. Para a Bahia como um todo, o mercado norte-americano ocupa a quarta posição entre os destinos das exportações. Para Feira de Santana, entretanto, os Estados Unidos representam mais da metade do valor exportado.

Essa exposição torna-se ainda mais relevante porque a pauta municipal é altamente concentrada. Os pneumáticos novos de borracha movimentaram aproximadamente US$ 55,8 milhões, correspondendo a cerca de 90,1% das exportações feirenses no período analisado. Quando somados os pneus recauchutados, usados, protetores e bandas de rodagem, a participação da cadeia chega a aproximadamente 92,2% da pauta externa municipal.

O município, portanto, não enfrenta apenas uma dependência geográfica de um mercado consumidor. Enfrenta também uma dependência setorial, porque quase todo o valor exportado está vinculado à indústria de pneus, borracha e polímeros.

Tarifas podem atingir 37,5% em determinados produtos

A primeira medida foi anunciada pelo Escritório do Representante Comercial dos Estados Unidos, o USTR, em 15/07/2026. A decisão estabeleceu uma tarifa adicional de 25% sobre produtos brasileiros não incluídos nas listas de exceções. A cobrança entrou em vigor em 22/07/2026.

A medida foi adotada no âmbito da Seção 301 do Trade Act de 1974. O Governo Trump justificou a decisão com alegações relacionadas a comércio digital, serviços de pagamento eletrônico, propriedade intelectual, tratamento tarifário, acesso ao mercado de etanol, políticas anticorrupção e desmatamento ilegal.

Em 23/07/2026, o Governo Trump anunciou uma segunda tarifa, desta vez de 12,5%, sob o argumento de que o Brasil não possuiria mecanismos considerados suficientes pelos Estados Unidos para impedir a importação de mercadorias produzidas com trabalho forçado. A nova cobrança passou a valer em 24/07/2026.

Nos produtos simultaneamente alcançados pelas duas investigações e não contemplados por exceções, a carga adicional poderá atingir 37,5 pontos percentuais, além das tarifas ordinárias eventualmente aplicáveis. Segundo o Governo Federal, aproximadamente 16,5% das exportações brasileiras aos Estados Unidos podem ficar sujeitas à incidência combinada de 37,5%.

A incidência efetiva dependerá da classificação tarifária de cada mercadoria, das regras de origem, do uso declarado, das condições de entrada e das exceções estabelecidas pelas autoridades norte-americanas.

Pressão financeira pode alcançar milhões de dólares

Caso os US$ 35 milhões exportados por Feira de Santana aos Estados Unidos estivessem integralmente sujeitos à tarifa adicional, o custo bruto na entrada das mercadorias no mercado norte-americano alcançaria aproximadamente:

Cenário tarifário Custo adicional estimado
Tarifa de 25% US$ 8,75 milhões
Tarifas acumuladas de 37,5% US$ 13,13 milhões

Os valores não devem ser interpretados como uma perda automática para a economia feirense. A tarifa é recolhida pelo importador na alfândega dos Estados Unidos. O impacto econômico, contudo, pode ser transferido total ou parcialmente ao exportador brasileiro.

Importadores norte-americanos podem exigir descontos, renegociar contratos, reduzir encomendas, substituir fornecedores ou repassar os custos aos consumidores. Quanto maior a capacidade do comprador de encontrar produtos equivalentes em outros países, maior será a pressão para que o fabricante brasileiro absorva parte da tarifa.

Se o exportador feirense fosse obrigado a absorver metade de uma sobretaxa de 37,5%, por exemplo, a compressão financeira poderia se aproximar de US$ 6,6 milhões, sem considerar eventual redução das quantidades vendidas.

Governador Jerônimo Rodrigues determina agenda de proteção à indústria

O governador Jerônimo Rodrigues reuniu-se, na sexta-feira (24/07), no SENAI Cimatec, em Salvador, com dirigentes da FIEB e representantes das indústrias de celulose, fibras naturais, produtos químicos, petroquímicos, pneumáticos e plásticos.

Durante o encontro, os representantes empresariais apresentaram riscos relacionados à perda de competitividade, redução das exportações, revisão de contratos, retração de investimentos e ameaça aos empregos industriais.

Jerônimo Rodrigues afirmou que o Estado continuará atuando de forma articulada com o Governo Federal para buscar soluções negociadas. O governador determinou a elaboração de uma “agenda de proteção à indústria baiana”, com medidas de competência estadual e demandas que serão encaminhadas à União.

A posição do Governo da Bahia combina negociação internacional, atuação institucional junto ao Governo Federal e discussão de instrumentos estaduais capazes de reduzir os efeitos sobre empresas e trabalhadores.

Jerônimo também defende que os produtos relevantes para a economia baiana sejam incluídos nas listas de exceções estabelecidas pelos Estados Unidos. Essa atuação dá continuidade ao grupo de trabalho criado anteriormente entre o Governo do Estado, a FIEB e representantes dos setores produtivos para acompanhar as barreiras comerciais e formular alternativas.

A estratégia estadual parte do entendimento de que as tarifas não atingem apenas grandes exportadores. Seus efeitos podem alcançar fornecedores, prestadores de serviços, transportadoras, trabalhadores, municípios industriais e receitas públicas.

FIEB defende diálogo, exceções e proteção ao mercado brasileiro

A FIEB considera a relação econômica entre Brasil e Estados Unidos estratégica e sustenta que o conflito deve ser enfrentado por meio de diálogo, cooperação e análise técnica dos impactos setoriais e regionais.

O levantamento da entidade mostra que a Bahia exportou US$ 821,4 milhões aos Estados Unidos em 2025. Desse total, US$ 273,1 milhões, equivalentes a 33,2%, permanecem sujeitos à tarifa adicional de 25%. Outros US$ 548,3 milhões, ou 66,8%, estão incluídos em categorias inicialmente isentas.

A incidência tarifária está concentrada em três cadeias industriais:

  • papel e celulose: US$ 104 milhões;
  • borracha e produtos plásticos: US$ 78,5 milhões;
  • produtos químicos: US$ 61,8 milhões.

Os três segmentos concentram 89,4% do valor das exportações baianas atingidas pela tarifa de 25%.

No caso de Feira de Santana, a parcela relacionada a borracha, produtos plásticos e pneumáticos possui importância especial. A cadeia de pneus ocupa posição dominante nas exportações municipais e mantém relações diretas com fornecedores, operadores logísticos, empresas de manutenção, transportadoras e prestadores de serviços.

A FIEB defende a inclusão dos pneumáticos, produtos químicos e petroquímicos nas negociações conduzidas pelo Governo Federal com os Estados Unidos. A entidade também reivindica a reinclusão da celulose solúvel nas exceções e a manutenção das isenções já concedidas para celulose branqueada, cacau, combustíveis, frutas e café.

Além da negociação externa, a Federação propõe o fortalecimento dos mecanismos de defesa comercial no mercado brasileiro. Entre as medidas discutidas estão a avaliação de tarifas de importação, instrumentos antidumping para produtos petroquímicos e preços de referência para pneumáticos.

O objetivo é impedir que produtos anteriormente destinados aos Estados Unidos sejam desviados para o Brasil a preços artificialmente baixos, ampliando a concorrência sobre a indústria instalada no país.

Feira pode ser atingida em duas frentes

A indústria feirense poderá enfrentar simultaneamente uma redução da competitividade nos Estados Unidos e um aumento da concorrência de produtos importados no mercado brasileiro.

Na primeira frente, a sobretaxa encarece o produto fabricado no Brasil em relação a concorrentes localizados em países beneficiados por tarifas menores ou por listas mais amplas de exceção.

Na segunda, fabricantes estrangeiros que perderem participação nos Estados Unidos poderão buscar novos mercados para sua produção. O Brasil, por sua dimensão, poderá tornar-se destino para pneus, produtos químicos, plásticos e outros manufaturados.

Esse redirecionamento representa risco adicional para Feira de Santana. Mesmo empresas que não exportam diretamente podem ser atingidas pela entrada de produtos mais baratos, pela redução dos preços internos ou pela perda de espaço para concorrentes estrangeiros.

Empregos industriais entram na área de risco

O impacto sobre o mercado de trabalho tende a ocorrer de maneira gradual. O primeiro movimento provável será a redução de encomendas e da utilização da capacidade instalada. Em seguida, podem surgir cortes de horas extras, suspensão de turnos, adiamento de contratações e revisão de investimentos.

Em abril de 2026, a indústria de Feira de Santana registrou 852 admissões, em um cenário municipal de expansão do emprego formal. No acumulado dos quatro primeiros meses do ano, a cidade apresentou saldo positivo de 2.593 postos de trabalho.

Uma retração prolongada nas empresas exportadoras poderá interromper parte dessa trajetória. As consequências não ficariam limitadas aos empregados das fábricas. Poderiam alcançar serviços de transporte, alimentação, segurança, limpeza, manutenção, armazenagem, despachos aduaneiros e fornecimento de matérias-primas.

A indústria possui elevado poder multiplicador porque demanda serviços especializados e mantém relações permanentes com empresas de diferentes portes. Quando uma fábrica reduz produção, o impacto se espalha pela cadeia antes de aparecer integralmente nas estatísticas municipais.

Comércio e serviços podem sentir efeito indireto

Feira de Santana possui uma economia diversificada, sustentada principalmente por comércio, serviços, logística, construção e indústria. O município contava com 616.272 habitantes no Censo de 2022, população estimada em 660.806 pessoas em 2025 e PIB per capita de R$ 35.449,37 em 2023.

Por essa razão, as tarifas isoladamente não deverão provocar uma recessão generalizada na economia municipal. O impacto direto estará concentrado nas empresas exportadoras e nas cadeias industriais vinculadas aos produtos tarifados.

O efeito indireto, entretanto, pode alcançar o comércio e os serviços por meio da redução da massa salarial, do consumo das famílias e da contratação de fornecedores.

Menos produção industrial significa menor demanda por transporte, hospedagem, alimentação, manutenção, combustíveis, embalagens e serviços empresariais. Em uma cidade que exerce função de entreposto comercial e logístico para diferentes regiões da Bahia, a desaceleração de uma grande cadeia industrial pode produzir efeitos territoriais além dos limites municipais.

Arrecadação pode ser afetada por menor atividade econômica

Uma eventual redução das exportações não implica queda automática e proporcional da arrecadação municipal, especialmente porque as exportações possuem tratamento tributário próprio. Ainda assim, a retração da produção pode atingir receitas relacionadas à circulação econômica, aos serviços contratados e à renda gerada no município.

A diminuição dos investimentos industriais também pode reduzir a expansão futura da base tributária. Projetos de modernização, novas linhas de produção, ampliações físicas e contratação de fornecedores locais podem ser adiados enquanto persistir a incerteza comercial.

O efeito fiscal dependerá da duração das tarifas, da reação das empresas, da capacidade de diversificação dos mercados e das medidas compensatórias adotadas pelos governos estadual e federal.

Diversificação de mercados passa a ser prioridade

O mercado norte-americano representa aproximadamente 56,5% das exportações feirenses, enquanto México, Canadá, Colômbia e Argentina aparecem entre os demais destinos relevantes.

A concentração nos Estados Unidos exige uma estratégia de diversificação. México e Canadá já possuem participação relevante e podem absorver parte da produção, embora também estejam sujeitos a condições próprias de mercado, custos logísticos e acordos comerciais.

A América do Sul, a União Europeia, a África e países do Oriente Médio podem representar alternativas, mas a abertura de novos destinos exige homologações técnicas, redes comerciais, adaptação de produtos, financiamento e tempo.

A diversificação não substitui imediatamente o mercado norte-americano. Contratos industriais são construídos ao longo de anos e dependem de certificações, padrões técnicos, logística e relacionamento entre fornecedores e compradores.

Empresas deverão informar perdas e cancelamentos

O Governo da Bahia e a FIEB solicitaram que as empresas atingidas apresentem informações sobre redução de pedidos, cancelamento de contratos, queda da produção, suspensão de investimentos e mudanças nos níveis de emprego.

Os dados formarão uma base de evidências para subsidiar as negociações com o Governo Federal e as autoridades norte-americanas.

Essa etapa será essencial para separar a exposição tarifária estimada dos prejuízos efetivamente ocorridos. Os US$ 273,1 milhões identificados pela FIEB representam o valor das exportações baianas potencialmente submetidas à tarifa, e não uma previsão de perda integral.

O mesmo critério deve ser aplicado a Feira de Santana. Os US$ 35 milhões exportados aos Estados Unidos indicam o tamanho da exposição, mas ainda não demonstram quanto será perdido, renegociado ou redirecionado para outros mercados.

Síntese factual

  • Feira de Santana exportou US$ 61,9 milhões entre maio de 2025 e abril de 2026;
  • os Estados Unidos receberam aproximadamente US$ 35 milhões, ou 56,5% do total;
  • pneumáticos novos responderam por US$ 55,8 milhões;
  • pneus e produtos relacionados concentraram aproximadamente 92,2% da pauta municipal;
  • a tarifa de 25% entrou em vigor em 22/07/2026;
  • a tarifa adicional de 12,5% passou a valer em 24/07/2026;
  • determinados produtos podem enfrentar carga acumulada de 37,5%;
  • a FIEB calcula que US$ 273,1 milhões das exportações baianas de 2025 estão sujeitos à tarifa de 25%;
  • papel e celulose, borracha e plásticos e produtos químicos concentram 89,4% do valor afetado;
  • governador Jerônimo Rodrigues determinou uma agenda de proteção à indústria e articulação com o Governo Federal;
  • os dados oficiais posteriores à entrada em vigor das tarifas ainda não foram divulgados.

Dados posteriores às tarifas ainda não estão disponíveis

O Comex Stat, sistema oficial do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços, possui dados municipais atualizados somente até junho de 2026. As tarifas de 25% e 12,5% entraram em vigor nos dias 22 e 24 de julho, respectivamente.

Por esse motivo, ainda não existem estatísticas oficiais capazes de demonstrar queda de exportações, cancelamento de pedidos ou perda de participação de Feira de Santana no mercado norte-americano após as novas medidas.

Os primeiros sinais concretos deverão aparecer nos dados de agosto, setembro e outubro, considerando o intervalo entre encomenda, fabricação, embarque, transporte e registro aduaneiro.

A estrutura econômica de Feira de Santana impede que o tarifaço seja tratado como um problema distante, limitado às relações diplomáticas entre Brasília e Washington. O município reúne duas condições de vulnerabilidade: mais da metade de suas exportações segue para os Estados Unidos e mais de 90% da pauta municipal está concentrada na cadeia de pneumáticos.

Essa dupla concentração torna Feira mais exposta que a média da Bahia. Embora o valor exportado represente uma parcela pequena do PIB municipal, sua importância industrial, trabalhista e tecnológica é consideravelmente maior do que a comparação contábil isolada sugere.

Fábricas exportadoras geram empregos formais, contratam serviços especializados, movimentam transportadoras, compram insumos e sustentam relações produtivas permanentes. Uma redução de encomendas pode produzir impactos em cadeia, especialmente se as tarifas permanecerem vigentes por um período prolongado.

A posição do governador Jerônimo Rodrigues e da FIEB reconhece corretamente que a resposta precisa combinar negociação internacional, medidas estaduais, apoio federal, defesa comercial e monitoramento dos empregos. A criação de uma agenda de proteção à indústria é necessária, mas sua eficácia dependerá de providências objetivas, prazos definidos e transparência sobre os resultados.

Também será necessário evitar dois erros. O primeiro seria minimizar o problema sob o argumento de que as exportações representam parcela limitada da economia municipal. O segundo seria anunciar perdas definitivas antes que os dados posteriores às tarifas estejam disponíveis.

O cenário atual é de risco elevado para as exportações, risco moderado para o emprego industrial e impacto inicialmente baixo a moderado sobre o conjunto da economia feirense. Essa avaliação poderá mudar caso ocorram cancelamentos significativos, redução prolongada da produção ou transferência de linhas industriais para outras localidades.

A defesa dos pneumáticos nas negociações com os Estados Unidos deve ocupar posição prioritária na agenda da Bahia. Ao mesmo tempo, Feira de Santana precisa ampliar sua inteligência comercial, diversificar destinos e acompanhar mensalmente exportações, produção, investimentos e empregos.

O tarifaço do Governo Trump não representa, até o momento, uma crise econômica generalizada para Feira de Santana. Representa, contudo, uma ameaça concreta à principal cadeia exportadora do município, com potencial para alcançar empresas, trabalhadores, fornecedores e receitas públicas.

Dependência do mercado norte-americano deixa o município especialmente vulnerável às sobretaxas de 25% e 12,5%; governador Jerônimo Rodrigues e FIEB articulam medidas para proteger empresas, contratos, investimentos e postos de trabalho.
Tarifas de Trump ameaçam exportações de pneus de Feira de Santana. Jerônimo Rodrigues e FIEB articulam medidas para proteger indústria e empregos.

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