O presidente da República e candidato à reeleição Luiz Inácio Lula da Silva (PT) participou, na quinta-feira (27/08/2026), de sabatina conduzida pelos jornalistas César Tralli e Renata Vasconcellos, dentro da série de entrevistas da TV Globo com os candidatos à Presidência nas Eleições 2026. Durante cerca de 40 minutos, Lula foi questionado sobre investigações da Polícia Federal (PF) envolvendo seu filho Fábio Luís Lula da Silva, suspeitas relacionadas ao ex-chefe de gabinete Marco Aurélio Santana Ribeiro, o esquema de descontos indevidos no Instituto Nacional do Seguro Social (INSS), o caso Banco Master, a situação das contas públicas, a aprendizagem na educação básica e o avanço do crime organizado. Candidato a um quarto mandato presidencial, Lula afirmou que não interferirá em investigações de familiares ou aliados, defendeu a presunção de inocência, sustentou que o crescimento econômico deve ser o principal instrumento de ajuste fiscal e apresentou como prioridades de eventual novo governo a criação do Ministério da Segurança Pública, investimentos em inteligência artificial, minerais críticos, defesa e educação. A data da sabatina também foi registrada pela cobertura eleitoral publicada no mesmo dia.
Investigações sobre Fábio Luís abrem sabatina
O primeiro eixo da entrevista foi a existência, segundo os questionamentos apresentados pelos jornalistas, de três inquéritos da Polícia Federal envolvendo Fábio Luís Lula da Silva, filho do presidente. As perguntas mencionaram suspeitas de corrupção e tráfico de influência relacionadas a negócios privados que teriam buscado interlocução no Palácio do Planalto, no Ministério da Saúde e na Dataprev.
Também foram citados pelos entrevistadores o empresário Fernando Bittar e a lobista Roberta Luchsinger, além de mensagens que, segundo a abordagem feita na sabatina, integram o material reunido pela investigação. A existência dessas mensagens foi apresentada no programa como elemento dos inquéritos, mas a eventual responsabilidade criminal dos envolvidos depende da conclusão das apurações e das instâncias competentes.
Lula rejeitou a interpretação de que já existiriam acusações comprovadas contra o filho e classificou o material apresentado até aquele momento como “ilações”. O presidente afirmou que não adotará medidas para interferir no trabalho da Polícia Federal e declarou que Fábio Luís deverá responder como qualquer outro cidadão caso seja comprovada alguma irregularidade.
“Se o Fábio cometeu qualquer ilícito, ele terá que pagar como qualquer cidadão brasileiro que cometer ilícito. Eu não vou afastar delegado da Polícia Federal.”
Ao mesmo tempo, Lula manifestou convicção pessoal na inocência do filho, mas reconheceu que a definição deverá ocorrer no âmbito da investigação e de eventual processo judicial. Reiterou que, se chamado a depor, Fábio Luís deverá comparecer e responder às autoridades.
Lula nega conhecer lobista citada na investigação
Os entrevistadores apresentaram mensagens atribuídas a Roberta Luchsinger nas quais ela teria mencionado capacidade de articulação política e proximidade com o filho do presidente. Lula respondeu que mensagens particulares, isoladamente, não seriam suficientes para demonstrar a existência de um crime e argumentou que seria necessário comprovar eventual desvio ou emprego de recursos públicos.
O presidente afirmou não conhecer Luchsinger e declarou nunca ter conversado com ela. Também contestou a alegação apresentada na entrevista de que teria oferecido um cargo à empresária.
“Eu não conheço essa moça, nunca vi essa moça na minha vida, nunca conversei com essa moça.”
Ex-chefe de gabinete entra no centro dos questionamentos
A entrevista também abordou a atuação de Marco Aurélio Santana Ribeiro, identificado na sabatina pelo apelido Marcola e apresentado como ex-chefe de gabinete de Lula.
Segundo os questionamentos feitos pelos jornalistas, a Polícia Federal teria localizado elementos referentes a uma minuta de contrato de interesse de empresa associada ao personagem conhecido como Careca do INSS. Os entrevistadores também afirmaram que Luchsinger teria pago despesas pessoais do então auxiliar presidencial, incluindo boletos, financiamento de automóvel e outras contas.
Diante das perguntas sobre as relações mantidas pelo ex-assessor, Lula reconheceu que a situação poderia gerar suspeitas e desconfiança dentro do Palácio do Planalto. Ressalvou, porém, que seria necessário estabelecer se alguma iniciativa efetivamente resultou na liberação de recursos públicos ou em favorecimento irregular.
Em outro momento, os apresentadores citaram a versão segundo a qual R$ 249 mil pagos pela lobista ao ex-chefe de gabinete teriam constituído um empréstimo posteriormente devolvido.
Lula afirmou considerar inadequado que alguém ocupando função de confiança na Presidência mantivesse uma relação financeira dessa natureza com pessoa interessada em negócios governamentais.
“Não é adequado, é totalmente errado.”
O presidente acrescentou que, naquele momento, acreditava na versão apresentada por seu antigo auxiliar de que o valor correspondia a um empréstimo, mas reconheceu que a natureza da operação dependeria da apuração.
“Só ele sabe a verdade, se ele tomou ou não. Quando tiver uma acareação entre os dois, é que vai saber se foi empréstimo ou não. Eu, por enquanto, acredito na versão dele de que foi empréstimo.”
Lula descreveu Marco Aurélio como alguém que havia integrado seu círculo de confiança durante anos, mas voltou a afirmar que eventual irregularidade deve gerar responsabilização.
Fraudes e descontos indevidos no INSS entram no debate
Outro segmento extenso da entrevista foi dedicado ao esquema de descontos indevidos incidentes sobre aposentadorias e pensões do INSS.
Na formulação apresentada pelos entrevistadores, mais de 4 milhões de aposentados e pensionistas teriam sido atingidos e mais de 60% dos descontos considerados suspeitos teriam ocorrido durante o atual governo. Também foi mencionado Alessandro Stefanutto, que presidiu o INSS durante a gestão Lula e foi apresentado na entrevista como investigado por crimes como corrupção, organização criminosa e lavagem de dinheiro.
Lula sustentou que o esquema teria sido constituído em 2019 e afirmou que a Controladoria-Geral da União (CGU) e a Polícia Federal passaram aproximadamente dois anos investigando o caso antes das medidas ostensivas. Segundo sua versão, a demora foi necessária para evitar que os investigados desmontassem a estrutura antes da conclusão das diligências.
O presidente também afirmou que beneficiários lesados estavam sendo ressarcidos e que ativos apreendidos dos integrantes do esquema deveriam ser utilizados para recompor os recursos desembolsados pelo poder público. A transcrição apresenta números divergentes e trechos prejudicados nessa parte da entrevista, razão pela qual a dimensão financeira do ressarcimento depende dos registros oficiais correspondentes.
Carlos Lupi e demora na reação do governo
A condução do caso pelo então ministro da Previdência Social Carlos Lupi também foi questionada.
Os entrevistadores afirmaram que Lupi havia recebido informações sobre indícios de irregularidades em 2023, aproximadamente dois anos antes da operação da Polícia Federal citada na sabatina, e que contratos somente teriam sido suspensos posteriormente.
Lula respondeu que investigações dessa natureza exigem tempo e voltou a sustentar que uma intervenção prematura poderia comprometer o trabalho policial. Quando questionado sobre sua permanência ao lado de Lupi no ambiente político, mesmo depois da crise administrativa, o presidente separou as duas dimensões.
“A relação política não tem nada a ver com a relação administrativa.”
O candidato ressaltou ainda que Lupi não havia sido condenado e defendeu que relações políticas e pessoais não deveriam ser automaticamente rompidas antes de uma conclusão judicial.
Lula promete redução da fila previdenciária
A entrevista passou então dos descontos indevidos para outro problema do INSS: a fila de análise de benefícios.
Lula afirmou ter recebido o sistema previdenciário com aproximadamente 3 milhões de pessoas na fila e anunciou que o governo pretendia apresentar, na semana seguinte à entrevista, novos resultados sobre a redução do estoque de requerimentos.
Segundo o candidato, o contingente sujeito a espera de aproximadamente 45 dias ficaria em torno de 250 mil pessoas. Apesar de empregar a expressão de que a fila estaria “zerada”, os próprios números apresentados na resposta indicam a permanência de requerimentos em processamento, o que torna necessária a divulgação dos critérios utilizados pelo governo para definir o cumprimento da meta.
Banco Master leva Jaques Wagner ao centro da entrevista
A sabatina avançou para as investigações relacionadas ao Banco Master e alcançou um dos mais antigos aliados políticos do presidente, o senador baiano Jaques Wagner.
Na pergunta apresentada a Lula, os jornalistas afirmaram que a Polícia Federal apurava suspeitas relacionadas ao recebimento de um apartamento e mencionaram que, mesmo diante da investigação, o presidente continuava apoiando politicamente Wagner.
Lula respondeu que não considerava comprovado vínculo irregular entre o senador e a instituição financeira e invocou repetidamente o princípio da presunção de inocência.
“As pessoas são inocentes até prova em contrário.”
O presidente afirmou manter relação política com Wagner há aproximadamente 45 anos, desde a época do sindicalismo, disse acreditar na honestidade do aliado e confirmou que continuava apoiando sua candidatura.
Ao mesmo tempo, estabeleceu uma ressalva: caso alguma irregularidade seja comprovada, Wagner, assim como qualquer outra pessoa, deverá responder pelo ato.
“Se ele cometeu um desvio, vai acontecer com ele o que vai acontecer com qualquer pessoa: vai pagar o preço do erro que cometeu.”
A investigação, portanto, foi tratada na entrevista como procedimento em andamento, sem conclusão definitiva sobre a responsabilidade do senador.
Dívida pública supera R$ 10 trilhões e Lula evita fixar meta percentual
No eixo econômico, os entrevistadores apresentaram um quadro de deterioração das contas públicas. Segundo os números mencionados na pergunta, a dívida pública havia ultrapassado R$ 10 trilhões, enquanto a relação entre a dívida e o Produto Interno Bruto teria alcançado 82% do PIB, aproximadamente dez pontos percentuais acima do patamar anterior citado no programa.
Lula foi questionado sobre qual percentual da dívida em relação ao PIB pretendia atingir em um eventual quarto mandato. Em sua resposta, não estabeleceu uma meta numérica.
O presidente direcionou a argumentação para o crescimento econômico. Sustentou que a expansão do PIB tende a reduzir a proporção da dívida e afirmou que o Brasil voltou a registrar crescimento mais elevado durante seu terceiro mandato.
Também atribuiu parte do custo da dívida ao nível das taxas de juros e contestou a avaliação de que o endividamento brasileiro teria dimensão excepcional quando comparado ao de economias desenvolvidas.
As referências históricas e os indicadores econômicos apresentados por Lula constituíram argumentos do candidato durante a entrevista e exigem confronto com as séries estatísticas oficiais para avaliação de cada comparação.
Ajuste fiscal fica sem detalhamento de cortes
Renata Vasconcellos também questionou Lula sobre manifestações atribuídas ao ministro da Fazenda, Dario Durigan, segundo as quais o próximo governo precisaria promover ajustes fiscais e enfrentar o crescimento dos gastos obrigatórios.
Perguntado diretamente sobre quais despesas obrigatórias reduziria caso fosse reeleito, Lula não apresentou uma relação de benefícios, programas ou rubricas a serem cortados.
Em vez disso, voltou a defender o crescimento econômico como eixo da estratégia fiscal e passou a apresentar as prioridades de desenvolvimento para um quarto mandato.
A ausência de uma resposta específica deixou em aberto um dos pontos centrais do debate econômico eleitoral: como compatibilizar a ampliação de investimentos defendida pelo presidente com a estabilização da dívida e com eventuais mudanças nas despesas obrigatórias.
Minerais críticos, inteligência artificial e defesa entram no programa de quarto mandato
Lula afirmou que pretende transformar um eventual novo mandato em etapa de modernização tecnológica da economia brasileira.
Entre as prioridades mencionadas estão o desenvolvimento de cadeias produtivas associadas aos minerais críticos e terras raras, investimentos em inteligência artificial em língua portuguesa, fortalecimento da defesa nacional e produção doméstica de bens tecnológicos.
O presidente defendeu que o Brasil deixe de atuar predominantemente como fornecedor de matérias-primas e passe a agregar valor aos recursos minerais, utilizando-os na produção de baterias, chips, celulares e outros equipamentos.
Lula também citou investimentos do PAC, afirmando que o programa alcançaria R$ 1,9 trilhão, dos quais R$ 1,34 trilhão estariam vinculados ao período até dezembro de 2026. Os números foram apresentados pelo candidato durante a entrevista.
O candidato associou essa estratégia à criação de empregos qualificados e à possibilidade de o país disputar setores tecnológicos hoje dominados pelas economias mais avançadas.
Educação: acesso elevado contrasta com aprendizagem insuficiente
No segundo bloco, os jornalistas apresentaram dados segundo os quais aproximadamente 97% dos brasileiros entre 4 e 17 anos têm acesso à escola, mas persistem deficiências importantes de aprendizagem.
Foi citado estudo do Todos Pela Educação segundo o qual seis em cada dez jovens concluem o ensino médio na rede pública sem dominar conhecimentos básicos de matemática.
Lula respondeu enumerando políticas adotadas durante suas administrações. Citou expansão do ensino integral, políticas de alfabetização na idade adequada, o Fundeb, o Pé-de-Meia, universidades e institutos federais.
Segundo o presidente, um acordo relacionado à alfabetização estabelecia como horizonte chegar a 80% até 2030 e já teria alcançado 66% em uma etapa inicial. Também afirmou que o Pé-de-Meia produziu redução expressiva da evasão escolar entre os beneficiários.
Esses percentuais foram apresentados por Lula durante a sabatina e não foram acompanhados, na transcrição, de detalhamento metodológico que permita estabelecer exatamente a base de comparação utilizada.
Formação de professores e matemática
Ao tratar especificamente da qualidade do ensino, Lula destacou diferenças entre os sistemas estaduais e citou o Ceará como referência de resultados educacionais.
O presidente também defendeu políticas destinadas a atrair estudantes de alto desempenho para cursos de licenciatura. Segundo ele, o governo passou a oferecer bolsa a estudantes com bom desempenho no Enem que escolham a carreira docente.
Lula relacionou ainda a formação científica ao projeto econômico que pretende desenvolver. Defendeu aumento do número de estudantes de matemática, engenharia e áreas digitais, associando educação científica à inteligência artificial e à autonomia tecnológica nacional.
Segurança pública expõe divergência sobre papel da União
A segurança pública ocupou a parte final da sabatina.
Os entrevistadores questionaram Lula sobre o crescimento do crime organizado durante as últimas décadas e sobre a capacidade dos governos federais de coordenar políticas nacionais de enfrentamento às facções.
O presidente respondeu que a Constituição de 1988 atribuiu aos estados parcela central da responsabilidade pela segurança e argumentou que o desenho institucional limita a atuação direta do governo federal sobre crimes estaduais.
Como resposta, defendeu a aprovação da PEC da Segurança Pública, que, segundo afirmou, deverá estabelecer de maneira mais clara as atribuições da União, dos estados e dos municípios.
Lula acrescentou que pretende criar um Ministério da Segurança Pública após a aprovação da proposta constitucional.
“Aprovando a PEC, eu crio o ministério na semana seguinte.”
A criação efetiva da pasta, portanto, foi apresentada pelo candidato como condicionada à evolução da proposta no Congresso Nacional.
Bahia é questionada por indicadores de violência
A situação da Bahia, governada pelo PT há duas décadas, foi mencionada diretamente durante a discussão sobre segurança.
Os entrevistadores afirmaram que o estado concentra cinco das dez cidades mais violentas do Brasil e que o número de mortes violentas de crianças e adolescentes seria três vezes superior à média nacional.
A pergunta buscou relacionar esses indicadores ao longo período de administrações petistas simultaneamente nos governos estadual e federal.
Lula rejeitou a ideia de responsabilizar isoladamente o governo baiano e argumentou que nenhuma unidade da Federação conseguiu resolver estruturalmente o problema da segurança pública.
“Nenhum governador do Brasil conseguiu resolver o problema de segurança pública.”
A resposta deslocou a discussão da avaliação específica da Bahia para uma interpretação nacional do problema, baseada na necessidade de maior integração federativa.
Lula defende integração policial e cooperação internacional
O candidato disse que pretende ampliar a participação da Polícia Federal no combate ao crime organizado e melhorar a coordenação entre as forças de segurança.
Entre as iniciativas citadas estão uma base da Polícia Federal em Manaus, com participação de representantes de países sul-americanos, e a intenção de apresentar aos Estados Unidos uma proposta de cooperação contra narcotráfico e organizações criminosas.
Lula também mencionou a Operação Carbono Oculto como exemplo de ofensiva contra estruturas financeiras ligadas ao crime e afirmou que a política de segurança deve atingir não apenas integrantes armados das organizações, mas também financiadores e dirigentes.
O objetivo político apresentado pelo presidente foi o de recuperar territórios submetidos à influência de facções e estabelecer uma espécie de sistema integrado de segurança entre União, estados e municípios.
Lula encerra entrevista associando quarto mandato à educação e à economia do conhecimento
Nas considerações finais, Lula apresentou a expansão das políticas sociais e educacionais como elementos centrais de sua trajetória presidencial.
O candidato afirmou que o número de trabalhadores com diploma universitário teria passado de aproximadamente 5 milhões quando chegou à Presidência para 25 milhões, estabelecendo como ambição atingir 50 milhões.
Também voltou a defender uma mudança do perfil produtivo brasileiro.
“Eu quero que o Brasil seja exportador de inteligência e de conhecimento.”
O argumento sintetizou um dos eixos programáticos apresentados durante a sabatina: combinar políticas sociais tradicionais dos governos petistas com uma estratégia de industrialização e desenvolvimento baseada em educação, tecnologia e agregação de valor aos recursos naturais.
Linha do tempo dos principais acontecimentos
- 2019 — Lula afirmou que a estrutura responsável pelos descontos indevidos posteriormente investigados no INSS teria sido constituída nesse período. A origem e as responsabilidades pelo esquema são objeto de investigação.
- 2022 — Lula conquistou seu terceiro mandato presidencial, antecedente político da atual tentativa de reeleição para um quarto período no Palácio do Planalto.
- 2023 — Segundo o questionamento apresentado pelos entrevistadores, o então ministro Carlos Lupi recebeu alertas sobre indícios de irregularidades nos descontos previdenciários; a demora na reação administrativa tornou-se ponto de cobrança sobre o governo.
- 14/08/2026 — Pesquisa Quaest utilizada pela TV Globo serviu de critério para selecionar os seis candidatos convidados para a série de entrevistas presidenciais.
- 27/08/2026 — Luiz Inácio Lula da Silva, candidato à reeleição pelo PT, participa da sabatina conduzida por César Tralli e Renata Vasconcellos, com perguntas sobre investigações, INSS, Banco Master, economia, educação e segurança pública.
- Após a sabatina — Lula afirmou que o governo apresentaria, na semana seguinte, novos resultados relacionados à fila do INSS e condicionou a criação do Ministério da Segurança Pública à aprovação da PEC em discussão no Congresso. A concretização dessas duas declarações dependeria dos atos administrativos e legislativos posteriores.
A sabatina expôs uma característica central da campanha de Lula em 2026: o candidato precisa conciliar a defesa do legado de três mandatos com a necessidade de responder por fatos e investigações ocorridos no entorno de seu atual governo. Em relação a Fábio Luís Lula da Silva, Marco Aurélio Santana Ribeiro e Jaques Wagner, o presidente adotou uma posição relativamente uniforme: afirmou confiar pessoalmente nos envolvidos, defendeu a presunção de inocência, rejeitou condenações antecipadas e, simultaneamente, declarou que não haverá proteção institucional caso sejam comprovados ilícitos. O teste dessa posição será essencialmente objetivo: a independência das investigações e as decisões tomadas a partir dos elementos reunidos pela Polícia Federal, Ministério Público e Judiciário.
No campo econômico, a principal lacuna da entrevista ocorreu na discussão fiscal. Questionado sobre uma meta para a dívida pública e sobre quais gastos obrigatórios poderiam ser reduzidos, Lula preferiu enfatizar crescimento, investimentos e modernização produtiva. O programa apresentado possui um eixo identificável — minerais críticos, inteligência artificial, defesa, indústria e educação —, mas a compatibilização entre esse conjunto de investimentos e a trajetória das contas públicas permaneceu sem detalhamento quantitativo. Em campanha presidencial, essa diferença entre objetivos econômicos e instrumentos fiscais deverá continuar submetida ao escrutínio público.
Na segurança, o candidato apresentou uma mudança institucional de maior alcance ao vincular seu próximo mandato à PEC da Segurança Pública e à criação de um ministério específico. O argumento de Lula é que o crime organizado adquiriu dimensão nacional e transnacional incompatível com uma estrutura excessivamente fragmentada entre os entes federativos. A discussão sobre a Bahia, entretanto, mostrou o outro lado dessa tese: independentemente das limitações constitucionais da União, governos estaduais continuam responsáveis por políticas de segurança e precisam responder pelos resultados registrados em seus territórios.
A relevância pública da entrevista está justamente na combinação entre responsabilidade institucional, investigações em andamento e compromissos de governo. Polícia Federal, Ministério Público e Judiciário terão a responsabilidade de esclarecer as suspeitas envolvendo familiares, auxiliares e aliados citados; Congresso e Executivo definirão o destino da PEC da Segurança e das propostas sobre minerais críticos; e a equipe econômica terá de explicar como pretende financiar a agenda anunciada e administrar a dívida. No campo eleitoral, caberá ao eleitor avaliar tanto as realizações reivindicadas por Lula quanto as respostas oferecidas às controvérsias de seu terceiro mandato e a consistência das propostas apresentadas para um eventual quarto governo.








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