36 anos de carlismo, Salvador desigual e patrimônio declarado de ACM Neto multiplicado por 103: poder prolongado exige responsabilidade e transparência | Por Carlos Augusto

Neste sábado (12/09/2026), análise de Carlos Augusto, jornalista, cientista social e editor do Jornal Grande Bahia (JGB), coloca em perspectiva mais de três décadas de poder municipal exercido em Salvador por prefeitos vinculados à corrente política originada em Antônio Carlos Magalhães, a consolidação histórica de um modelo urbano marcado por segregação territorial e a expressiva evolução patrimonial declarada por ACM Neto.

Levantamento histórico do JGB contabiliza aproximadamente 36 anos e seis meses de administrações associadas ao carlismo e ao magalhismo, distribuídas em quatro ciclos, 11 gestões e oito prefeitos. Não se trata de um período ininterrupto, nem todos os administradores pertenciam à família Magalhães, mas de uma linhagem política formada por familiares, aliados e sucessores. Dados do IBGE mostram que, em 2022, 42,2% dos domicílios ocupados da capital estavam localizados em favelas e comunidades urbanas.

Nesse mesmo horizonte político, o patrimônio declarado de ACM Neto à Justiça Eleitoral passou de R$ 820.561,15, em 2006, para R$ 84.888.809,63, em 2026, crescimento nominal de aproximadamente 10.245%. A evolução dos bens, por si só, não demonstra ilegalidade e encontra explicações parciais em participações societárias, imóveis e aplicações financeiras declaradas pelo próprio político. Sua dimensão, entretanto, associada à longa presença do grupo no poder, alimenta o debate público sobre transparência, responsabilidade política e o contraste entre a prosperidade privada de uma de suas principais lideranças e a persistência das desigualdades sociais, econômicas e territoriais de Salvador.

Décadas de poder, riqueza pessoal e pobreza da população

A desigualdade de Salvador é anterior ao carlismo e à própria República, com raízes profundas na escravidão, na concentração da propriedade, na hierarquização racial e econômica e nas formas históricas de ocupação do território.

Reconhecer essas origens, porém, não significa eximir governos posteriores de responsabilidade pela maneira como tais desigualdades foram consolidadas, reproduzidas ou enfrentadas.

A distinção histórica é importante: não houve 36 anos consecutivos de uma mesma administração nem domínio exclusivo de integrantes da família Magalhães. O que se formou foi uma estrutura de continuidade política sustentada por diferentes lideranças vinculadas a um mesmo campo de poder.

Essa precisão, entretanto, não altera a questão central: mais de três décadas acumuladas no comando da Prefeitura de Salvador estabelecem uma responsabilidade histórica que não pode ser descartada quando os resultados sociais e urbanos permanecem desfavoráveis.

A manutenção da desigualdade estrutural sob o Carlismo e Magalhismo

A segregação contemporânea ganhou forma durante a modernização iniciada nos anos 1960

Antônio Carlos Magalhães exerceu a Prefeitura de Salvador entre 10 de fevereiro de 1967 e 6 de abril de 1970. Foi justamente durante esse período que ocorreu uma das transformações mais importantes na estrutura urbana da capital.

Estudo de Inaiá Maria Moreira de Carvalho e Gilberto Corso Pereira, publicado no Caderno CRH, identifica nas décadas de 1960 e 1970 uma fase de transformação radical de Salvador. Os autores descrevem a política municipal do período como comprometida com uma “modernização excludente” e registram que a Prefeitura, então detentora da maioria das terras municipais, transferiu propriedades a poucas mãos privadas por meio da Lei de Reforma Urbana de 1968.

O estudo relata abertura de avenidas em áreas apropriadas pelo capital imobiliário, retirada de assentamentos populares de territórios valorizados, remoção de ocupações da orla e transferência de famílias de baixa renda para periferias mais distantes e desvalorizadas.

Esse processo contribuiu para a configuração dos três vetores que estruturariam Salvador nas décadas seguintes: Orla Atlântica, Miolo e Subúrbio Ferroviário.

A Orla passou a concentrar riqueza, equipamentos, serviços, investimentos e interesses imobiliários. Miolo e Subúrbio concentraram parcelas expressivas das populações populares, em áreas marcadas historicamente por menor infraestrutura e menor disponibilidade de oportunidades.

Isso não significa que ACM tenha criado sozinho a segregação. Significa algo mais preciso: sua administração participou de um período decisivo na consolidação do padrão contemporâneo de segregação da cidade e da consolidação da desigualdade estrutural. 

Depois de décadas, a estrutura continua reconhecível

Mais de meio século se passou. Mudaram governos, partidos, sistemas políticos, tecnologias e dimensões urbanas. Mas o desenho básico da desigualdade permaneceu surpreendentemente resistente.

O Censo de 2022, já depois do governo de ACM Neto, encontrou 404.598 domicílios particulares permanentes ocupados em Favelas e Comunidades Urbanas, correspondentes a 42,2% dos 958.575 domicílios ocupados de Salvador.

A classificação do IBGE mudou em relação aos levantamentos anteriores e, por isso, não se deve estabelecer uma série histórica automática entre 2010, 2019 e 2022.

Mas a fotografia de 2022 é inequívoca.

Quatro em cada dez domicílios da capital continuavam localizados em favelas e comunidades urbanas.

Salvador era a terceira capital com maior proporção de domicílios nessa condição, atrás apenas de Belém e Manaus.

Para uma corrente política que reivindica protagonismo na modernização de Salvador durante décadas, esse indicador precisa integrar o balanço histórico.

Não basta reivindicar autoria das avenidas e transferir a terceiros a responsabilidade pelas periferias produzidas ou preservadas no mesmo processo urbano.

Poder prolongado significa corresponsabilidade prolongada

Existe corresponsabilidade política relevante dos Carlistas e Magalhistas pela consolidação e reprodução de um modelo urbano desigual, sobretudo porque a corrente participou do poder em momentos decisivos e retornou repetidamente ao comando municipal.

Governos de outras correntes também administraram Salvador. O Governo do Estado possui enorme influência sobre transporte, segurança, habitação, infraestrutura e desenvolvimento econômico. A União interfere por meio de políticas macroeconômicas, financiamento habitacional e investimentos. O mercado imobiliário, empresários e proprietários de terras também participam da produção material da cidade.

Nenhum desses fatores elimina, entretanto, a responsabilidade do governo municipal sobre planejamento urbano, uso do solo, regulação, infraestrutura e política habitacional.

Trinta e seis anos acumulados não autorizam a condição permanente de herdeiro inocente dos problemas. Depois de determinado tempo, aquilo que não foi transformado também passa a integrar o legado.

O patrimônio de ACM Neto introduz outro contraste político

É nesse contexto que a evolução patrimonial de ACM Neto ganha significado jornalístico.

O primeiro valor exato consolidado encontrado na série eleitoral consultada corresponde a 2006, quando Neto declarou R$ 820.561,15 em bens. Os registros reproduzem dados da base eleitoral do TSE.

Em 2012, quando foi eleito prefeito de Salvador, seu patrimônio declarado já alcançava R$ 13.327.167,12. Em 2016, chegou a R$ 27.886.721,62 e, em 2022, a R$ 41.718.572,69.

Na declaração apresentada para a eleição de 2026, o patrimônio informado alcançou R$ 84.888.809,63, composto principalmente por aplicações financeiras, participações societárias, imóveis e outros investimentos.

Entre 2006 e 2026, o crescimento nominal foi de aproximadamente 10.245%. O patrimônio tornou-se cerca de 103,45 vezes maior.

Entre a eleição para prefeito de Salvador, em 2012, e 2026, o patrimônio declarado apresentou crescimento nominal de aproximadamente 536,9%, o que corresponde a um aumento absoluto de cerca de R$ 71,56 milhões. Trata-se de uma evolução patrimonial expressiva. Esses números, contudo, não constituem, por si sós, prova de irregularidade.

A relevância do tema ganha nova dimensão diante das investigações relacionadas ao Caso Banco Master, que alcançam operações de crédito consignado destinadas a servidores do Município de Salvador e fatos ocorridos durante as administrações de ACM Neto e Bruno Reis, além de conexões investigadas com a Reag Investimentos. É nesse contexto que a expressiva evolução patrimonial passa a adquirir interesse jornalístico e investigativo, sem que isso autorize, na ausência de provas, qualquer conclusão automática sobre eventual ilicitude.

Declaração de patrimônio não é prova de enriquecimento ilícito

É fundamental estabelecer essa fronteira. Não há, nas informações analisadas nesta reportagem, prova de que ACM Neto tenha formado seu patrimônio ilegalmente. A afirmação contrária seria irresponsável.

As próprias declarações oferecem elementos que explicam parte importante da composição de seus bens. Em 2012, por exemplo, parcela expressiva do salto patrimonial estava associada a quotas da TV Bahia, avaliadas em mais de R$ 9 milhões naquela declaração.

Em 2026 aparecem participações em empresas de comunicação, aplicações financeiras, fundo imobiliário, apartamentos e outros ativos. Portanto, não se pode simplesmente transformar crescimento patrimonial em suspeita criminal.

Mas existe outra questão.

As declarações eleitorais são essencialmente fotografias patrimoniais. Elas mostram o que um candidato declara possuir em determinado momento, mas não necessariamente permitem ao cidadão reconstruir, sozinhas, todo o fluxo econômico que produziu a evolução da riqueza.

É nesse espaço que cabe o escrutínio jornalístico.

Uma fortuna de quase R$ 85 milhões exige explicações proporcionais

ACM Neto entrou na Câmara dos Deputados em 2003, exerceu três mandatos federais e deixou o Legislativo para assumir a Prefeitura de Salvador.

Ao longo desse período também acumulou patrimônio empresarial, investimentos e participações societárias.

Nada há de ilícito em um político ser investidor ou empresário.

Mas quanto maior é o patrimônio de uma liderança política, maior deve ser a disposição para explicar publicamente sua formação.

Uma evolução de R$ 820 mil para R$ 84,9 milhões em vinte anos merece documentação e esclarecimentos capazes de demonstrar, de forma compreensível, quanto decorreu de remunerações, dividendos, participações societárias, valorização de ativos, negócios imobiliários, reorganizações familiares, doações, heranças ou outros mecanismos legítimos.

O problema não está no fato de possuir riqueza.

O problema democrático surge quando o cidadão não dispõe de informação suficiente para reconstruir com clareza como se formou uma riqueza de tamanha dimensão ao longo de uma trajetória profundamente vinculada ao exercício do poder político.

Perguntar não é acusar.

Perguntar é justamente o papel do jornalismo.

Uma prosperidade particular diante de uma cidade socialmente estagnada

A dimensão política do contraste emerge quando essas duas histórias são colocadas lado a lado.

ACM Neto apresentou trajetória de expansão patrimonial extraordinária.

Salvador, entretanto, chegou ao último período de seu governo ainda submetida a desemprego elevado, perda de vínculos formais e uma proporção gigantesca de habitações precárias.

Em 2019, o desemprego médio era de 16%.

Entre 2012 e 2019, a RAIS registrou redução de 131.556 vínculos formais.

Também em 2019, 41,83% dos domicílios estavam estimados pelo IBGE em aglomerados subnormais.

Uma trajetória não é causa da outra.

O enriquecimento de ACM Neto não explica o desemprego de Salvador.

O desemprego de Salvador não demonstra ilegalidade em seu patrimônio.

Mas o contraste possui evidente significado político.

Uma liderança que apresenta seu modelo administrativo como referência de eficiência deve aceitar que a sociedade compare a prosperidade alcançada na sua trajetória particular com a prosperidade produzida na sociedade que administrou.

Carlismo e magalhismo não romperam a estrutura desigual

Os estudos sobre Salvador demonstram que modernização e segregação caminharam juntas em momentos fundamentais de sua formação contemporânea.

A Orla valorizada e a periferia precária não representam necessariamente duas histórias independentes.

São dimensões de um mesmo processo de produção do espaço.

Por isso, uma corrente que reivindica a modernização precisa responder também pelo modelo social que acompanhou essa modernização.

Quem acumulou os frutos da superficial modernização?

O patrimônio declarado de ACM Neto não prova crime.

Os 36 anos de carlismo não explicam sozinhos toda a desigualdade de Salvador.

Essas duas cautelas precisam permanecer expressamente registradas.

Mas elas não eliminam o problema político central.

O poder prolongado precisa produzir responsabilidade proporcional.

Uma corrente que acumulou 36 anos e seis meses no comando municipal, segundo levantamento histórico do JGB, não pode apresentar continuamente a desigualdade como uma herança sobre a qual possui pouca responsabilidade.

Da mesma forma, uma liderança que declarou R$ 84,89 milhões em patrimônio possui todo o direito de ter constituído essa riqueza por meios legais, mas a dimensão do crescimento torna legítima uma cobrança igualmente ampla de transparência.

Não se trata de criminalizar a riqueza nem de transformar patrimônio privado, por si só, em objeto de suspeição. Trata-se de confrontar a evolução da riqueza privada de agentes que exerceram o poder com o discurso público de desenvolvimento, modernização e redução das desigualdades.

Ao longo das últimas décadas, Salvador passou por importantes transformações urbanas, sociais e de infraestrutura, muitas delas viabilizadas ou impulsionadas por políticas, investimentos e obras dos governos federais de Luiz Inácio Lula da Silva e Dilma Rousseff e dos governos estaduais de Jaques Wagner, Rui Costa e Jerônimo Rodrigues. Paralelamente, a tradição política associada ao carlismo e magalismo iniciado com a chegada de ACM Neto ao Poder Municipal exerceu influência prolongada sobre a administração municipal e sobre a estrutura de poder na capital baiana.

Nesse período, porém, a modernização não alcançou Salvador de maneira homogênea. A cidade permaneceu marcada por profundas desigualdades territoriais, sociais e econômicas, com parcelas expressivas da população vivendo em bairros onde infraestrutura, mobilidade, saneamento, serviços públicos e oportunidades continuaram distribuídos de forma desigual.

É nesse contexto que a evolução patrimonial de ACM Neto, regularmente declarada à Justiça Eleitoral, adquire relevância política — não como prova de irregularidade, mas como elemento legítimo de análise sobre a relação entre poder, riqueza, desenvolvimento e desigualdade. Enquanto o patrimônio privado do ex-prefeito cresceu de forma expressiva, uma parcela significativa da população de Salvador permaneceu submetida a condições urbanas e sociais incompatíveis com a imagem de modernização frequentemente associada às administrações que comandaram a cidade.

Essa é a contradição que precisa ocupar o centro da discussão política.

Não é razoável reivindicar, durante décadas, a autoria do progresso e, ao mesmo tempo, rejeitar qualquer corresponsabilidade pela permanência das desigualdades produzidas ou não superadas no mesmo ciclo histórico. Quem reivindica o legado das transformações também deve responder pelos limites desse legado.

A questão, portanto, não é saber se houve obras.

Houve.

Também não é discutir se ACM Neto possui patrimônio.

Possui, e o declarou formalmente.

A questão central é outra: quanto do desenvolvimento atribuído ao seu grupo político efetivamente alterou a vida da maioria da população e quanto permaneceu concentrado em determinadas áreas, interesses e segmentos da cidade?

É nesse contraste — entre a narrativa do progresso, a acumulação privada de riqueza e a persistência das desigualdades — que se encontra uma das perguntas mais relevantes sobre o legado político das últimas décadas em Salvador.

A pergunta mais profunda permanece:

depois de mais de três décadas acumuladas de poder carlista e magalhista e de uma trajetória em que seu principal herdeiro político transformou um patrimônio declarado de R$ 820 mil em quase R$ 85 milhões, por que a prosperidade social de Salvador permanece tão distante da prosperidade alcançada por parcelas de sua elite?

Essa é uma pergunta política, histórica e jornalística.

E, diante dos números, merece resposta.

*Carlos Augusto, jornalista, cientista social e editor do Jornal Grande Bahia.


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