Salvador, domingo (06/09/2026) — Uma análise dos oito anos de ACM Neto à frente da Prefeitura de Salvador, entre 2013 e 2020, confronta a recorrente narrativa política de que o ex-prefeito teria sido sucessivamente reconhecido como um dos “melhores prefeitos do Brasil” com indicadores sociais, econômicos e urbanos que revelam uma realidade mais complexa. Ao término de sua administração, a Estratégia Saúde da Família alcançava apenas 40,24% da população, deixando 59,76% fora da cobertura estimada; a taxa de desemprego já atingia 15,3% em 2019, antes da pandemia, e chegou a 21,6% em 2020, com aproximadamente 332 mil desempregados; o atendimento por esgotamento sanitário abrangia 88,04% dos habitantes, mantendo cerca de 345 mil pessoas sem cobertura; e o sistema de transporte coletivo estruturado por concessões em 2014 encerrou o período sob intervenção municipal em uma das concessionárias.
A reportagem editorial do Jornal Grande Bahia, realizada pelo jornalista, cientista social e editor Carlos Augusto, utiliza como ponto de partida o episódio exibido pelo Fantástico em 05/08/2018, quando um jumento recebeu, mediante pagamento realizado durante um teste jornalístico, diploma como um dos “melhores prefeitos do Brasil”. Não existe evidência de ligação entre ACM Neto e o esquema investigado. O episódio serve, portanto, não para estabelecer associação entre o ex-prefeito e aquelas entidades, mas para demonstrar como títulos, certificados e rankings precisam ser examinados à luz da metodologia utilizada e confrontados com resultados concretos de políticas públicas.
A análise também insere os oito anos de ACM Neto em uma perspectiva histórica mais ampla. Levantamento do Jornal Grande Bahia contabilizou aproximadamente 36 anos e seis meses de presença acumulada da corrente política originada em Antônio Carlos Magalhães no comando de Salvador, distribuídos em diferentes ciclos. Sob essa perspectiva, a questão central não é apenas identificar obras ou índices de aprovação, mas verificar se houve transformação estrutural capaz de alterar padrões históricos de desigualdade territorial, concentração de oportunidades, vulnerabilidade social e desenvolvimento econômico da capital baiana.
Fantástico mostrou a fragilidade das premiações políticas
A reportagem exibida pelo Fantástico em domingo (05/08/2018) produziu uma demonstração emblemática sobre o valor de determinadas premiações concedidas a gestores públicos. Para testar empresas que ofereciam homenagens a prefeitos, vereadores e secretários, a equipe conseguiu incluir Precioso, um jumento, entre os supostos “100 melhores prefeitos do Brasil”. Após o pagamento negociado com uma das entidades investigadas, o animal recebeu diploma e medalha.
O episódio posteriormente apareceu em procedimento do Ministério Público de Contas do Espírito Santo relacionado à ausência de parâmetros objetivos nesse tipo de premiação.
É indispensável, porém, delimitar corretamente o alcance dessa referência. A investigação do Fantástico não demonstrou que ACM Neto tenha comprado títulos nem que tenha recebido premiações das entidades investigadas naquele episódio. Afirmar isso sem documentação significaria substituir análise por insinuação.
A relevância do caso está em outro ponto: expressões como “melhor prefeito”, “gestor nota 10” ou “prefeito destaque” somente possuem valor analítico quando acompanhadas de informações sobre metodologia, universo pesquisado, indicadores utilizados e critérios de comparação.
Aprovação popular não equivale a avaliação universal de gestão
O próprio site de ACM Neto registra atualmente que, após governar Salvador entre 2013 e 2020, ele teria sido escolhido “por oito vezes” o melhor prefeito do Brasil. A expressão tornou-se uma das sínteses políticas de sua trajetória administrativa.
Entretanto, um dos levantamentos frequentemente associados à construção dessa reputação foi realizado pelo Paraná Pesquisas entre prefeitos de 13 capitais e mensurou essencialmente aprovação popular. Em 2015, ACM Neto aparecia com 84,7% de aprovação.
Há uma diferença metodológica relevante entre aprovação de governo e avaliação comparativa de desempenho administrativo.
O Brasil possui milhares de municípios. Uma pesquisa restrita a determinadas capitais não representa avaliação universal de todos os prefeitos brasileiros. Da mesma forma, medir aprovação popular não significa aferir diretamente a capacidade de uma administração para reduzir desemprego, ampliar renda, universalizar serviços públicos, diminuir segregação territorial ou reorganizar estruturalmente a economia de uma cidade.
É quando esses indicadores são incorporados que o balanço dos oito anos de governo se torna mais complexo.
O título fala de percepção; a cidade exige indicadores
A primeira fragilidade da expressão “melhor prefeito do Brasil” surge no próprio significado da comparação. O Brasil possui milhares de municípios. Uma pesquisa realizada em parte das capitais não constitui avaliação universal dos prefeitos brasileiros. E uma pergunta sobre aprovação popular não mede, por si mesma, capacidade de uma administração para alterar desemprego, concentração de renda, segregação territorial, cobertura de saúde, mobilidade, saneamento ou oportunidades econômicas.
É precisamente quando a propaganda é retirada e os indicadores são colocados no centro da análise que surge uma Salvador diferente daquela representada pelo slogan político. Dados da Superintendência de Estudos Econômicos e Sociais da Bahia (SEI) mostram que, entre 2012 e 2020, período que praticamente coincide com os oito anos da administração de ACM Neto, a taxa de desocupação na capital passou de 9,6% para 21,6%. O contingente de desempregados aumentou de aproximadamente 150 mil para 332 mil pessoas, enquanto a população ocupada sofreu redução estimada em 200 mil pessoas.
O impacto extraordinário da pandemia sobre 2020 impede atribuir o resultado final exclusivamente à Prefeitura — e qualquer análise rigorosa precisa registrar isso. Mas a deterioração do mercado de trabalho antecedia a Covid-19. Série posteriormente organizada pela SEI mostra desocupação em Salvador de aproximadamente 9,5% em 2012, 11,7% em 2014, 16,8% em 2016, 15,5% em 2018 e 15,3% em 2019. Portanto, às vésperas da pandemia, a cidade já apresentava taxa muito superior à observada no início da administração Neto.
O fracasso estrutural está na ausência de transformação econômica
Esse é um ponto mais profundo do que discutir se determinada praça foi reformada, determinada avenida foi entregue ou determinado equipamento público foi inaugurado. Uma administração municipal de oito anos precisa também ser examinada por sua capacidade de modificar a posição dos moradores na estrutura econômica da cidade. Sob esse critério, os números não oferecem base para sustentar uma transformação socioeconômica correspondente à grandiosidade da propaganda construída em torno da gestão.
Salvador chegou à década de 2010 carregando uma estrutura territorial extremamente desigual. Pesquisa acadêmica sobre a cidade mostrou que, naquele período, 65% dos empregos formais estavam concentrados em apenas quatro das 18 regiões administrativas — Pituba/Costa Azul, Centro, Barra e Brotas. Nas áreas populares ou popular-inferiores, onde residiam 42,9% dos habitantes, encontravam-se somente 14,1% dos empregos formais. A desigualdade, portanto, não era apenas de renda: estava inscrita geograficamente no território e na distância entre onde a população pobre morava e onde estavam concentradas as oportunidades de trabalho.
O problema central da administração ACM Neto, observado nessa perspectiva, é que não se identifica uma ruptura socio-histórica capaz de desmontar essa geografia econômica. Estudos posteriores continuam descrevendo Salvador a partir da concentração de renda, empregos, equipamentos e oportunidades em determinadas áreas e da permanência de territórios populares submetidos a menor acesso a estruturas urbanas e econômicas. Pesquisa da UFBA sobre Vitória e Gamboa de Baixo, por exemplo, ainda identifica a desigualdade socioespacial como resultado de mecanismos históricos de reprodução das elites urbanas e da insuficiência das políticas públicas de inclusão territorial.
Oito anos de governo e seis em cada dez fora da Saúde da Família
Na saúde, a distância entre a imagem de excelência e a estrutura encontrada no encerramento do governo aparece de maneira objetiva. Em dezembro de 2020, Salvador possuía cobertura estimada de 56,36% na Atenção Primária à Saúde, enquanto a Estratégia Saúde da Família alcançava apenas 40,24% da população. Em consequência, aproximadamente 59,76% dos moradores estavam fora da cobertura estimada da Saúde da Família quando ACM Neto deixou a Prefeitura.
Mais reveladora é a evolução temporal. A cobertura geral da Atenção Primária estava em 35,60% em 2014, foi para 37% em 2015, 37,86% em 2016, 37,54% em 2017 e 37,88% em 2018. Ou seja, durante vários anos permaneceu praticamente estacionada. A expansão mais acentuada ficou concentrada nos dois últimos anos, chegando a 42,08% em 2019 e 56,36% em 2020. A Saúde da Família apresentou 27,80% em 2018, 31,88% em 2019 e 40,24% no encerramento de 2020.
Essa cronologia é incompatível com qualquer tentativa de transformar títulos genéricos de excelência administrativa em diagnóstico suficiente sobre a saúde municipal. Depois de dois mandatos completos, a principal estratégia territorializada da Atenção Primária do SUS permanecia incapaz de alcançar a maioria dos soteropolitanos. Esse dado possui muito mais capacidade explicativa sobre a política de saúde do que a quantidade de vezes em que o governante foi apresentado como “melhor prefeito”.
Saneamento e cidade formal: centenas de milhares continuaram excluídos
O saneamento revela outra dimensão da desigualdade material. Dados do SNIS referentes a 2020, reproduzidos em diagnóstico do Governo da Bahia para a Região Metropolitana, registraram índice de atendimento com esgotamento sanitário de 88,04% em Salvador. Com população então estimada em 2,886 milhões, aproximadamente 345 mil habitantes permaneciam sem atendimento por esgotamento sanitário.
A atribuição institucional precisa ser corretamente delimitada: saneamento envolve responsabilidades que ultrapassam a administração municipal e incluem operador estadual e outras esferas públicas. Mas justamente por isso a expressão “melhor prefeito do Brasil” perde ainda mais capacidade explicativa. Administrar uma metrópole significa coordenar políticas, exercer capacidade institucional, planejar território e produzir articulação capaz de reduzir déficits acumulados. O fato de centenas de milhares de habitantes permanecerem fora da rede integra necessariamente qualquer avaliação das condições urbanas existentes ao final daquele ciclo.
Quando os indicadores são territorializados, a questão deixa de ser apenas quantitativa. Salvador reproduz historicamente uma divisão entre áreas dotadas de maior renda, infraestrutura, serviços e oportunidades e territórios populares que acumulam déficits urbanos. Estudos sobre a cidade identificam esse padrão desde as transformações ocorridas nas décadas de 1960 e 1970. O problema da gestão Neto não foi ter criado essa desigualdade; foi governar durante oito anos sem produzir uma transformação estrutural capaz de romper sua reprodução.
Transporte público: o modelo de concessão chegou ao fim da gestão sob intervenção
No transporte coletivo, uma decisão estruturante ocorreu em 2014, quando foram assinados contratos de concessão que reorganizaram o sistema de ônibus da cidade. O modelo deveria constituir uma arquitetura duradoura para a mobilidade municipal. Poucos anos depois, entretanto, o sistema já enfrentava conflitos relacionados ao equilíbrio econômico-financeiro dos contratos, qualidade dos serviços, obrigações das empresas e atuação do poder concedente.
Em 2019, uma comissão especial da Câmara Municipal chegou a discutir com o Ministério Público o descumprimento de Termo de Ajustamento de Conduta relacionado ao transporte. Naquele momento, a promotora Rita Tourinho informou que 81 dos 250 ônibus com ar-condicionado previstos ainda não estavam em circulação. Em 2020, a situação alcançou um ponto no qual o Executivo encaminhou legislação específica para disciplinar intervenção em concessões, justificando a medida pela necessidade de impedir descontinuidade e enfrentar inadequação ou risco de comprometimento do serviço.
Portanto, o período de ACM Neto terminou com um fato institucional difícil de conciliar com a ideia de um modelo administrativo sem falhas estruturais: uma política de concessão organizada durante sua própria administração chegou à fase final dos seus oito anos sob necessidade de intervenção do poder público. As dificuldades do transporte continuariam nos anos seguintes, inclusive com auditorias, subsídios, discussões sobre equilíbrio econômico-financeiro e reivindicações de maior transparência sobre os contratos originalmente celebrados em 2014.
A questão é mais antiga: Salvador e a continuidade de um projeto de cidade
A crítica a ACM Neto ganha profundidade quando deixa de tratá-lo isoladamente e o insere na história política de Salvador. Levantamento publicado pelo Jornal Grande Bahia em terça-feira (11/08/2026) contabilizou aproximadamente 36 anos e seis meses de administração da capital por governos vinculados à corrente política originada por Antônio Carlos Magalhães, distribuídos em quatro ciclos, 11 gestões e oito prefeitos. Portanto, não foram 36 anos contínuos, mas uma presença recorrente e extensa na formação política e administrativa da cidade.
A origem desse processo remonta ao próprio Antônio Carlos Magalhães, que comandou Salvador entre 10 de fevereiro de 1967 e 6 de abril de 1970, durante o regime militar. Documentação da Assembleia Legislativa e da Câmara dos Deputados confirma seu exercício do cargo naquele período. Depois vieram administrações associadas ao grupo em diferentes momentos históricos; após a redemocratização, Antônio Imbassahy governou entre 1997 e 2004, e a eleição de ACM Neto em 2012 foi interpretada contemporaneamente como o retorno do carlismo à Prefeitura depois de oito anos fora do comando direto do Executivo municipal.
Essa permanência importa porque a estrutura urbana desigual de Salvador também possui raízes nesse período. Estudos acadêmicos apontam que, durante a modernização da cidade nos anos 1960 e 1970, intervenções viárias, valorização imobiliária, transferência de terras públicas e deslocamento de populações pobres contribuíram para consolidar uma cidade espacialmente segmentada. Um estudo sobre a trajetória urbana de Salvador descreve a Lei de Reforma Urbana de 1968 como parte de um processo no qual terras municipais passaram para mãos privadas e grandes obras viárias contribuíram para valorizar áreas apropriadas pelo capital imobiliário.
De ACM a ACM Neto: modernização sem ruptura social
É nesse ponto que a gestão de ACM Neto pode ser analisada não apenas como período administrativo de oito anos, mas como capítulo de uma tradição política mais longa. O problema fundamental não é afirmar que Neto repetiu mecanicamente cada política adotada por seu avô décadas antes. O problema é verificar que, ao final de seus dois mandatos, os grandes padrões de segregação territorial e desigualdade econômica que caracterizam historicamente Salvador permaneciam reconhecíveis.
A Orla Atlântica continuou representando o território de maior renda, concentração de oportunidades e infraestrutura, enquanto grandes contingentes populares permaneceram distribuídos pelo Miolo, Subúrbio e demais áreas marcadas por maior vulnerabilidade. A literatura acadêmica sobre Salvador identifica precisamente essa permanência: as hierarquias sociais continuam traduzidas no território, condicionando acesso a emprego, serviços, mobilidade e oportunidades.
Sob essa ótica, o fracasso essencial da gestão ACM Neto não está apenas em determinado posto de saúde, linha de ônibus ou indicador isolado. Está na ausência de transformação socio-histórica da estrutura de desenvolvimento de Salvador. Oito anos de governo não produziram uma nova geografia de oportunidades capaz de aproximar periferia e centralidade econômica; não eliminaram a insuficiência da Saúde da Família; não resolveram estruturalmente o transporte coletivo; não incorporaram toda a população ao saneamento; e coincidiram com uma forte deterioração do mercado de trabalho, iniciada antes da pandemia.
A perda populacional é um alerta posterior sobre o modelo de desenvolvimento
O Censo de 2010 registrou 2.675.656 habitantes em Salvador. No Censo de 2022, a população recuou para 2.417.678 pessoas, redução de aproximadamente 258 mil habitantes, ou 9,6%. O resultado não pode ser atribuído exclusivamente a ACM Neto: o intervalo começa antes de sua posse, inclui a pandemia e os dois primeiros anos da administração Bruno Reis, além de envolver natalidade, migração e transformações metropolitanas.
Mas a redução possui significado para uma análise da trajetória de longo prazo do grupo que permaneceu no poder depois de 2020. A década que contém integralmente os oito anos de ACM Neto e avança pelos primeiros anos de seu sucessor terminou com Salvador apresentando a maior redução populacional absoluta registrada entre as capitais no levantamento divulgado inicialmente pelo Censo. Especialistas apontaram baixa natalidade e migração, inclusive em direção a municípios metropolitanos e polos do interior, como fatores relevantes.
Para uma cidade que se pretende polo econômico regional, a perda dessa magnitude exige perguntas sobre capacidade de reter população, gerar empregos, oferecer mobilidade social, produzir moradia acessível e distribuir oportunidades pelo território. Mais uma vez, são questões que um título de “melhor prefeito” simplesmente não mede.
Os 36 anos transformam o grupo político também em responsável histórico
Depois de aproximadamente 36 anos e meio de presença acumulada da corrente de ACM no comando municipal, não é suficiente apresentar cada novo ciclo como se estivesse começando diante de problemas herdados exclusivamente de governos externos ou adversários políticos. Quanto maior a permanência de um grupo no poder, maior também sua parcela de responsabilidade sobre a estrutura urbana que encontra e reproduz.
Essa responsabilidade torna-se especialmente relevante porque ACM ocupou pessoalmente a Prefeitura na fase de consolidação do modelo urbano modernizador das décadas de 1960 e 1970; Antônio Imbassahy governou por oito anos entre 1997 e 2004; ACM Neto permaneceu outros oito anos entre 2013 e 2020; e Bruno Reis recebeu diretamente sua sucessão política em 2021. A influência do grupo não foi contínua durante todo o período, mas atravessou seis décadas e sucessivas fases da urbanização de Salvador.
Por isso, a permanência da segregação, dos déficits sociais e da concentração territorial de oportunidades não pode ser tratada somente como fatalidade histórica. Governar é interferir nessa história. Governar por décadas, ainda que em ciclos descontínuos, é participar da produção dessa história.
O Fantástico fornece a metáfora; Salvador fornece a prova material
O jumento Precioso não prova nada sobre a origem dos títulos atribuídos a ACM Neto. Essa correlação seria factualmente indevida. Mas o episódio produzido pelo Fantástico deixa uma lição que se aplica integralmente à propaganda política: um certificado, uma medalha ou mesmo um ranking de popularidade não substitui indicadores objetivos de transformação social.
No caso de ACM Neto, a expressão “oito vezes melhor prefeito do Brasil” sobreviveu como argumento político porque transforma uma avaliação complexa em uma frase simples. Ela retira da discussão os 332 mil desempregados registrados em 2020, os 15,3% de desocupação já existentes em 2019, os 59,76% dos moradores fora da cobertura estimada da Estratégia Saúde da Família ao final do mandato, os aproximadamente 345 mil habitantes sem atendimento de esgotamento sanitário em 2020, as desigualdades territoriais e a crise do sistema de ônibus construído sob contratos celebrados em sua administração.
Esses números dizem mais sobre o conteúdo social de uma administração do que qualquer fórmula publicitária. Eles mostram que a gestão de ACM Neto pode ter produzido elevada aprovação eleitoral e comunicacional sem produzir uma ruptura equivalente na estrutura econômica e social que historicamente divide Salvador.
O problema não é o diploma, mas a cidade que permaneceu desigual
A crítica mais consistente à passagem de ACM Neto pela Prefeitura não depende de descobrir quem imprimiu seus títulos. Depende de olhar para Salvador ao final de seus oito anos e perguntar o que mudou estruturalmente na vida dos grupos historicamente situados na parte inferior da hierarquia econômica e territorial da cidade.
Quando esse método substitui o marketing, emerge uma administração incapaz de romper com elementos fundamentais de uma estrutura urbana consolidada ao longo de décadas: concentração territorial de oportunidades, dependência de longos deslocamentos entre periferia e emprego, cobertura insuficiente da Saúde da Família, déficits de saneamento, fragilidade do transporte coletivo e mercado de trabalho marcado por elevado desemprego. O problema deixa de ser a existência ou não de determinada obra e passa a ser a incapacidade de alterar o mecanismo que continuamente reproduz a desigualdade.
Essa questão assume dimensão histórica diante dos aproximadamente 36 anos e seis meses acumulados pela corrente política originada em Antônio Carlos Magalhães na Prefeitura de Salvador. Um grupo que participou de quatro ciclos administrativos ao longo de seis décadas não pode reivindicar para si apenas os elementos da cidade considerados politicamente convenientes e atribuir sua estrutura desigual exclusivamente a uma herança abstrata.
A história urbana registrada pela literatura acadêmica estabelece uma linha de continuidade mais incômoda. Na fase de modernização iniciada nos anos 1960, Salvador foi reorganizada por intervenções que fortaleceram determinados vetores de valorização imobiliária e empurraram populações pobres para outros espaços. Décadas depois, a cidade continuou apresentando forte associação entre território, renda, raça, emprego e acesso a oportunidades.
ACM Neto teve oito anos para enfrentar esse padrão. Não produziu a transformação socio-histórica capaz de superá-lo.
Essa é a questão que nenhum ranking de popularidade responde.
E essa é a diferença entre administrar a superfície de uma cidade e transformar sua estrutura.
O Fantástico mostrou que até um jumento podia receber um diploma de “melhor prefeito” quando os critérios de uma premiação eram frágeis. Salvador oferece uma advertência muito mais séria: quando a avaliação de um governo é reduzida a títulos e índices de aprovação, corre-se o risco de premiar a narrativa e deixar fora do julgamento exatamente aquilo que deveria constituir o objetivo maior da administração pública — modificar as condições materiais de vida, diminuir desigualdades e produzir desenvolvimento econômico e social capaz de alcançar o conjunto da população.
Depois de oito anos de ACM Neto e de aproximadamente 36 anos e meio de presença acumulada de sua corrente política no governo da capital, a permanência dessas desigualdades não é um detalhe do balanço. É parte central do legado que precisa ser submetido ao julgamento histórico.
Fontes bibliográficas e documentais
A reportagem utilizou como referências a investigação exibida pelo Fantástico/TV Globo em 05/08/2018, que demonstrou fragilidades em sistemas de premiação destinados a gestores públicos; documentos e levantamentos da Superintendência de Estudos Econômicos e Sociais da Bahia (SEI) sobre emprego, desemprego e estrutura econômica de Salvador; dados do IBGE, especialmente os Censos Demográficos de 2010 e 2022, para análise da evolução populacional da capital; informações do Sistema Nacional de Informações sobre Saneamento (SNIS) e de diagnósticos do Governo da Bahia sobre cobertura de esgotamento sanitário; estudos e dissertações da Universidade Federal da Bahia (UFBA) sobre Atenção Primária, Estratégia Saúde da Família, desigualdade socioespacial e desenvolvimento urbano; artigos científicos publicados na plataforma SciELO sobre segregação territorial, concentração de emprego, expansão urbana, valorização imobiliária e formação histórica das desigualdades em Salvador; registros da Câmara Municipal de Salvador referentes às concessões e à crise do transporte coletivo; informações institucionais e pesquisas reproduzidas pelo site de ACM Neto, utilizadas para identificar a origem da narrativa dos títulos de “melhor prefeito”; reportagens da Folha de S.Paulo sobre dinâmica populacional e migração; e levantamento histórico do Jornal Grande Bahia (JGB) sobre os quatro ciclos, 11 gestões e aproximadamente 36 anos e seis meses de presença acumulada da corrente política originada em Antônio Carlos Magalhães no comando da Prefeitura de Salvador. O conjunto dessas fontes foi empregado para confrontar rankings de aprovação e premiações políticas com indicadores sociais, econômicos, sanitários, urbanos e históricos da capital baiana.
*Carlos Augusto, jornalista, cientista social e editor do Jornal Grande Bahia.








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