A agropecuária da Bahia cresceu 5,7% no segundo trimestre de 2026, na comparação com o mesmo período de 2025, impulsionada pelo desempenho de culturas como soja, algodão, café e cacau e pela expansão da pecuária bovina. Os dados, atualizados nesta quinta-feira (24/09/2026), constam da terceira edição do Boletim de Conjuntura Agropecuária da Bahia (BCAB), divulgado na terça-feira (22/09) pela Superintendência de Estudos Econômicos e Sociais da Bahia (SEI) em articulação com a Secretaria da Agricultura, Pecuária, Irrigação, Pesca e Aquicultura (Seagri). O resultado confirma o setor primário como uma das atividades de maior expansão da economia estadual, enquanto as estimativas mais recentes mantêm a perspectiva de 13,3 milhões de toneladas de grãos em 2026.
Agropecuária cresce acima do conjunto da economia baiana
O avanço de 5,7% refere-se especificamente ao volume de produção da agropecuária, isto é, ao núcleo produtivo formado por agricultura, pecuária e atividades relacionadas classificadas nas contas econômicas do estado. A distinção é relevante porque o conceito de agronegócio empregado pela SEI possui abrangência maior, incorporando também insumos, indústrias de base agrícola, transporte, comércio e serviços ligados às cadeias produtivas.
A expansão da agropecuária ficou acima do crescimento do conjunto da economia baiana no período. Dados divulgados para o segundo trimestre indicaram crescimento de 2,3% do PIB estadual em relação ao mesmo trimestre de 2025, com o valor corrente da economia chegando a aproximadamente R$ 154,7 bilhões entre abril e junho.
O BCAB registra ainda que o desempenho da agropecuária vem superando a evolução do PIB estadual nos últimos seis trimestres. A trajetória sucede um período de forte expansão no final de 2025: no quarto trimestre daquele ano, a agropecuária havia crescido 12,4% em relação ao mesmo intervalo de 2024. No primeiro trimestre de 2026, a alta foi de 5,8%, antes dos 5,7% registrados entre abril e junho.
PIB do agronegócio chega a R$ 40,3 bilhões
Quando se amplia a análise para toda a cadeia do agronegócio baiano, o volume de produtos e serviços relacionados ao setor cresceu 4,7% em termos reais no segundo trimestre. Em valores correntes, o PIB do agronegócio alcançou R$ 40,3 bilhões, correspondendo a 26,1% da economia estadual no período.
A metodologia da SEI divide o agronegócio em quatro grandes conjuntos. O Agregado I reúne os insumos destinados à agricultura e à pecuária; o Agregado II corresponde à agropecuária propriamente dita; o Agregado III incorpora as indústrias de base agrícola; e o Agregado IV abrange transporte, comércio e serviços associados à distribuição dos produtos.
Essa definição explica por que os indicadores de 5,7% da agropecuária e de 4,7% do agronegócio não são contraditórios. O primeiro mede o desempenho do núcleo produtivo rural; o segundo acompanha uma cadeia econômica mais extensa, sujeita também às condições da agroindústria, da logística, dos serviços, dos insumos e dos preços praticados ao longo do sistema.
Produção aumenta, mas participação econômica recua diante de 2025
A composição do PIB revela outro aspecto da conjuntura. No segundo trimestre de 2025, o agronegócio havia alcançado R$ 41,9 bilhões e representado 29,6% da economia da Bahia. Um ano depois, mesmo com aumento real da atividade, o valor corrente informado para o setor ficou em R$ 40,3 bilhões, com participação de 26,1%.
A combinação de crescimento do volume físico com menor expressão em valores correntes demonstra a importância dos preços na leitura dos resultados. Reportagens baseadas nos cálculos da SEI relacionam esse movimento à redução dos preços de produtos agropecuários e alimentares. Assim, maior produção não necessariamente significa aumento equivalente da renda nominal gerada pela cadeia.
A comparação também exige cautela porque os números trimestrais da SEI são apresentados como dados preliminares e sujeitos a revisão. Além disso, o segundo trimestre possui peso relevante para o agronegócio baiano em razão da concentração sazonal de parte importante da produção agrícola nesse período.
Safra de grãos permanece estimada em 13,3 milhões de toneladas
O desempenho trimestral ocorre em meio à perspectiva de uma nova safra recorde. O acompanhamento mais recente disponibilizado pela SEI, referente ao LSPA de agosto de 2026, mantém a estimativa da produção baiana de cereais, leguminosas e oleaginosas em aproximadamente 13,3 milhões de toneladas, resultado 3,2% superior ao de 2025. A previsão permaneceu estável em relação ao levantamento anterior.
O quadro representa uma mudança significativa em relação às primeiras projeções para 2026. Em janeiro, após a safra recorde de 12,8 milhões de toneladas em 2025, o IBGE ainda projetava recuo de 4,7% para a produção deste ano. As estimativas foram sendo revistas à medida que evoluíram as condições das lavouras, até passarem a indicar novo crescimento.
As análises da SEI associaram parte da revisão ao comportamento das chuvas e às condições observadas durante o desenvolvimento das culturas. Levantamentos divulgados ao longo do ano registraram precipitações favoráveis em regiões produtoras e melhora das perspectivas para algumas das principais commodities agrícolas do estado.
Soja lidera produção com estimativa de 8,93 milhões de toneladas
A soja continua sendo a cultura de maior peso na produção estadual de grãos. O LSPA estima aproximadamente 8,93 milhões de toneladas em 2026, crescimento de 3,8% sobre 2025. A área destinada à oleaginosa está calculada em cerca de 2,18 milhões de hectares, enquanto o rendimento médio projetado chega a aproximadamente 4,1 toneladas por hectare.
No Oeste da Bahia, principal polo produtor da commodity, dados apresentados pela Associação de Agricultores e Irrigantes da Bahia (Aiba) apontaram encerramento da colheita da safra 2025/2026 com 9,448 milhões de toneladas de soja em 2,218 milhões de hectares, utilizando metodologia e calendário agrícola distintos daqueles empregados pelo IBGE. A diferença entre os volumes, portanto, não representa necessariamente divergência estatística: os levantamentos trabalham com períodos e critérios próprios.
A coexistência dessas bases exige que cada estimativa seja identificada pelo órgão responsável. O IBGE/LSPA trabalha com referência anual, enquanto a Conab utiliza o calendário-safra, que atravessa dois anos civis. Essa distinção metodológica explica por que os volumes atribuídos à safra baiana podem variar entre as instituições.
Algodão mantém Bahia entre maiores produtores do país
Para o algodão, o IBGE estima produção em torno de 1,84 milhão a 1,85 milhão de toneladas, considerando caroço e pluma, aproximadamente 2,8% acima de 2025. A área plantada foi calculada em 410 mil hectares, alta de 2,5%.
Os dados da SEI colocam a Bahia como o maior produtor de algodão do Nordeste e o segundo maior do Brasil, atrás de Mato Grosso. O desempenho ocorre, contudo, em ambiente marcado por custos de produção e oscilações nos preços internacionais, fatores que influenciam diretamente a rentabilidade das propriedades mesmo quando a produção física aumenta.
A evolução das previsões durante 2026 também evidencia a volatilidade do planejamento agrícola. No início do ano, as primeiras estimativas do IBGE projetavam retração expressiva da cultura. Ao longo dos meses, o cenário foi revisto até indicar expansão da produção, reforçando o caráter provisório dos prognósticos formulados antes da consolidação da colheita.
Milho cresce e ganha impulso da produção de etanol
A produção das duas safras anuais de milho acompanhadas pelo IBGE está estimada em aproximadamente 2,80 milhões de toneladas, alta de 2,3% na comparação anual. A área plantada passou de cerca de 600 mil para 630 mil hectares, expansão de 5%.
A primeira safra foi projetada em aproximadamente 2,09 milhões de toneladas, crescimento de 8,1%, enquanto a segunda apresenta previsão de redução de 11,5%, para cerca de 714 mil toneladas. Portanto, a expansão agregada não ocorre de maneira uniforme entre os ciclos produtivos.
A SEI também relaciona a maior demanda pelo cereal ao avanço do uso de milho na produção de etanol na Bahia, criando uma nova fonte de consumo para a cadeia. Esse movimento pode alterar progressivamente as relações entre produção agrícola, processamento industrial e demanda interna pelo grão.
Café e cacau apresentam algumas das maiores altas previstas
Entre as lavouras permanentes, o café aparece com projeção de aproximadamente 294 mil toneladas em 2026, aumento de 12,5% diante de 2025. O café arábica responde por cerca de 90 mil toneladas, com alta estimada de 1,7%, enquanto o canéfora pode alcançar aproximadamente 204 mil toneladas, avanço de 18,1%.
O cacau apresenta crescimento percentual ainda maior. A produção é estimada em aproximadamente 137 mil toneladas, expansão de 15,4%. Os dados do LSPA indicam que o avanço ocorre mesmo com redução estimada da área colhida, resultado associado à melhora projetada do rendimento médio da cultura.
Nem todas as lavouras, porém, seguem a trajetória positiva. As estimativas utilizadas pela SEI apontam queda de 11,9% para a cana-de-açúcar, cuja produção deve ficar em aproximadamente 5,5 milhões de toneladas, e recuo de 3,8% na mandioca, para cerca de 873 mil toneladas. O quadro evidencia que a expansão agregada da agropecuária convive com desempenhos desiguais entre as cadeias produtivas.
Abate de bovinos alcança maior volume da série histórica
A pecuária também contribuiu para o resultado positivo do segundo trimestre. Aproximadamente 390 mil bovinos foram abatidos na Bahia entre abril e junho, volume 0,9% superior ao do mesmo período de 2025 e apontado pelo boletim como o maior da série histórica para o indicador.
O movimento dá continuidade ao crescimento observado no início do ano. No primeiro trimestre de 2026, a Bahia havia registrado cerca de 349,4 mil bovinos abatidos, então o melhor resultado já verificado para os três primeiros meses de um ano desde o início da pesquisa, em 1997.
A trajetória ocorre sobre uma base pecuária relevante. Dados anteriores do IBGE divulgados pela Seagri apontaram crescimento do rebanho bovino baiano por quatro anos consecutivos e participação de aproximadamente 5,7% no rebanho brasileiro, embora os números de estoque e os de abate representem indicadores diferentes e não devam ser comparados diretamente.
Suínos e frangos também registram expansão
O abate de suínos chegou a aproximadamente 74 mil cabeças no segundo trimestre de 2026, crescimento de 4,9% em relação ao mesmo período do ano anterior. Entre os frangos, foram abatidas cerca de 36 milhões de aves, expansão de 8,6%.
Os resultados complementam a expansão observada no primeiro trimestre, quando o abate de frangos havia alcançado cerca de 35,1 milhões de animais, o maior volume para um primeiro trimestre em quatro anos. No mesmo período, a aquisição de leite cru chegou a 161,1 milhões de litros, maior resultado da série histórica para os três primeiros meses de um ano.
Os números mostram que a contribuição da pecuária para o desempenho agropecuário não ficou restrita à bovinocultura. A expansão simultânea de diferentes cadeias reduz a dependência do resultado agregado de uma única atividade, embora cada segmento esteja submetido a estruturas distintas de custos, mercados e condições sanitárias.
Exportações de carnes crescem em valor e volume
O comércio exterior acrescentou outro componente positivo ao trimestre. As exportações de carnes da Bahia cresceram 17% em valor e 15,1% no volume embarcado diante do segundo trimestre de 2025, segundo os dados reunidos no boletim agropecuário.
O desempenho sucede a forte expansão observada no final de 2025, quando o segmento de carnes e miudezas havia registrado aumento expressivo das receitas e do volume exportado. Naquele período, o avanço das vendas externas de carne bovina figurou entre os elementos associados ao aumento do abate no estado.
A conexão entre produção pecuária e exportações reforça, entretanto, a exposição da cadeia às condições do comércio internacional, incluindo demanda dos países compradores, preços externos, câmbio, requisitos sanitários e mudanças nas políticas comerciais. Esses fatores poderão alterar a rentabilidade mesmo em cenários de crescimento físico da produção.
Crescimento de 2026 sucede forte recuperação da safra em 2025
O desempenho atual deve ser analisado a partir da recuperação observada em 2025. Segundo o IBGE, a Bahia encerrou aquele ano com 12,8 milhões de toneladas de cereais, leguminosas e oleaginosas, alta de 12,8% sobre 2024. A soja alcançou aproximadamente 8,61 milhões de toneladas, avanço de 14,3%.
O quarto trimestre de 2025 terminou com crescimento de 12,4% da agropecuária, diante de expansão de 2,3% do PIB estadual naquele intervalo. No conjunto do ano, a agropecuária também se destacou entre os grandes setores da economia baiana.
O início de 2026, entretanto, foi marcado por prognósticos mais cautelosos. As primeiras projeções apontavam perda de produção em culturas importantes, sobretudo soja e algodão. A progressiva revisão das estimativas até a perspectiva atual de novo recorde demonstra a influência das chuvas, do desenvolvimento das lavouras, da área efetivamente cultivada e das atualizações mensais das informações de campo.
Linha do tempo dos principais acontecimentos
- 2024 — A agropecuária baiana atravessa período de resultados mais fracos em parte das lavouras, formando uma base de comparação para a recuperação posterior; SEI e IBGE acompanham a evolução das principais culturas.
- 2025 — A Bahia produz 12,8 milhões de toneladas de grãos, crescimento de 12,8% sobre 2024; a soja chega a aproximadamente 8,61 milhões de toneladas. 4º trimestre de 2025 — A agropecuária cresce 12,4%, enquanto o PIB total da Bahia avança 2,3% na comparação anual.
- Janeiro de 2026 — Os primeiros prognósticos do IBGE ainda indicam possível redução de 4,7% da safra de grãos de 2026.
- 1º trimestre de 2026 — A agropecuária baiana registra crescimento de 5,8%; o abate bovino alcança 349,4 mil cabeças e a aquisição de leite cru chega a 161,1 milhões de litros.
- Maio e junho de 2026 — Revisões do LSPA passam a indicar 13,3 milhões de toneladas de grãos, alta de 3,2%, com melhora das perspectivas para soja, algodão e milho.
- 2º trimestre de 2026 — A agropecuária cresce 5,7%; o agronegócio ampliado avança 4,7% em termos reais e soma R$ 40,3 bilhões, equivalentes a 26,1% da economia estadual.
- Abril a junho de 2026 — O abate de bovinos alcança aproximadamente 390 mil cabeças, maior nível da série histórica; suínos chegam a 74 mil e frangos a 36 milhões. As exportações de carnes crescem 17% em valor e 15,1% em volume.
- 15/09/2026 — Acompanhamento da safra referente a agosto mantém a projeção de aproximadamente 13,3 milhões de toneladas, preservando a expectativa de novo recorde estadual.
- 22/09/2026 — A SEI atualiza o Boletim de Conjuntura Agropecuária da Bahia, consolidando o crescimento de 5,7% no segundo trimestre.
Os indicadores mostram uma expansão efetiva da produção agropecuária baiana, mas também revelam por que a análise econômica não pode se restringir ao volume colhido ou abatido. O contraste entre o crescimento real do agronegócio e a redução de sua participação no PIB estadual evidencia a influência dos preços sobre a renda gerada pelas cadeias. Produzir mais, portanto, não garante automaticamente maior valor nominal, maior margem ao produtor ou crescimento proporcional da participação do setor na economia.
A revisão das projeções de safra constitui outro elemento relevante. O ano começou com expectativa de retração e chegou a setembro com perspectiva de 13,3 milhões de toneladas. O movimento demonstra a necessidade de tratar previsões agrícolas como estimativas dinâmicas, dependentes de clima, produtividade, área plantada, preços, custos e condições de mercado. Os números somente se tornam definitivos depois da consolidação das colheitas e das sucessivas revisões realizadas pelos órgãos estatísticos.
Há ainda questões estruturais a acompanhar. A ampliação do milho associada à indústria de etanol, o peso crescente da soja, a posição da Bahia no algodão, a recuperação do cacau e do café e o aumento do abate bovino ampliam os encadeamentos entre campo, indústria, transporte, comércio e exportações. Ao mesmo tempo, essa integração torna o resultado estadual sensível a preços internacionais, custos de insumos, disponibilidade de crédito, infraestrutura, logística, clima e condições sanitárias.
O núcleo factual permanece claro: a agropecuária baiana cresceu 5,7% no segundo trimestre de 2026, sustentada por agricultura e pecuária, enquanto a cadeia ampliada do agronegócio respondeu por 26,1% da economia do estado.








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