BRB afasta cinco funcionários por operações com Banco Master e amplia investigação sobre compra de carteiras bilionárias

Nesta terça-feira (15/09/2026), o Banco de Brasília (BRB) enfrenta uma nova etapa da crise provocada por suas operações com o Banco Master depois que vieram a público os afastamentos cautelares de cinco funcionários, entre eles os ex-diretores Dario Oswaldo Garcia Júnior e Luana de Andrade Ribeiro, no contexto da investigação interna sobre a compra de carteiras de crédito da instituição controlada por Daniel Vorcaro. Os afastamentos foram solicitados pela corregedoria e autorizados pelo Conselho de Administração. O BRB ressalta que a medida é preventiva e não representa antecipação de responsabilidade.

Os atos aprofundam a apuração sobre como operações bilionárias com o Master foram analisadas, aprovadas e executadas dentro do banco controlado pelo Governo do Distrito Federal.

O caso possui dimensão financeira, administrativa e política porque envolve recursos de instituição pública, potenciais perdas bilionárias e decisões de executivos que exerciam funções de controle, risco, finanças e administração durante a expansão das relações entre BRB e Master.

Dois ex-diretores estão entre os afastados

Entre os cinco empregados afastados aparecem Dario Oswaldo Garcia Júnior, ex-diretor de Finanças e Controladoria, e Luana de Andrade Ribeiro, ex-diretora de Controles e Riscos.

Os dois haviam deixado os cargos executivos anteriormente e continuavam vinculados ao banco em outras funções.

A instituição não divulgou publicamente a identidade de todos os cinco empregados atingidos. Segundo informações divulgadas sobre a decisão, os afastamentos foram adotados por recomendação da corregedoria e receberam autorização do Conselho de Administração.

Medida cautelar não equivale a conclusão de culpa

O caráter preventivo da decisão é central para a correta interpretação do episódio.

O afastamento permite que a investigação administrativa avance sem interferência funcional das pessoas examinadas, mas não significa que os empregados tenham sido considerados responsáveis pelas irregularidades sob apuração.

O próprio BRB ressaltou que as medidas não antecipam julgamento sobre o mérito dos procedimentos.

BRB comprou R$ 21,9 bilhões em carteiras do Master

As relações financeiras entre as duas instituições atingiram valores muito superiores aos normalmente associados a uma única contraparte.

Informações reunidas pela investigação e apresentadas anteriormente pelo próprio BRB indicam que aproximadamente R$ 21,9 bilhões permaneceram relacionados a carteiras adquiridas do Master.

Em audiência no Senado, o atual presidente do banco, Nelson Antônio de Souza, informou que parte expressiva desses ativos apresentava irregularidades ou dificuldades de recuperação. O JGB registrou, em junho, que cerca de R$ 12,1 bilhões foram então classificados como ativos irregulares ou de recuperação problemática.

Outras apurações policiais e auditorias apontaram valores próximos de R$ 12,2 bilhões a R$ 12,3 bilhões em carteiras com indícios de falta de lastro, inconsistências ou documentação problemática. A variação decorre do recorte utilizado por cada investigação e não deve ser tratada como divergência necessariamente excludente.

Auditoria descreveu operações como “negócio do presidente”

A governança das compras de ativos tornou-se um dos principais pontos da investigação.

Documento divulgado pelo próprio BRB em resposta à Comissão de Valores Mobiliários registra reportagem baseada em auditoria segundo a qual a aquisição de carteiras era tratada internamente como “negócio do presidente” e envolvia decisões tomadas com urgência, pressão e fragmentação de valores.

Também foram localizadas mensagens internas indicando discussões sobre a realização de operações abaixo de determinados limites financeiros que exigiriam submissão ao Conselho de Administração.

Esses elementos ainda precisam ser avaliados individualmente para definir a responsabilidade de cada executivo e distinguir decisões administrativas questionáveis de eventuais ilícitos criminais.

Luana aparece em anotação sobre risco de quebra do Master

Uma anotação localizada na agenda de Luana de Andrade Ribeiro tornou-se um dos documentos citados na apuração.

Segundo as informações divulgadas, o registro relata reunião na qual o então presidente do BRB teria defendido novas compras de carteiras afirmando que o Master poderia quebrar caso as operações não continuassem.

A anotação é relevante porque pode contribuir para determinar o grau de conhecimento dos dirigentes sobre a condição financeira do Master e as razões apresentadas para justificar novas exposições do banco brasiliense.

A existência do registro, isoladamente, não define responsabilidade criminal dos participantes da reunião.

Paulo Henrique Costa comandou BRB durante expansão das operações

As decisões investigadas ocorreram durante a presidência de Paulo Henrique Costa, que comandou o BRB de janeiro de 2019 a novembro de 2025.

Costa foi preso preventivamente pela Polícia Federal em 16/04/2026 no âmbito da Operação Compliance Zero.

Segundo a investigação e a decisão que autorizou a operação, ele é suspeito de corrupção passiva e lavagem de dinheiro e teria recebido ou negociado vantagens relacionadas a seis imóveis de alto padrão avaliados em aproximadamente R$ 146,58 milhões. A defesa declarou que o ex-presidente não praticou crime e classificou a prisão como indevida.

As suspeitas contra Costa permanecem submetidas ao devido processo legal e não representam condenação definitiva.

BRB contratou investigação independente

Depois da crise, o Banco de Brasília contratou investigação independente para apurar os fatos relacionados às operações com o Master.

A apuração foi entregue ao escritório Machado Meyer Advogados, com suporte técnico da Kroll Associates Brasil, e os reportes deveriam ser feitos a um comitê independente composto por executivos sem vínculo com o BRB no período investigado.

O banco também passou por reorganização administrativa e substituição de integrantes de sua direção.

O portal de Relações com Investidores registra diversas mudanças de governança realizadas ao longo de 2026, além da divulgação do relatório final da comissão independente em 07/04/2026.

Crise financeira ultrapassou investigação individual

O impacto do caso não se restringe às responsabilidades de antigos administradores.

Em junho, o BRB informou ao Senado necessidade de reforço financeiro para absorver possíveis perdas associadas ao Master. O JGB registrou estimativa de R$ 8,8 bilhões em necessidade de provisionamento ou capitalização, embora diferentes documentos tenham adotado recortes distintos para estimar ativos problemáticos e prejuízos potenciais.

A crise também gerou debates sobre depósitos judiciais, necessidade de liquidez, apoio financeiro e exposição do Governo do Distrito Federal como controlador da instituição.

Investigações deverão separar decisões colegiadas e responsabilidades individuais

Laudos policiais relacionaram antigos integrantes da diretoria colegiada às decisões sobre aquisição, manutenção e flexibilização de controles associados às carteiras do Master.

A identificação formal de dirigentes em atas ou votações comprova participação institucional em determinadas decisões, mas não é suficiente, por si só, para estabelecer dolo, participação em fraude ou conhecimento prévio de irregularidades.

A responsabilização dependerá da análise de atas, pareceres técnicos, e-mails, mensagens, relatórios de risco, auditorias, contratos e depoimentos.

Linha do tempo dos principais acontecimentos

  • 22/08/2025 — BRB divulga informações sobre o projeto de aquisição do Banco Master e condiciona a operação a diligências, autorizações regulatórias e avaliação dos ativos e passivos.
  • Novembro de 2025 — Banco Master é liquidado, e o BRB passa a enfrentar questionamentos crescentes sobre carteiras adquiridas da instituição.
  • Após 19/11/2025 — BRB contrata investigação independente, conduzida pelo Machado Meyer com suporte da Kroll.
  • 07/04/2026 — BRB registra divulgação de relatório final da Comissão Independente de Investigação.
  • 16/04/2026 — Polícia Federal prende preventivamente o ex-presidente Paulo Henrique Costa no âmbito das investigações do Caso Master.
  • Junho de 2026 — Presidente do BRB presta esclarecimentos no Senado sobre ativos relacionados ao Master e necessidade de reforço financeiro.
  • Agosto de 2026 — Acionistas autorizam medidas destinadas a avaliar eventual responsabilização judicial de antigos administradores.
  • Agosto/Setembro de 2026 — Corregedoria solicita afastamento cautelar de cinco empregados, posteriormente autorizado pelo Conselho de Administração.
  • 14/09/2026 — Afastamentos tornam-se públicos e ampliam o escrutínio sobre a atuação de ex-diretores e áreas responsáveis por controles internos.

Os afastamentos representam uma mudança importante porque a apuração deixa de se concentrar apenas no ex-presidente do banco e passa a examinar de forma mais explícita a cadeia interna de decisões que tornou possível uma exposição de dezenas de bilhões de reais ao Master.

O problema de governança é particularmente sensível porque áreas de finanças, controle e riscos existem justamente para identificar concentração excessiva, insuficiência documental, ausência de lastro e exposição incompatível com parâmetros prudenciais. Saber quais alertas foram produzidos, quem os recebeu e por que determinadas operações continuaram será fundamental para atribuir responsabilidades.

Ao mesmo tempo, a existência de falhas institucionais não autoriza responsabilização coletiva. Diretores e funcionários podem ter participado formalmente de decisões sem conhecer irregularidades subjacentes, enquanto outros podem ter feito alertas ignorados pela cadeia superior. A investigação deverá individualizar condutas.

Os próximos passos caberão à corregedoria e ao Conselho de Administração do BRB, à Polícia Federal, ao STF, aos órgãos de controle, ao controlador público e às defesas dos investigados. O interesse público decorre não apenas da eventual responsabilização individual, mas da necessidade de determinar como um banco controlado pelo Distrito Federal assumiu exposição bilionária a uma instituição posteriormente liquidada e quais reformas de governança serão necessárias para impedir repetição do episódio.


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