Nesta quinta-feira (17/09/2026), novos dados incorporados às investigações do Caso Banco Master revelam que duas associações de servidores públicos da Bahia — a Asteba e a Asseba — somavam 103.287 autorizações de desconto em contracheques em 2025, correspondentes a uma carteira estimada em cerca de R$ 1 bilhão. O volume passou a ter relevância central porque o Banco Master chegou a atribuir às entidades a origem de R$ 6,7 bilhões em créditos posteriormente relacionados às operações com o Banco de Brasília (BRB), diferença que despertou questionamentos do Banco Central, do Ministério Público Federal (MPF) e da Polícia Federal (PF) sobre a existência, origem e lastro dos ativos. As apurações tramitam no Supremo Tribunal Federal (STF) e integram os desdobramentos da Operação Compliance Zero.
Asteba e Asseba somavam 103 mil autorizações de desconto
Os dados da Secretaria da Administração do Estado da Bahia indicam que a Associação dos Servidores Técnico-Administrativos e Afins do Estado da Bahia (Asteba) possuía 52.176 autorizações de desconto, enquanto a Associação dos Servidores da Saúde e Afins da Administração Direta do Estado da Bahia (Asseba) registrava outras 51.111. Somadas, as duas entidades alcançavam 103.287 autorizações em 2025.
Um documento da administração estadual reproduzido nos autos, identificado como Ofício SEAB/GAB nº 6091/2025, de 31/07/2025, tornou-se uma das referências utilizadas para confrontar a dimensão efetiva dos descontos com os valores que haviam sido atribuídos às associações no circuito financeiro investigado. Segundo o material incorporado ao inquérito, mesmo em uma estimativa ampla, a capacidade financeira associada àquelas autorizações ficaria na ordem de R$ 1 bilhão.
Esse dado é relevante porque não significa que R$ 1 bilhão tenha sido efetivamente descontado ou movimentado pelas associações em determinado momento. Trata-se de uma estimativa da carteira associada às autorizações existentes, utilizada pelos investigadores para confrontar a capacidade econômica das entidades com os bilhões de reais em créditos cuja origem lhes foi inicialmente atribuída.
Master atribuiu R$ 6,7 bilhões em créditos às associações
O ponto de inflexão ocorreu em 25/03/2025, quando, após ser questionado pelo Banco Central sobre operações bilionárias de crédito consignado, o conglomerado Master informou que os ativos teriam sido originados pela Asteba e pela Asseba, por meio de operações destinadas a servidores da Bahia.
A resposta não solucionou as dúvidas. Segundo documentos da investigação, a fiscalização do Banco Central não identificou nas duas entidades movimentação financeira compatível com o volume das cessões apresentado. O BRB, por sua vez, apresentou uma explicação diferente ao regulador: informou que os créditos tinham origem na empresa Tirreno. A Polícia Federal registrou essa divergência entre as versões fornecidas pelos dois bancos.
Depois dos questionamentos da autoridade monetária, o próprio Master passou a atribuir à Tirreno a titularidade das operações. A PF sustenta que as verificações do Banco Central encontraram fortes indícios de inexistência dos créditos examinados. As conclusões permanecem submetidas à investigação criminal e ao contraditório judicial, não constituindo, por si, condenação dos investigados.
Operação com o BRB alcançou R$ 12,2 bilhões
As operações investigadas ultrapassaram o valor nominal de R$ 6,7 bilhões das carteiras. Segundo PF e MPF, entre janeiro e maio de 2025 o BRB transferiu aproximadamente R$ 12,2 bilhões ao Master no conjunto das transações: cerca de R$ 6,7 bilhões relacionados às carteiras e outros R$ 5,5 bilhões classificados como prêmio financeiro vinculado aos ativos negociados.
A dimensão dos negócios tornou a origem dos créditos uma questão decisiva. Se as associações baianas não possuíam operações compatíveis com os valores inicialmente apresentados e se, posteriormente, a titularidade passou a ser atribuída à Tirreno, caberá às investigações estabelecer de forma documental quem efetivamente originou cada contrato, se os tomadores existiam, quais autorizações foram utilizadas e qual lastro sustentava as cessões realizadas ao banco público.
O Banco Central informou oficialmente que sua área de Supervisão identificou inconsistências nas cessões de carteiras do Master para o BRB, aprofundou as verificações e encaminhou às autoridades competentes elementos sobre possíveis ilícitos. A autarquia afirma também ter adotado medidas prudenciais para impedir novas operações capazes de aumentar a exposição do BRB.
Augusto Lima e a relação investigada com as associações
Outro eixo da investigação envolve Augusto Ferreira Lima, ex-sócio e ex-executivo do Banco Master e empresário ligado ao desenvolvimento do Credcesta. Documentos citados pela PF e pelo MPF sustentam que ele manteve vínculos relevantes com Asteba e Asseba e exerceria influência sobre as entidades mesmo após deixar funções formais.
Entre os elementos apontados pelos investigadores está o fato de as associações terem utilizado perante a Receita Federal endereço eletrônico relacionado à Terra Firme da Bahia, empresa de propriedade de Lima. Segundo a representação policial, a Asseba também compartilhava com a empresa um telefone cadastrado. A PF sustentou ainda que Lima teria atuado como procurador das associações perante instituições financeiras.
A defesa contesta essa interpretação. Os advogados afirmam que Lima mantinha contratos regulares de prestação de serviços com as entidades, mas não possuía procuração vigente para movimentar suas contas e jamais teria movimentado recursos bancários em nome delas. Em manifestação apresentada no Inquérito 5.026, a defesa sustentou que uma procuração anteriormente concedida para tratativas específicas com o Banco Bradesco havia sido revogada em 03/01/2020.
Defesa afirma que Lima deixou o Master antes das operações
Os advogados também destacam que Augusto Lima deixou a sociedade e a direção do Banco Master em 28/05/2024, meses antes das transações de 2025 que se tornaram o núcleo da investigação. A defesa afirma que a vinculação da Asteba e da Asseba às carteiras vendidas ao BRB teria ocorrido por um erro do próprio Master e sustenta que Lima não autorizou nem assinou documentos que atribuíssem às duas associações a origem daqueles créditos.
A PF, entretanto, atribui ao empresário participação na elaboração de carteiras consideradas fraudulentas e investiga se sua atuação permaneceu efetiva após o desligamento societário alegado pela defesa. Essa divergência é uma das questões que ainda dependem da análise integral de documentos, mensagens, procurações, contratos, registros bancários e demais provas produzidas no inquérito.
Em novembro de 2025, Lima foi preso durante a primeira fase da Operação Compliance Zero e depois colocado em liberdade mediante medidas cautelares, incluindo o uso de tornozeleira eletrônica. Asteba e Asseba também foram alvos de busca e apreensão na operação.
Master fez pagamentos de R$ 8,2 milhões às duas entidades
Outro elemento incorporado à investigação são pagamentos efetuados pelo Banco Master às associações. Dados fiscais divulgados em abril de 2026 indicaram que Asteba e Asseba receberam juntas cerca de R$ 8,2 milhões da instituição financeira entre 2022 e 2025.
A existência desses pagamentos, isoladamente, não comprova irregularidade. Sua relevância investigativa decorre da necessidade de identificar a natureza dos contratos que justificaram os repasses, os serviços eventualmente prestados, os beneficiários finais e a relação dessas transações com o conjunto das operações de consignado examinadas pela PF.
Na ocasião em que os pagamentos vieram a público, dirigentes das associações foram procurados pela imprensa, mas não apresentaram manifestação detalhada sobre as suspeitas. A ausência de manifestação não pode ser interpretada como reconhecimento das acusações.
Fluxo de R$ 140,1 milhões da Asseba também entrou no debate
A relação financeira da Asseba com o sistema estadual de folha já havia sido objeto de atenção em abril de 2026. Relatório do Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf) divulgado naquele período registrou movimentações de aproximadamente R$ 140,1 milhões relacionadas à entidade entre maio de 2024 e novembro de 2025 e apontou transferências subsequentes de parte dos recursos ao Banco Master e a empresas relacionadas a Augusto Lima.
O Governo da Bahia contestou a interpretação de que os valores fossem recursos públicos transferidos discricionariamente à associação. Segundo a administração estadual, tratava-se de valores pertencentes aos próprios servidores, descontados de suas folhas mediante autorização e posteriormente repassados à entidade, procedimento que o governo descreveu como operacionalização de consignações autorizadas.
A distinção é relevante: registro de uma transferência feita por uma fonte pagadora estatal não significa automaticamente emprego de dinheiro do Tesouro. A investigação deverá estabelecer a natureza precisa dos fluxos, as autorizações que lhes deram origem e o destino final dos valores, especialmente quando houver trânsito posterior para instituições financeiras ou empresas privadas.
Governo da Bahia não comenta contratos de cooperação
Na apuração divulgada nesta quinta-feira, a Secretaria da Administração da Bahia informou que não se manifestaria sobre os contratos de cooperação mantidos com as associações. Segundo as informações disponíveis, Asteba e Asseba oferecem aos servidores diferentes serviços associativos, como planos odontológicos, assistência jurídica e aquisição de produtos.
O ponto que permanece sujeito a esclarecimento documental é a extensão dos mecanismos de controle exercidos pelo Estado sobre consignatárias e associações autorizadas a efetuar descontos em folha, especialmente quanto à validação das autorizações individuais, à natureza dos serviços cobrados, à fiscalização das entidades e à rastreabilidade dos recursos depois de efetuado o repasse.
A existência de 103 mil autorizações demonstra que as duas associações possuíam presença significativa entre servidores baianos. Não demonstra, contudo, que todas as autorizações tenham relação com operações de crédito ou que os servidores tenham participado de qualquer irregularidade. Os documentos consultados indicam, ao contrário, que parte substancial dos descontos estava relacionada a mensalidades e serviços associativos, distinção central para compreender por que os investigadores consideraram incompatível o volume de descontos com os bilhões de reais atribuídos às entidades.
Banco Central liquidou o Master em novembro de 2025
O avanço das investigações ocorreu paralelamente à deterioração financeira do conglomerado Master. Em 18/11/2025, o Banco Central decretou a liquidação extrajudicial do Banco Master S.A., além de medidas sobre outras empresas do grupo. A autarquia apontou grave crise de liquidez, comprometimento significativo da situação econômico-financeira e graves violações às normas aplicáveis às instituições integrantes do Sistema Financeiro Nacional.
Na mesma data, a primeira fase da Operação Compliance Zero atingiu executivos e ex-executivos do Master e do BRB. As investigações passaram a concentrar-se, entre outros pontos, na fabricação de carteiras de crédito consideradas insubsistentes, em sua negociação com o banco público e nas substituições posteriores desses ativos.
O Inquérito 5.026, que apura irregularidades relacionadas à tentativa de aquisição do Master pelo BRB e às operações entre as instituições, foi prorrogado pelo STF em 16/01/2026 e novamente em 18/03/2026, diante da necessidade de novas diligências apontadas pela Polícia Federal.
Publicidade dos autos ampliou acesso às provas
A divulgação de novas peças do Caso Master em setembro de 2026 permitiu reconstruir com maior precisão o percurso dos créditos e as justificativas apresentadas pelas instituições envolvidas.
Os documentos tornados acessíveis revelaram, entre outros pontos, a incompatibilidade apontada entre a quantidade real de autorizações em folha na Bahia e os R$ 6,7 bilhões originalmente relacionados às associações, além da divergência entre as informações fornecidas pelo Master e pelo BRB ao Banco Central.
O STF mantém diferentes procedimentos ligados ao caso, e a investigação principal continua sem decisão definitiva sobre responsabilidade penal dos personagens citados. A existência de inquéritos, relatórios policiais, medidas cautelares ou referências em documentos não equivale a condenação.
Linha do tempo dos principais acontecimentos
- 28/05/2024 — Segundo documentação apresentada por sua defesa, Augusto Lima formaliza sua saída da sociedade e da direção do Banco Master. A defesa utiliza a data para sustentar que ele não participou das operações investigadas em 2025.
- Janeiro a maio de 2025 — O BRB transfere aproximadamente R$ 12,2 bilhões ao Master em operações investigadas, dos quais cerca de R$ 6,7 bilhões correspondiam às carteiras e R$ 5,5 bilhões a prêmio associado aos ativos.
- 25/03/2025 — O Banco Master informa ao Banco Central que Asteba e Asseba estariam na origem dos créditos consignados questionados pelo regulador. O BRB apresenta versão que aponta a Tirreno como originadora.
- 31/07/2025 — O Ofício SEAB/GAB nº 6091/2025 registra dados da administração estadual sobre as autorizações de descontos vinculadas às duas associações: 52.176 da Asteba e 51.111 da Asseba. Os números passam a ser utilizados para avaliar a compatibilidade econômica das carteiras atribuídas às entidades.
- Setembro de 2025 — O Banco Central veta a operação de aquisição do controle do Master pelo BRB, enquanto prosseguem as apurações sobre as carteiras negociadas entre as instituições.
- 18/11/2025 — A PF deflagra a primeira fase da Operação Compliance Zero. Asteba e Asseba são alvo de buscas; Augusto Lima é preso. No mesmo dia, o Banco Central decreta a liquidação extrajudicial do Banco Master.
- Final de novembro de 2025 — Augusto Lima é colocado em liberdade mediante medidas cautelares, incluindo tornozeleira eletrônica.
- 16/01/2026 — O STF prorroga por 60 dias o Inquérito 5.026, a pedido da Polícia Federal.
- 18/03/2026 — O ministro André Mendonça concede nova prorrogação de 60 dias, citando diligências consideradas imprescindíveis pela PF.
- Abril de 2026 — Tornam-se públicos dados indicando aproximadamente R$ 8,2 milhões em pagamentos do Master à Asteba e à Asseba entre 2022 e 2025. No mesmo período, relatório do Coaf sobre movimentações da Asseba amplia a investigação financeira; o Governo da Bahia afirma que os repasses estaduais correspondem a descontos autorizados nos contracheques dos próprios servidores.
- Setembro de 2026 — A ampliação da publicidade dos autos permite acesso a documentos e relatórios adicionais do Caso Master, incluindo elementos sobre a origem das carteiras e as relações entre os personagens investigados.
- 17/09/2026 — São divulgados os dados que dimensionam em cerca de R$ 1 bilhão a carteira associada às mais de 103 mil autorizações de desconto de Asteba e Asseba em 2025, reforçando a discrepância em relação aos R$ 6,7 bilhões anteriormente atribuídos às entidades.
O principal significado dos novos dados está na possibilidade de confrontar uma narrativa financeira bilionária com uma base concreta de autorizações de desconto. A existência de 103.287 registros demonstra que Asteba e Asseba mantinham efetiva relação com parcela expressiva do funcionalismo baiano. Ao mesmo tempo, a carteira estimada em aproximadamente R$ 1 bilhão oferece um parâmetro documental que precisa ser conciliado com os R$ 6,7 bilhões de créditos que foram atribuídos às entidades e com os R$ 12,2 bilhões transferidos pelo BRB no conjunto das operações investigadas.
Há, contudo, diferenças que não podem ser apagadas pela comparação numérica. Mensalidades associativas, pagamentos por serviços, cartões consignados e empréstimos consignados possuem naturezas jurídicas e financeiras distintas. Portanto, a investigação precisa identificar individualmente quais autorizações correspondiam a cada modalidade, quais contratos existiam, quem eram seus titulares e se os dados utilizados na formação das carteiras reproduziam operações reais. Sem essa vinculação documental, os valores agregados não bastam para individualizar responsabilidades.
Também permanecem controvertidas as relações de Augusto Lima com Asteba e Asseba. PF e MPF apresentam elementos que indicariam influência e atuação como procurador; a defesa afirma que não havia procuração vigente para movimentação de contas e que o empresário já havia deixado o Master antes das operações investigadas. Essas versões somente poderão ser resolvidas mediante exame das procurações, atas societárias, contratos de prestação de serviços, comunicações eletrônicas, movimentações financeiras e registros bancários incorporados aos autos.
O interesse público do episódio ultrapassa as relações privadas entre associações e instituição financeira. O caso envolve descontos realizados em folhas de servidores públicos, supervisão do Banco Central, atuação administrativa do Estado da Bahia, operações bilionárias realizadas por um banco público — o BRB — e possível fabricação ou circulação de ativos sem lastro, segundo a investigação. Caberá à Polícia Federal e ao Ministério Público Federal concluir a apuração criminal; ao STF, decidir sobre as medidas e responsabilidades submetidas à Corte; ao Banco Central, esclarecer os aspectos regulatórios; ao BRB, identificar eventuais perdas e falhas de governança; e à Secretaria da Administração da Bahia e às associações, fornecer documentação capaz de demonstrar a origem, autorização e destino dos descontos vinculados aos servidores.








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