O governador da Bahia e candidato à reeleição Jerônimo Rodrigues (PT) cobrou, nesta quinta-feira (17/09/2026), explicações do ex-prefeito de Salvador e candidato ao Governo do Estado ACM Neto (União Brasil) após a deflagração de novas ações policiais envolvendo a Operação Valor Venal, que apura fraude no IPTU de Salvador, e a 10ª fase da Operação Overclean, conduzida pela Polícia Federal. O governador também defendeu a ampliação da publicidade de procedimentos que tramitam no Supremo Tribunal Federal (STF) e são associados, em requerimento apresentado por PT, PCdoB e PV, a investigações relacionadas ao ex-prefeito.
Na Operação Valor Venal, a Polícia Civil da Bahia investiga um esquema suspeito de manipulação do cadastro imobiliário da Secretaria Municipal da Fazenda de Salvador para reduzir irregularmente o valor venal e, consequentemente, o IPTU de quase 700 imóveis. Segundo informações divulgadas sobre a investigação, algumas alterações chegaram a provocar redução de até 90% no valor venal. Quatro pessoas foram presas e a Justiça determinou bloqueio de bens e valores de até R$ 20 milhões.
As informações públicas consultadas sobre a Valor Venal não apontam ACM Neto como alvo da operação. A investigação apura alterações cadastrais ocorridas principalmente em período posterior à administração do ex-prefeito, incluindo fatos identificados entre 2024 e 2026. A cobrança feita por Jerônimo, portanto, constitui uma manifestação política do candidato governista no contexto da disputa pelo Governo da Bahia e não representa conclusão da investigação policial sobre eventual responsabilidade de ACM Neto no caso do IPTU.
Polícia Federal pediu busca contra ACM Neto na Operação Overclean
A situação é diferente na Operação Overclean. A Polícia Federal deflagrou, também nesta quinta-feira, a 10ª fase da investigação, destinada a apurar suspeitas de irregularidades em contratações realizadas pela Secretaria Municipal de Educação de Belo Horizonte, entre 2024 e 2025. A PF cumpriu 24 mandados de busca e apreensão em seis estados, e informou que pelo menos três procedimentos analisados resultaram em contratos que, somados, ultrapassam R$ 80 milhões.
No curso da apuração, a Polícia Federal solicitou autorização para realizar busca e apreensão contra ACM Neto. A Procuradoria-Geral da República (PGR) apresentou parecer favorável à realização da diligência, mas o ministro Kassio Nunes Marques, relator do caso no STF, rejeitou o pedido. Reportagens que tiveram acesso a informações da investigação registram que o ministro considerou insuficientes os fundamentos apresentados para autorizar a medida contra o candidato.
Ao comentar o episódio, Jerônimo afirmou que caberia ao adversário apresentar esclarecimentos públicos. O governador mencionou o pedido de busca feito pela PF, a manifestação da PGR e a decisão de Nunes Marques, afirmando que “quem tem que se pronunciar é ele”. A declaração ocorreu durante agenda pública do candidato à reeleição.
ACM Neto nega envolvimento e fala em interferência eleitoral
ACM Neto negou participação nos fatos investigados pela Overclean e reagiu à divulgação do pedido de busca. Em nota divulgada nesta quinta-feira, o candidato afirmou que a publicação das informações constituiria tentativa de interferência no processo eleitoral por meio de “vazamentos seletivos” e disse não ter envolvimento com as situações investigadas.
A decisão de Kassio Nunes Marques de negar a busca e apreensão não encerra, por si só, a investigação da Overclean, nem equivale a julgamento sobre responsabilidade criminal. Da mesma forma, o pedido formulado pela Polícia Federal e o parecer favorável da PGR não representam condenação ou demonstração definitiva de prática criminosa. A apuração permanece submetida ao devido processo legal e à análise das provas reunidas pelas autoridades competentes.
A Polícia Federal informa oficialmente que a 10ª fase da Overclean investiga possíveis crimes contra a Administração Pública, fraudes em licitações e contratos, organização criminosa e lavagem de dinheiro. Entre os personagens mencionados nas apurações está o empresário José Marcos de Moura, conhecido como “Rei do Lixo”. Os fatos investigados nesta etapa concentram-se em contratações da área de educação de Belo Horizonte.
Jerônimo defende retirada de sigilo em procedimentos no STF
Jerônimo também defendeu maior publicidade dos procedimentos no STF associados a investigações que mencionam ACM Neto. A Federação Brasil da Esperança, formada por PT, PCdoB e PV, apresentou ao presidente do Supremo, ministro Edson Fachin, requerimento para obter acesso a autos vinculados à Operação Compliance Zero, relacionada às investigações sobre o Banco Master. A petição solicita, entre outras medidas, acesso a documentos e manifestação do Ministério Público Federal.
Esse pedido constitui uma frente distinta da Operação Overclean e da Operação Valor Venal. A manifestação da federação refere-se ao conjunto de investigações da Compliance Zero e questiona a manutenção de restrições de acesso a determinados documentos que, segundo os partidos, teriam relação com ACM Neto. O requerimento menciona os Inquéritos 5.050 e 5.070 e petições correlatas, embora a identificação pública desses procedimentos e sua relação direta com o ex-prefeito ainda apresentem questões documentais que dependem de esclarecimento pelo STF.
Ao abordar o tema, Jerônimo declarou que a publicidade permitiria à sociedade conhecer o conteúdo dos autos e afirmou que ACM Neto poderia também solicitar a abertura dos documentos. O pedido formal, entretanto, é apresentado pela federação partidária e depende de decisão judicial quanto à extensão da publicidade e à eventual preservação de informações protegidas por hipóteses legais de sigilo.
Três investigações distintas entram no debate eleitoral da Bahia
As declarações do governador ocorrem durante a campanha para o Governo da Bahia em 2026, na qual Jerônimo Rodrigues e ACM Neto são adversários. A repercussão simultânea das operações Valor Venal e Overclean e das investigações sobre o Banco Master levou os temas policiais e judiciais ao centro das manifestações dos candidatos nesta quinta-feira.
Do ponto de vista factual, entretanto, os casos precisam ser diferenciados. A Valor Venal apura fraude no cadastro imobiliário de Salvador e, até as informações públicas disponíveis, não apresenta ACM Neto como investigado. Na Overclean, a PF efetivamente requereu busca contra o candidato, a PGR apoiou a diligência e o ministro Kassio Nunes Marques a rejeitou. Já o requerimento de PT, PCdoB e PV ao STF diz respeito à publicidade de documentos da Operação Compliance Zero, no Caso Banco Master.
Os próximos desdobramentos dependem da continuidade das investigações policiais, de novas decisões do STF, da análise dos documentos relacionados à Overclean e ao Caso Master e de eventuais manifestações das partes citadas. No âmbito da Valor Venal, a Polícia Civil deverá prosseguir na identificação dos responsáveis pelas alterações cadastrais e na apuração do prejuízo tributário causado ao Município de Salvador.








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