Levantamento de Jerônimo aponta que 63,3% das propostas de ACM Neto já têm equivalentes na Bahia; comparação revela sobreposições e diferenças

Neste domingo (13/09/2026), a comparação entre o plano de governo de ACM Neto (União Brasil) e as políticas executadas pela gestão de Jerônimo Rodrigues (PT) passou a ocupar espaço no debate eleitoral baiano após a equipe do governador afirmar ter identificado equivalentes estaduais em 205 de 324 compromissos, ou 63,3% das propostas atribuídas ao adversário. A análise dos documentos e programas disponíveis confirma sobreposições relevantes em áreas como saúde, educação, segurança alimentar e dignidade menstrual, mas também mostra diferenças de desenho, alcance e execução que impedem classificar automaticamente todas as iniciativas como idênticas. Além disso, a relação completa das 205 correspondências e a metodologia usada para defini-las não foram tornadas públicas no material localizado durante esta apuração.

Percentual de 63,3% é dado produzido pela equipe de Jerônimo Rodrigues

A afirmação de que quase dois terços do programa adversário já estariam em execução foi apresentada por Jerônimo Rodrigues em 10/09/2026, durante entrevista à Rádio Metropole. Segundo o governador, sua equipe comparou o documento eleitoral de ACM Neto com ações estaduais e encontrou 205 correspondências entre 324 propostas contabilizadas.

O dado, portanto, deve ser tratado jornalisticamente como resultado de um levantamento da campanha governista, e não como auditoria independente. Nas fontes consultadas, não foi localizada uma planilha pública que relacione individualmente as 324 propostas, identifique as 205 consideradas equivalentes e explique os critérios adotados para classificar uma iniciativa como repetição, continuidade, expansão ou mera semelhança temática.

Essa distinção é fundamental. Duas políticas podem enfrentar o mesmo problema público — filas no SUS, evasão escolar, pobreza menstrual ou insegurança alimentar — e, ainda assim, adotar mecanismos, públicos-alvo, financiamento, metas e estruturas administrativas diferentes. A comparação documental de casos específicos confirma que há repetições substantivas, mas também situações em que o programa de ACM Neto propõe modificar ou ampliar instrumentos já existentes.

Plano de ACM Neto admite uso de experiências já testadas

O Plano de Governo 2027–2030 apresentado pela candidatura de ACM Neto possui 214 páginas e afirma expressamente que parte das propostas foi inspirada em experiências que já funcionam em outros estados. O documento sustenta que governar adequadamente não exige necessariamente criar soluções inteiramente novas, mas aprender com políticas que tenham apresentado resultados.

Essa formulação é relevante porque reduz a importância eleitoral da simples constatação de que determinadas propostas possuem antecedentes. Em políticas públicas, continuidade, adaptação e ampliação são práticas comuns. A questão central passa a ser determinar se o programa apresentado como novo apenas muda o nome de uma política existente ou se modifica efetivamente sua forma de funcionamento.

A documentação permite fazer essa distinção em algumas das propostas usadas pela campanha de Jerônimo como exemplos da alegada repetição.

Saúde concentra algumas das principais sobreposições

Entre os casos destacados está o Corujão da Saúde, proposta destinada a ampliar a realização de exames especializados em horários noturnos. O plano de ACM Neto prevê utilização da capacidade ociosa dos serviços de diagnóstico para enfrentar filas de procedimentos como mamografia, ultrassonografia e endoscopia.

A Bahia já participa, contudo, do programa federal Agora Tem Especialistas, implantado também por meio das policlínicas regionais. Em julho de 2025, o Governo do Estado informou a destinação de R$ 100 milhões pelo Ministério da Saúde para ampliação de consultas e exames, inclusive com extensão do funcionamento para períodos noturnos e sábados. Naquele momento, a rede possuía 26 policlínicas regionais, e não 27, como indicado no texto originalmente fornecido.

Em junho de 2026, balanço oficial continuava registrando 26 policlínicas, atendimento a 416 dos 417 municípios baianos e mais de 10 milhões de atendimentos especializados acumulados pela rede. A comparação, portanto, encontra fundamento quanto ao objetivo de ampliar acesso e horários, embora o Agora Tem Especialistas seja um programa federal executado em articulação com o Estado, enquanto o Corujão aparece como proposta própria do eventual governo estadual de ACM Neto.

Saúde Sobre Rodas encontra modelo semelhante no Feira Saúde Mais Perto

Outra correspondência significativa envolve o Saúde Sobre Rodas. O plano oposicionista prevê unidades móveis destinadas especialmente a pequenos municípios, distritos e áreas rurais, com calendário regular e oferta de procedimentos como mamografias, ultrassonografias e pequenas intervenções eletivas.

A estrutura guarda semelhança direta com o Feira Saúde Mais Perto, desenvolvido pelo Governo da Bahia de forma itinerante. Em janeiro de 2025, a Secretaria da Saúde registrava mais de 900 mil atendimentos em 104 municípios desde o início da estratégia. Somente em 2025, balanço posterior contabilizou 141,5 mil atendimentos, distribuídos em 27 edições realizadas em 11 municípios.

Prontuário eletrônico já integra estratégia de digitalização do SUS baiano

Também existe base documental para afirmar que a digitalização dos prontuários não começaria do zero em um eventual governo de ACM Neto. A Bahia utiliza o AGHUse, sistema que inclui prontuário eletrônico e ferramentas de gestão hospitalar.

Em 29/08/2024, o Governo da Bahia anunciou acordo para expansão da plataforma de 31 para 95 unidades de saúde até 2026, dentro de uma estratégia mais ampla de transformação digital. O programa inclui o Prontuário Eletrônico Único nas unidades da Secretaria da Saúde.

Pix Saúde se aproxima de prática existente, mas acrescenta regras próprias

O caso do Pix Saúde exige maior cautela. O SUS já permite contratação complementar de hospitais, clínicas e outros prestadores privados e filantrópicos, mecanismo utilizado para compra de leitos, consultas, exames e procedimentos quando a estrutura pública não é suficiente.

O programa de ACM Neto, entretanto, apresenta uma arquitetura mais específica. O plano prevê que, quando determinado prazo de atendimento não for cumprido pela rede pública, o Estado possa adquirir o procedimento na rede complementar. A implementação começaria por áreas como cirurgias eletivas, oncologia ambulatorial e ortopedia, com limite orçamentário anual e divulgação periódica de contratos, valores e resultados.

SABE existe desde 2007, mas plano de ACM Neto propõe reformulação

Na educação, uma das comparações exige correção importante em relação ao texto inicial. O Sistema de Avaliação Baiano da Educação (SABE) efetivamente existe desde 2007 e continua sendo aplicado na rede pública estadual. Em 2025, a Secretaria da Educação informou aplicação envolvendo centenas de milhares de estudantes.

O plano de ACM Neto, porém, não apresenta simplesmente a avaliação diagnóstica como uma criação inédita. O documento menciona nominalmente o SABE e propõe sua reformulação, com avaliações bimestrais de leitura e matemática e utilização dos resultados na tomada de decisões pedagógicas.

Nesse ponto, portanto, existe continuidade de uma política criada anteriormente, mas a redação do plano reconhece a estrutura vigente e propõe alterar sua periodicidade e utilização. Classificar essa iniciativa apenas como promessa de algo “que já existe” elimina uma diferença documental relevante.

Busca ativa já funciona, mas proposta eleitoral acrescenta monitoramento preditivo

A Busca Ativa Escolar também faz parte das ações da rede estadual. Em 2026, a Secretaria da Educação descreveu trabalho destinado a identificar estudantes afastados, entrar em contato com famílias e promover a reinserção na escola. Dados oficiais divulgados pelo Estado apontam queda da taxa de abandono do Ensino Médio de 13% para 3,1%, embora essa evolução não possa ser atribuída exclusivamente a uma única política sem avaliação causal específica.

ACM Neto propõe, por meio do programa Bahia no Trilho, utilizar uma plataforma capaz de cruzar frequência, rendimento e informações socioeconômicas para identificar risco de abandono, produzir alertas e acionar assistência social, conselho tutelar e famílias.

Há, portanto, coincidência no objetivo de impedir evasão e abandono escolar, mas diferença no instrumento anunciado. A existência de busca ativa precede o plano oposicionista; o componente de acompanhamento preditivo apresentado na proposta, por sua vez, constitui desenho adicional que precisa ser analisado separadamente.

Dignidade menstrual apresenta sobreposição direta, com diferença de público

Na política social, a coincidência entre o Conforto da Mulher proposto por ACM Neto e o Programa Dignidade Menstrual já existente é mais evidente.

A política estadual foi lançada em 2021 para disponibilizar absorventes e desenvolver ações de enfrentamento à pobreza menstrual. Na implantação, o Governo da Bahia projetou alcançar aproximadamente 225 mil estudantes da rede estadual em situação de pobreza ou extrema pobreza. Documentos posteriores mantêm referência a mais de 225 mil pessoas atendidas.

O programa descrito por ACM Neto também prevê fornecimento gratuito de itens de higiene menstrual, mas inclui entre os públicos mulheres em extrema pobreza inscritas no CadÚnico, estudantes e pessoas privadas de liberdade, com distribuição por escolas, CRAS e sistema prisional. O próprio texto do plano chega a utilizar a expressão “Dignidade Menstrual Bahia” ao detalhar sua execução.

Nesse caso, existe forte convergência entre finalidade e instrumento, embora permaneçam diferenças de abrangência e organização.

Mesa Farta e Bahia Sem Fome compartilham instrumentos de segurança alimentar

O Mesa Farta aparece no plano de ACM Neto como um sistema integrado envolvendo restaurantes populares, cozinhas comunitárias, bancos de alimentos, agricultura familiar, hortas urbanas e rurais e mecanismos de inclusão social, com pretensão de chegar aos 417 municípios da Bahia.

O Estado já mantém o Bahia Sem Fome, lançado em março de 2023 e posteriormente transformado em política estadual pela Lei nº 14.635, de 28/11/2023. O programa articula distribuição de alimentos, cozinhas comunitárias, apoio à agricultura familiar e outras ações de combate à insegurança alimentar.

Dados oficiais divulgados em 2025 indicaram R$ 2,1 bilhões aplicados em diferentes frentes de segurança alimentar durante 2024 e participação de centenas de cozinhas e pontos de produção de refeições. As fontes governamentais também relacionam a política à melhora dos indicadores de insegurança alimentar registrados pelo IBGE.

O montante de R$ 5 bilhões e a afirmação de que o programa teria retirado exatamente 1,3 milhão de pessoas da insegurança alimentar, presentes no texto original, não foram confirmados pelas fontes oficiais consultadas e, por isso, não podem ser apresentados como dados consolidados nesta reportagem.

Coletivos Bahia pela Paz: 24 unidades eram meta, não realidade consolidada

Outra correção necessária envolve os Coletivos Bahia pela Paz. O Governo da Bahia formalizou em 05/11/2024 parcerias destinadas à implantação dos equipamentos, com investimento anunciado de aproximadamente R$ 70,5 milhões e previsão de alcançar 24 comunidades nos dois primeiros anos.

Em fevereiro de 2026, havia 12 unidades em funcionamento. Em julho, balanço oficial apontava 18 equipamentos em operação ou em vias de entrar em operação, distribuídos entre Salvador, Região Metropolitana e interior, mantendo 24 unidades como meta para o fim de 2026.

Assim, a afirmação de que já existiam 24 unidades em 16 cidades transforma uma meta de implantação em situação concluída. Fonte oficial anterior efetivamente citava 24 coletivos em 16 municípios, mas como previsão a ser atingida até 2026.

Há ainda outra diferença relevante: a busca textual no plano de governo de ACM Neto não localizou uma proposta denominada “Coletivos Bahia pela Paz”. O documento contém um eixo de prevenção social e proteção da juventude, incluindo o programa Geração Trabalho, policiamento comunitário e integração de serviços públicos em áreas vulneráveis, mas não foi encontrada a reprodução literal do programa estadual com esse nome.

Sobreposição não significa automaticamente reconhecimento de êxito do adversário

A conclusão apresentada no material original — segundo a qual ACM Neto, ao formular políticas semelhantes, estaria reconhecendo que as ações de Jerônimo Rodrigues “têm resultado” — ultrapassa aquilo que os documentos permitem demonstrar.

A existência de propostas semelhantes comprova convergência sobre determinados problemas públicos e, em alguns casos, continuidade ou reaproveitamento de instrumentos. Não permite concluir, isoladamente, que o candidato oposicionista reconheceu eficácia, eficiência ou qualidade da atual gestão. Para isso seria necessária manifestação explícita do candidato ou avaliação objetiva dos resultados dos programas.

O próprio plano oposicionista combina críticas ao governo estadual com reconhecimento da existência de estruturas que pretende preservar, reformular ou integrar. Em sua apresentação, o documento sustenta que políticas públicas podem aproveitar experiências já testadas, inclusive de outras unidades da Federação.

Disputa ocorre a três semanas do primeiro turno

A controvérsia ocorre na reta final da campanha eleitoral. O calendário definido pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE) estabelece o primeiro turno das Eleições 2026 para 04/10/2026 e eventual segundo turno para 25/10/2026.

Nesse contexto, a discussão sobre originalidade das propostas funciona também como estratégia de diferenciação política. A campanha governista procura demonstrar que políticas apresentadas pela oposição já estão em curso; o plano oposicionista, por sua vez, descreve várias iniciativas como reformulações, expansões ou novos mecanismos de execução.

Para o eleitor, uma comparação tecnicamente consistente exige ir além do nome dado aos programas. É necessário confrontar objetivos, público atendido, alcance territorial, orçamento, metas, governança, indicadores de desempenho e resultados comprovados.

Linha do tempo dos principais acontecimentos

  • 2007 — SABE: a Secretaria da Educação da Bahia cria o Sistema de Avaliação Baiano da Educação, que permanece como instrumento de avaliação da rede.
  • 2021 — Dignidade Menstrual: o Governo da Bahia lança política destinada inicialmente a aproximadamente 225 mil estudantes em situação de vulnerabilidade.
  • Março de 2023 — Bahia Sem Fome: o governo estadual inicia programa de enfrentamento à insegurança alimentar e articulação de diferentes políticas sociais.
  • 28/11/2023 — institucionalização do Bahia Sem Fome: a Lei Estadual nº 14.635 transforma a iniciativa em política estadual.
  • 29/08/2024 — digitalização da saúde: a Bahia anuncia expansão do AGHUse de 31 para 95 unidades até 2026, incluindo prontuário eletrônico e integração digital.
  • 05/11/2024 — Bahia pela Paz: são formalizadas parcerias para implantação dos coletivos, com investimento previsto de cerca de R$ 70,5 milhões.
  • 14/07/2025 — Agora Tem Especialistas: a Bahia anuncia R$ 100 milhões do programa federal para ampliar atendimento especializado por meio das policlínicas regionais. (
  • Fevereiro de 2026 — Coletivos em expansão: balanço oficial registra 12 unidades em funcionamento, com previsão de novas implantações.
  • Julho de 2026 — rede chega a 18 equipamentos: Governo da Bahia contabiliza 18 Coletivos Bahia pela Paz em operação ou em processo de entrada em funcionamento, mantendo 24 como meta para o fim do ano.
  • 2026 — Plano de Governo 2027–2030: ACM Neto apresenta documento com propostas como Corujão da Saúde, Saúde Sobre Rodas, Pix Saúde, reformulação do SABE, Bahia no Trilho, Conforto da Mulher e Mesa Farta.
  • 10/09/2026 — levantamento de Jerônimo: o governador afirma que sua equipe encontrou equivalentes estaduais para 205 de 324 propostas, cerca de 63,3% do conjunto contabilizado.
  • 04/10/2026 — primeiro turno: data definida pelo TSE para a votação das Eleições 2026.

A documentação consultada demonstra que a crítica da campanha de Jerônimo Rodrigues possui fundamento em diversos casos concretos. Há sobreposições substanciais nas áreas de atendimento itinerante em saúde, ampliação de exames especializados, prontuário eletrônico, combate à evasão, dignidade menstrual e segurança alimentar. Em alguns programas, a proximidade conceitual é significativa o suficiente para tornar legítima a discussão sobre quanto do plano oposicionista representa inovação e quanto corresponde a continuidade, reorganização ou rebatismo de políticas já conhecidas.

A cifra de 63,3%, entretanto, ainda não pode ser tratada como conclusão independente. Sem a divulgação da matriz que compara as 324 propostas e classifica as 205 supostas correspondências, não é possível avaliar se foi aplicado o mesmo critério a todas elas. A amostragem examinada mostra, inclusive, situações distintas: o SABE é reconhecido pelo próprio plano de ACM Neto como programa existente a ser reformulado; o Pix Saúde incorpora regras que não se confundem integralmente com a contratação complementar tradicional; e o Bahia no Trilho acrescenta monitoramento preditivo à busca ativa já praticada.

A verificação também identificou imprecisões no material que sustenta a crítica governista. A rede de policlínicas era oficialmente apresentada com 26 unidades, não 27; as 24 unidades do Bahia pela Paz constituíam meta para o fim de 2026, e não estrutura integralmente instalada; e valores e quantitativos atribuídos ao Bahia Sem Fome e ao Feira Saúde Mais Perto não foram integralmente confirmados nas fontes oficiais consultadas. Essas divergências não eliminam as sobreposições, mas reforçam a necessidade de separar propaganda eleitoral de comparação técnica.


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