Mensagens de Daniel Vorcaro citam R$ 500 mil mensais ao lado de Kevin Marques; ministro Nunes Marques nega pagamento e deixa julgamento no STF

Brasília, terça-feira (15/09/2026) — Mensagens extraídas do celular de Daniel Vorcaro, ex-controlador do Banco Master, relacionam o nome e o telefone do advogado Kevin de Carvalho Marques, filho do ministro do STF Kassio Nunes Marques, à expressão “500 mil mês”, em conversas mantidas pelo então diretor jurídico do banco, Luiz Rennó, com Vorcaro. Os registros não comprovam, isoladamente, que o valor tenha sido efetivamente pago a Kevin. O advogado afirma que jamais prestou serviços ao Master ou recebeu dinheiro de Vorcaro, enquanto Nunes Marques reiterou a negativa nesta terça-feira e, posteriormente, declarou-se impedido de participar do julgamento sobre a investigação de Alexandre de Moraes.

A informação adiciona um novo elemento ao que o Jornal Grande Bahia já havia publicado sobre a relação profissional entre Kevin e a Consult Inteligência Tributária. O JGB registrou anteriormente que a consultoria recebeu R$ 6,6 milhões do Banco Master e que o escritório do filho do ministro recebeu R$ 281,6 mil da Consult por serviços jurídicos. Na ocasião, não havia demonstração de que os recursos pagos ao advogado tivessem origem no dinheiro recebido pela empresa do Master. (

Conversa de julho menciona “500 mil mês”

Em mensagem de 04/07/2025, Luiz Rennó encaminhou a Vorcaro um arquivo contendo o nome “Kevin Marques” e um número de telefone atribuído ao advogado. Em seguida, escreveu: “Esse aqui — 500 mil mês — mantém?”.

Rennó acrescentou depois uma referência indicando dúvida sobre a continuidade do item. Vorcaro respondeu com risadas, mas o trecho divulgado não registra confirmação textual de pagamento nem esclarece a natureza do valor mencionado.

Em 08/08/2025, o então diretor jurídico voltou a encaminhar o material e escreveu mensagens afirmando que aquele seria o único item que faltava e, depois, que “foi pago”. Ainda assim, os diálogos divulgados não apresentam comprovante bancário que permita concluir que R$ 500 mil foram transferidos a Kevin Marques.

Essa distinção é essencial. A existência de uma anotação ou conversa sobre pagamento é fato documental; a identificação do beneficiário efetivo, origem dos recursos, finalidade, eventual contrato e confirmação da transferência dependem de documentação financeira.

Kevin confirma relação com Consult, mas nega Master

Kevin Marques declarou que não prestou serviços ao Banco Master nem recebeu dinheiro de Daniel Vorcaro.

Segundo o advogado, os R$ 281,6 mil recebidos da Consult Inteligência Tributária remuneraram serviços jurídicos especializados na área tributária administrativa e não possuíam relação com o Supremo Tribunal Federal.

A Consult, por sua vez, já havia aparecido em reportagens anteriores porque recebeu R$ 6,6 milhões do Banco Master. A coincidência entre relações comerciais justifica apuração, mas não autoriza concluir, sem rastreamento bancário e contratual, que recursos pagos pela consultoria ao advogado tenham sido repassados em nome do Master.

Esse ponto já havia sido tratado pelo JGB meses antes. A novidade documental desta terça-feira é a presença do nome e do contato de Kevin ao lado da referência explícita a R$ 500 mil mensais nas mensagens entre executivos ligados ao banco.

Nunes Marques nega pagamento e declara impedimento

Durante a sessão extraordinária do STF, Nunes Marques afirmou que o filho nunca trabalhou para o Master e nunca foi remunerado pela instituição.

O ministro declarou ainda que nunca julgou processo relacionado ao banco. Posteriormente, anunciou que não participaria do julgamento sobre Moraes porque, na condição de presidente do TSE, considerava desconfortável votar em matéria que poderia produzir impacto político-eleitoral.

A declaração de impedimento ocorreu poucas horas depois da divulgação pública das mensagens envolvendo Kevin, mas Nunes Marques fundamentou sua decisão no exercício da Presidência do TSE e nos eventuais efeitos políticos do caso.

Mensagens também citam julgamento relacionado à Alcídia

Outro trecho divulgado juntamente com as conversas registra a expressão “ganhamos Alcídia”, referência à Destilaria Alcídia, envolvida em controvérsia judicial sobre precatórios do setor sucroalcooleiro.

Segundo o material publicado, o julgamento foi concluído em 01/10/2024 com posição favorável à empresa e votos de Edson Fachin, Dias Toffoli e Kassio Nunes Marques. O Banco Master mantinha exposição econômica a precatórios do setor, razão pela qual o resultado tinha interesse financeiro para a instituição.

O processo havia sido interrompido anteriormente por pedido de vista de Nunes Marques, que posteriormente devolveu o caso para julgamento. Esses fatos, contudo, não demonstram que a atuação jurisdicional do ministro tenha relação com qualquer contrato do filho ou com as mensagens posteriores.

Estabelecer eventual vínculo exigiria demonstrar conhecimento do magistrado, relação temporal, interesse específico, comunicação relevante e nexo entre atos praticados. Os diálogos divulgados não fornecem, por si sós, essa cadeia probatória.

Outra conversa menciona “kassio” e cobrança de R$ 10 mil

Um segundo conjunto de mensagens divulgado nesta terça-feira exige cautela ainda maior.

Em conversa registrada em 28/02/2025, uma mulher identificada como Rayanna perguntou a Vorcaro por um endereço e afirmou que “as meninas estão prontas”. Em 07/03, a interlocutora retomou o assunto e declarou que uma amiga teria “ficado com o kassio”, passando em seguida a tratar de uma cobrança que aparece como “10” nas mensagens divulgadas.

A reportagem que revelou o material interpretou o contexto como possível referência ao ministro Kassio Nunes Marques. O próprio magistrado negou o encontro. Importante: os trechos divulgados utilizam apenas o primeiro nome e não comprovam independentemente que a pessoa mencionada seja o ministro, tampouco comprovam a realização do encontro ou pagamento atribuído à conversa.

Por essa razão, a informação deve permanecer estritamente no campo da mensagem atribuída à interlocutora de Vorcaro e da negativa apresentada por Nunes Marques, sem transformar a referência em fato confirmado.

Viagem também aparece no conjunto de documentos

Outro material encontrado no aparelho registra pedido feito em dezembro de 2024 para organização de uma viagem de aproximadamente dez dias para cinco pessoas, com referência ao nome do ministro.

Em mensagem posterior, um profissional ligado à organização da viagem perguntou a Vorcaro se deveria faturar o serviço diretamente ao cliente ou ao banqueiro. Os trechos divulgados não demonstram qual opção foi efetivamente utilizada nem comprovam pagamento de despesas por Vorcaro.

Esses documentos ampliam as perguntas investigativas, mas a apuração precisa separar solicitações, orçamentos, intenções e despesas realmente executadas.

Material integral passou a circular entre gabinetes

A divulgação das mensagens ocorre depois de a Polícia Federal informar que cópias dos dados extraídos do celular de Vorcaro foram disponibilizadas a gabinetes de ministros do STF que solicitaram acesso ao conjunto documental.

A ampliação do acesso permitiu que informações envolvendo pessoas próximas de outros integrantes da Corte viessem a público justamente quando o Plenário se preparava para analisar elementos relacionados a Moraes.

Essa circunstância passou a alimentar no STF uma discussão mais ampla sobre simetria de tratamento: se mensagens envolvendo um ministro justificam aprofundamento investigativo, qual deve ser o critério aplicado a referências semelhantes envolvendo outros magistrados, familiares ou interlocutores?

A resposta não pode decorrer apenas da quantidade de mensagens ou do impacto político das revelações. Cada conjunto documental possui natureza, contexto e valor probatório próprios.

Linha do tempo dos principais acontecimentos

  • 01/10/2024 — STF conclui julgamento relacionado à Destilaria Alcídia, tema com repercussão econômica sobre precatórios do setor; Nunes Marques integra a corrente vencedora.
  • Dezembro de 2024 — Mensagens registram pedido para organização de viagem associado ao nome “Ministro Kassio”; o material divulgado não comprova quem arcou com os custos.
  • 28/02/2025 — Interlocutora de Vorcaro trata da preparação de encontro em São Paulo.
  • 07/03/2025 — A mesma interlocutora afirma que uma amiga teria “ficado com o kassio” e menciona cobrança; Nunes Marques nega o encontro.
  • 04/07/2025 — Luiz Rennó envia a Vorcaro o nome e contato de Kevin Marques junto da anotação “500 mil mês”.
  • 08/08/2025 — Rennó volta a mencionar o item e escreve que teria sido pago; o trecho divulgado não contém comprovante de transferência a Kevin.
  • 15/09/2026 — Mensagens tornam-se públicas; Kevin e Nunes Marques negam pagamento pelo Master, e o ministro declara impedimento para participar do julgamento envolvendo Moraes.

As novas mensagens alteram o patamar documental do caso porque vão além da informação já conhecida de que Kevin Marques trabalhou para uma consultoria que também recebeu recursos do Banco Master. Agora existe uma referência explícita ao nome e telefone do advogado ao lado da anotação “500 mil mês”. Isso justifica apuração objetiva, mas ainda não comprova pagamento.

A questão central pode ser esclarecida por documentação verificável: contratos, notas fiscais, extratos bancários, registros contábeis e identificação dos beneficiários efetivos. O mesmo critério deve orientar a análise da viagem e das demais mensagens. Não é suficiente interpretar fragmentos de conversa sem verificar se os atos mencionados ocorreram.

A conversa envolvendo a expressão “kassio” exige cautela ainda maior. O conteúdo publicado não identifica o sobrenome da pessoa referida nem produz, por si só, confirmação independente de identidade ou encontro. Transformar a fala de uma interlocutora em afirmação categórica sobre um ministro significaria ultrapassar o limite do que a evidência disponível permite afirmar.

O interesse público reside precisamente na necessidade de esclarecer essas lacunas. A Polícia Federal, o STF, os envolvidos e eventuais empresas que apareçam nos fluxos financeiros poderão fornecer elementos capazes de confirmar ou afastar as hipóteses abertas pelas mensagens. Até lá, a distinção entre referência documental, pagamento comprovado, versão das partes e inferência deve permanecer explícita.


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