O presidente Luiz Inácio Lula da Silva afirmou, nesta terça-feira (22/09/2026), que os brasileiros decidirão nas eleições de 4 de outubro entre “democracia e negacionismo” e entre a continuidade de um projeto voltado à ampliação de oportunidades ou o retorno a um passado de exclusão. A declaração ocorreu durante o discurso de abertura do debate geral da 81ª Assembleia Geral das Nações Unidas, em Nova York, onde o chefe de Estado também criticou a estrutura da organização, defendeu a soberania nacional e apresentou posições sobre temas econômicos e geopolíticos.
Em sua décima participação na abertura do debate geral da ONU, Lula declarou que a organização atravessa o momento mais crítico desde seu primeiro pronunciamento na tribuna, em 2003. Segundo o presidente, a instituição perdeu capacidade de cumprir sua missão de prevenir guerras e proteger populações vulneráveis.
“A ONU está falhando em uma das suas missões mais elevadas: a de livrar a humanidade do flagelo da guerra. Sua credibilidade nunca esteve tão baixa”, afirmou.
Lula critica Conselho de Segurança e defende reforma do sistema multilateral
O presidente brasileiro voltou a questionar o funcionamento do Conselho de Segurança da ONU, especialmente o poder de veto atribuído aos cinco membros permanentes. Para Lula, o mecanismo contribui para a paralisação da organização diante dos conflitos atuais.
“Diante da paralisia das Nações Unidas, precisamos reencontrar a vontade política para que volte a ser o templo da paz”, declarou.
A defesa de uma reforma da governança internacional foi apresentada como parte de uma agenda mais ampla de fortalecimento do multilateralismo. Ao longo do discurso, Lula criticou decisões unilaterais de grandes potências e afirmou que o sistema internacional precisa responder de maneira mais efetiva às crises humanitárias e aos conflitos armados.
O presidente também relacionou as tensões geopolíticas ao risco de uma nova corrida armamentista. Na avaliação apresentada no pronunciamento, o aumento das disputas entre países pode ampliar conflitos regionais e gerar consequências de alcance global.
Eleições de 4 de outubro entram no centro do discurso presidencial
Ao tratar da política brasileira, Lula afirmou que o processo eleitoral ocorrerá de maneira transparente e competitiva, mas alertou para o impacto das redes de desinformação sobre o debate público durante a campanha.
“Os brasileiros vão decidir entre democracia e negacionismo”, afirmou, acrescentando que o eleitorado também escolherá entre “um futuro de mais oportunidades” e “um passado de exclusão”.
Sem citar nomes, o presidente acusou determinados atores políticos de estabelecerem associações com interesses estrangeiros que, segundo ele, seriam contrários aos interesses nacionais. A declaração foi acompanhada de uma defesa da autonomia das instituições brasileiras e do sistema eleitoral.
“Não permitiremos que os inimigos da democracia, internos e externos, atentem contra a vontade popular. A democracia brasileira pertence aos brasileiros. O Brasil continuará sendo um país soberano”, disse.
Lula ainda declarou que o Brasil dispõe de um sistema eleitoral “moderno e robusto” e que o país não permitirá interferências externas no processo de escolha dos representantes políticos.
Soberania nacional e relações com os Estados Unidos
As relações entre Brasil e Estados Unidos também ocuparam parte significativa do pronunciamento. Embora não tenha citado diretamente o presidente norte-americano Donald Trump em determinados trechos, Lula fez referências à influência de Washington sobre a América Latina e criticou o que classificou como tentativas de ingerência política e econômica na região.
“O Brasil não cabe no quintal de ninguém. Precisamos de parceiros com uma agenda positiva, que fomente o desenvolvimento”, declarou.
O presidente mencionou a proximidade geográfica com os Estados Unidos, descritos como a maior potência militar do mundo, e afirmou que essa relação exige cooperação baseada em interesses compartilhados, sem subordinação política.
Lula também denunciou o que chamou de “investidas neocoloniais” em busca de recursos estratégicos e criticou interferências estrangeiras em processos eleitorais. Para o presidente, a soberania deve ser preservada diante de pressões externas relacionadas à política, à economia e ao controle de matérias-primas.
Combate ao crime organizado depende de cooperação internacional
O enfrentamento ao crime organizado foi outro tema abordado no discurso. Lula afirmou que o Brasil reconhece a dimensão da ameaça representada pelas organizações criminosas, mas rejeitou a transferência da responsabilidade pela segurança nacional para outros países.
“Não vamos terceirizar a responsabilidade de defender nossas fronteiras e de garantir à população o direito de viver sem medo”, declarou.
Segundo o presidente, o combate ao crime exige cooperação internacional para interromper o fluxo de armas e recursos financeiros que abastecem grupos criminosos.
“Não precisamos de porta-aviões vigiando nossas águas. Precisamos de cooperação para estancar o fluxo de armas e de dinheiro que abastecem o crime”, afirmou.
Lula revelou ainda ter apresentado pessoalmente ao presidente dos Estados Unidos uma proposta de cooperação para combater a lavagem de dinheiro realizada por criminosos brasileiros no exterior. A iniciativa foi apresentada como parte de uma estratégia de articulação entre países para enfrentar redes criminosas que operam além das fronteiras nacionais.
Lei Antifacção e combate à corrupção
Durante o pronunciamento, Lula mencionou a Lei Antifacção e afirmou que a legislação prevê penas superiores às aplicadas em crimes relacionados ao terrorismo, conforme sua declaração.
O presidente também associou crime organizado e corrupção e reafirmou que o combate a práticas ilícitas deve alcançar agentes públicos e privados.
“Crime organizado e corrupção andam juntos. O combate à corrupção continuará implacável, doa a quem doer. Ninguém está acima da lei”, declarou.
Tarifas comerciais são criticadas como instrumentos de pressão
As divergências comerciais entre Brasil e Estados Unidos apareceram novamente no discurso, desta vez no contexto da defesa do multilateralismo econômico.
Lula criticou o uso de tarifas comerciais como mecanismos de pressão entre governos e afirmou que a adoção dessas medidas compromete as relações econômicas internacionais.
“Quando os governos capitulam frente aos que usam tarifas como armas de coerção e chantagem, as consequências são nefastas”, disse.
Ao abordar o desempenho da economia brasileira, o presidente fez referência direta às tarifas impostas sobre produtos nacionais e declarou que o país deverá registrar novo recorde de exportações em 2026.
“Apesar do tarifaço contra nossa economia, este ano bateremos novo recorde de exportações”, afirmou.
A declaração inseriu a política comercial brasileira no contexto das disputas sobre soberania econômica, acesso a mercados e autonomia para formular políticas de desenvolvimento.
PIX, inteligência artificial e regulação das plataformas digitais
A regulação das empresas de tecnologia e da inteligência artificial também foi incluída na agenda apresentada por Lula. O presidente defendeu a criação de regras para as chamadas Big Techs e criticou a concentração de poder econômico e tecnológico em grandes grupos empresariais.
Segundo Lula, um grupo restrito de “tecno-oligarcas” tenta promover uma versão do neoliberalismo digital sem mecanismos suficientes de controle e transparência.
O presidente também mencionou o PIX, sistema brasileiro de pagamentos instantâneos, em meio às divergências envolvendo o Brasil e empresas estrangeiras.
“Não vamos ceder às pressões de multinacionais que querem privatizar o nosso PIX, uma infraestrutura de pagamentos pública e gratuita que fez da inclusão financeira uma realidade para milhões de brasileiros”, declarou.
Críticas às apostas online
As plataformas de apostas esportivas, conhecidas como bets, também foram citadas. Lula afirmou que a expansão desse mercado tem contribuído para o endividamento de famílias e criticou o modelo de negócios baseado na exploração do vício.
A declaração integrou a defesa de uma agenda regulatória para o ambiente digital, com atenção aos impactos econômicos e sociais das plataformas tecnológicas.
Minerais críticos e terras raras devem gerar valor no Brasil
Na área ambiental e econômica, Lula defendeu o controle nacional sobre a exploração de minerais críticos e terras raras, recursos considerados relevantes para a transição energética mundial.
O presidente afirmou que o Brasil possui reservas estratégicas e que o acesso a esses recursos deve ocorrer mediante contrapartidas que beneficiem a economia nacional.
“Nossas riquezas naturais pertencem ao povo brasileiro – e é em benefício dele que serão exploradas”, declarou.
Entre as condições mencionadas estão a geração de valor dentro do país, a transferência de tecnologia e o abastecimento de setores estratégicos nacionais.
A posição apresentada relaciona a exploração mineral à industrialização, à agregação de valor e à busca por maior participação brasileira nas cadeias produtivas associadas à transição energética.
Lula defende fim da escala 6×1 e mais tempo para descanso
A agenda trabalhista brasileira também foi levada à tribuna das Nações Unidas. Lula defendeu o fim da escala de trabalho 6×1, modelo no qual o trabalhador exerce atividades durante seis dias consecutivos e dispõe de um dia de descanso.
“No Brasil, concretizar esse objetivo passa pelo fim da chamada escala 6×1 para garantir ao trabalhador dois dias livres por semana”, afirmou.
O presidente relacionou a proposta à ampliação do tempo destinado ao descanso, à qualificação profissional e à convivência familiar.
Lula também associou a mudança à necessidade de reduzir a sobrecarga de trabalho doméstico que, segundo ele, recai de forma desproporcional sobre as mulheres. O discurso incluiu ainda uma referência ao combate ao feminicídio.
Gaza e Ucrânia: presidente defende soluções diplomáticas
Os conflitos internacionais ocuparam parte central do pronunciamento. Ao tratar da situação no Oriente Médio, Lula criticou as ações do governo de Benjamin Netanyahu na Faixa de Gaza e mencionou os impactos da guerra sobre palestinos e israelenses.
“Gerações de palestinos carregarão a dor e o trauma deixados pelo genocídio praticado pelo governo Netanyahu contra mulheres e crianças em Gaza”, afirmou.
Na mesma passagem, o presidente condenou os atos terroristas do Hamas e declarou que civis israelenses também sofreram as consequências do radicalismo e da intolerância.
Lula criticou ainda a expansão dos assentamentos israelenses na Cisjordânia e reiterou a defesa da solução de dois Estados, com a coexistência de Israel e Palestina.
Guerra entre Rússia e Ucrânia
Sobre a guerra entre Rússia e Ucrânia, Lula defendeu uma saída negociada e afirmou que o conflito não produzirá vencedores no campo de batalha.
“A diplomacia é a única opção”, declarou.
O presidente citou o Grupo de Amigos da Paz, iniciativa criada por Brasil e China, como exemplo de articulação voltada à busca de uma solução diplomática para o conflito.
Ao concluir sua abordagem sobre as guerras, Lula afirmou que o cenário internacional exige a retomada da negociação política como instrumento de prevenção e resolução de crises.
“A guerra não é a continuação da política por outros meios. É a falência total da política”, disse.
Multilateralismo e soberania orientam mensagem final
Ao longo do discurso, Lula apresentou uma interpretação do atual cenário internacional baseada em escolhas entre modelos distintos de organização política e econômica.
Segundo o presidente, os países estão diante de decisões relacionadas a “multilateralismo ou unilateralismo”, “democracia ou extremismo” e “soberania ou subordinação”.
A mensagem articulou os temas tratados durante o pronunciamento — das eleições brasileiras à reforma da ONU, passando pelo comércio internacional, pelas tecnologias digitais, pelos recursos naturais e pelos conflitos armados.
O discurso na 81ª Assembleia Geral das Nações Unidas combinou a defesa de posições do governo brasileiro em temas domésticos com críticas à estrutura do sistema internacional e à atuação de grandes potências.
A participação de Lula também serviu para apresentar, perante líderes estrangeiros, a agenda brasileira sobre democracia, desenvolvimento econômico, segurança, direitos trabalhistas e diplomacia, em um momento de intensificação das disputas geopolíticas e comerciais.
*Com informações da RFI.








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