O senador e candidato à Presidência Flávio Bolsonaro (PL-RJ) é formalmente investigado pela Polícia Federal por suspeitas de lavagem de dinheiro, evasão de divisas, corrupção e delitos correlatos relacionados ao financiamento de “Dark Horse”, cinebiografia sobre o ex-presidente Jair Bolsonaro. A condição de investigado decorre de decisão do ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal (STF), tomada em 22/07/2026 e conhecida publicamente nesta sexta-feira (11/09/2026) após a retirada do sigilo de parte dos procedimentos do caso Banco Master. O braço específico de “Dark Horse”, contudo, permanece sob segredo de Justiça porque ainda envolve diligências investigativas. Paralelamente, outra investigação, relatada pelo ministro Flávio Dino, apura se recursos públicos de emendas parlamentares destinadas pelo deputado Mário Frias (PL-SP) percorreram uma cadeia de entidades e empresas vinculadas à produção cinematográfica.
Flávio Bolsonaro passou de personagem citado a investigado formal
A informação mais relevante revelada nesta sexta-feira altera juridicamente a posição de Flávio Bolsonaro no caso. Segundo documentos conhecidos após a abertura parcial dos procedimentos, a PF pediu autorização para apurar a “possível prática dos crimes de lavagem de dinheiro, evasão de divisas, corrupção e outros delitos correlatos” no contexto do financiamento de “Dark Horse” junto ao Banco Master. Mendonça acolheu o pedido.
A decisão não reconhece a existência dos crimes nem estabelece responsabilidade do senador. Significa que a Polícia Federal foi autorizada a realizar diligências destinadas a verificar se existem materialidade, autoria e nexo entre as operações financeiras, seus beneficiários e eventuais contrapartidas. O conteúdo detalhado das suspeitas permanece parcialmente inacessível devido ao sigilo investigativo.
De acordo com a apuração divulgada pelo UOL, também figuram como investigados nesse núcleo Eduardo Bolsonaro e Mário Frias. Para os investigadores, Flávio não aparece apenas mencionado por terceiros: há registros de cobranças feitas diretamente pelo senador a Daniel Vorcaro, então controlador do Banco Master, para que os pagamentos relacionados à produção continuassem.
Contrato previa US$ 24 milhões e pagamentos conhecidos superaram US$ 12 milhões
O ponto de partida público da investigação surgiu em 13/05/2026, quando o Intercept Brasil divulgou mensagens, áudios, planilhas e documentos segundo os quais Flávio Bolsonaro negociou com Daniel Vorcaro um financiamento de US$ 24 milhões, então equivalente a aproximadamente R$ 134 milhões, para viabilizar “Dark Horse”.
A primeira documentação publicada indicava que pelo menos US$ 10,6 milhões, cerca de R$ 61 milhões nas cotações das respectivas operações, haviam sido transferidos em seis pagamentos entre fevereiro e maio de 2025. Os recursos saíram da Entre Investimentos e Participações e chegaram ao Havengate Development Fund LP, fundo sediado no Texas, nos Estados Unidos.
Documentação conhecida posteriormente acrescentou uma transferência de US$ 1.666.667, realizada em 16/09/2025, elevando o montante conhecido associado ao circuito financeiro para aproximadamente US$ 12,3 milhões. A existência dessa parcela ampliou a cronologia inicialmente divulgada e tornou necessário verificar quantos aportes foram efetivamente concluídos.
O contrato encontrado no celular de Vorcaro previa o pagamento dos US$ 24 milhões em 14 parcelas. A primeira remessa pública conhecida para o Havengate foi de US$ 2 milhões, em fevereiro de 2025. O fundo permanecera por quase quatro anos sem atividade pública registrada antes de receber essa transferência.
Havengate e o caminho internacional do dinheiro
O Havengate havia sido estruturado originalmente em torno de um projeto imobiliário no Texas denominado Havengate Community. O empreendimento previa captação de investidores e incluía, em seu material comercial, possibilidade de imigração para os Estados Unidos. Apuração do Intercept constatou que o projeto imobiliário não chegou a ser executado conforme planejado.
Documentos societários identificaram Paulo Calixto, advogado ligado a Eduardo Bolsonaro, como integrante da administração da estrutura do fundo. Outro documento revelado pela imprensa atribuiu a Eduardo funções relacionadas à produção-executiva de “Dark Horse”, inclusive responsabilidades ligadas a orçamento e gerenciamento financeiro. Eduardo e Mário Frias contestaram interpretações de que o ex-deputado tenha exercido efetivamente essas atribuições ou recebido os recursos investigados.
Essa estrutura internacional é central para a apuração de evasão de divisas e lavagem de dinheiro, mas sua utilização, isoladamente, não comprova qualquer delito. A investigação terá de estabelecer a origem econômica de cada aporte, sua documentação cambial, o beneficiário final, a correspondência entre transferência e despesa cinematográfica e se houve destinação diferente daquela registrada nos contratos.
PF investiga se recursos financiaram despesas de Eduardo Bolsonaro
Uma das hipóteses examinadas pela Polícia Federal é a possibilidade de parte dos valores destinados ao Havengate ter custeado despesas de Eduardo Bolsonaro nos Estados Unidos. Até o momento, essa possibilidade permanece como linha investigativa e não como fato judicialmente comprovado.
A dúvida ganhou relevância porque o fundo norte-americano aparece administrado por pessoa ligada a Eduardo e porque documentos anteriormente divulgados lhe atribuíam participação no projeto. Para transformar essa hipótese em conclusão probatória, porém, será necessário identificar os destinatários finais dos pagamentos e confrontá-los com as despesas efetivamente realizadas na produção.
Flávio Bolsonaro sustenta que não houve desvio nem contrapartida. Em agosto, declarou que não havia “absolutamente nada de errado” em buscar financiamento privado para um filme sobre o pai e afirmou que, embora senador, não ofereceu qualquer benefício ao investidor. Na quinta-feira (10), voltou a declarar que a operação teria sido um “investimento privado num filme privado”.
Delação de operador de Vorcaro acrescenta nova fonte de prova
Outro desenvolvimento importante ocorreu na quarta-feira (09/09/2026). André Mendonça homologou a colaboração premiada de Antônio Carlos Freixo Júnior, conhecido como Mineiro, empresário relacionado à Entre Investimentos e Participações e apontado na investigação como operador financeiro de Daniel Vorcaro.
Segundo informações sobre o acordo, Freixo relatou que realizava remessas financeiras e obtinha grandes quantidades de dinheiro em espécie a pedido de Vorcaro. Sua empresa aparece justamente no caminho utilizado para transferir recursos ao Havengate. O colaborador afirmou que Vorcaro lhe solicitava operações consideradas “não ortodoxas”, incluindo remessas sem lastro e obtenção de dinheiro vivo.
A homologação da colaboração não comprova as acusações relatadas por Mineiro. Pela legislação brasileira, declarações de colaborador precisam ser corroboradas por evidências independentes. O valor investigativo do acordo dependerá, portanto, da capacidade de comparar seus relatos com extratos, contratos, mensagens, dados cambiais e outras provas documentais.
Caso de Mário Frias envolve outra investigação e dinheiro público
Embora as duas apurações se encontrem em torno de “Dark Horse”, é necessário separar juridicamente os seus objetos. A investigação relatada por André Mendonça tem como eixo os recursos associados a Daniel Vorcaro, ao Banco Master e às transferências internacionais destinadas ao filme. Já a frente conduzida por Flávio Dino nasceu da fiscalização da execução e da rastreabilidade de emendas parlamentares.
Na quinta-feira (10/09/2026), a Polícia Federal, com apoio da Controladoria-Geral da União, deflagrou a Operação Make Up e cumpriu 49 mandados de busca e apreensão em São Paulo, Rio de Janeiro, Ceará e Distrito Federal. Oficialmente, a PF informou investigar possíveis crimes de peculato, falsidade documental, lavagem de dinheiro, organização criminosa e crimes licitatórios.
Segundo a corporação, agentes públicos e privados teriam direcionado valores recebidos por organizações da sociedade civil para empresas subcontratadas irregularmente, sem comprovação da efetiva prestação dos serviços. A PF ressalta que são suspeitas sob apuração; não existe, nesta fase, sentença que reconheça a existência da organização criminosa ou a responsabilidade individual dos investigados.
R$ 2 milhões em emendas e projetos sob suspeita
A investigação aponta que Mário Frias destinou R$ 2 milhões ao Instituto Conhecer Brasil (ICB), entidade presidida por Karina Ferreira da Gama, também vinculada à Go Up Entertainment, produtora de “Dark Horse”. Os recursos estavam destinados aos projetos Jovem Empreendedor e Lutando pela Vida, no município paulista de Pirassununga.
No Jovem Empreendedor, destinado ao letramento digital e empreendedorismo de estudantes do quarto e quinto anos da rede pública, a investigação encontrou elementos que levaram a CGU a questionar a capacidade operacional do instituto. A proposta previa atendimento a 2.250 estudantes, mas, segundo os documentos da auditoria citados pela PF, videoaulas disponibilizadas somente em 31/05/2026 contabilizavam apenas sete visualizações em 1º de julho. A apuração também identificou três orçamentos de fornecedores com a mesma estrutura e os mesmos valores. A análise dos metadados indicou que os documentos teriam sido produzidos pela mesma autora, no mesmo dia e com intervalo de apenas 13 minutos. Esses elementos são tratados pelos investigadores como sinais que justificam aprofundamento sobre eventual direcionamento das contratações.
PF rastreia R$ 700 mil e transferência de R$ 750 mil para a Go Up
Um dos fluxos considerados centrais envolve R$ 700 mil pagos pelo ICB a empresas relacionadas ao empresário Heric Dias: R$ 400 mil para a Dinâmica Editora e R$ 300 mil para o Instituto Super Poder Educacional.
Posteriormente, a NTT Brasil Ltda., outra empresa vinculada ao mesmo grupo empresarial, transferiu R$ 750 mil em uma única operação para a Go Up Entertainment. A PF considera a proximidade entre valores e vínculos empresariais um dos elementos que precisam ser esclarecidos para determinar se houve triangulação do dinheiro público destinado ao projeto educacional.
Não está demonstrado por decisão judicial definitiva que os R$ 750 mil sejam os mesmos recursos públicos originários da emenda. Essa correspondência financeira é precisamente um dos pontos que a perícia e o rastreamento bancário terão de confirmar ou excluir.
Projeto Lutando pela Vida teve execução questionada pela CGU
O segundo projeto, Lutando pela Vida, recebeu recursos para oferecer atividades de jiu-jítsu a crianças de Pirassununga. O Portal da Transparência registra instrumento no valor de R$ 1 milhão, com o Instituto Conhecer Brasil como convenente e os recursos integralmente liberados.
A CGU, entretanto, concluiu que a documentação apresentada pelo instituto não era suficiente para comprovar integralmente a execução das atividades. Segundo os elementos citados pela PF, listas de frequência haviam sido preenchidas pela própria equipe do projeto e não continham assinaturas dos alunos.
Outro ponto envolve R$ 457 mil pagos para a aquisição de itens como quimonos, faixas, uniformes e tatames. A empresa contratada informou à auditoria que não entregou os materiais previstos, apesar de documento apresentado pelo instituto indicar recebimento parcial. A investigação deverá esclarecer a divergência documental.
Go Up movimentou R$ 19 milhões durante período próximo às filmagens
As filmagens de “Dark Horse” em São Paulo ocorreram entre 20/10 e 07/12/2025. Entre 10/11 e 30/12/2025, a Go Up registrou movimentação financeira considerada atípica de R$ 19 milhões, correspondentes a R$ 9 milhões em créditos e R$ 10 milhões em débitos.
Além dos R$ 750 mil enviados pela NTT, a PF identificou R$ 645,4 mil transferidos diretamente por Mário Frias à Go Up, R$ 2,6 milhões enviados pela GO7 Assessoria, R$ 3,9 milhões originados da Moneycorp Banco de Câmbio e R$ 1 milhão transferido por Marcello de Oliveira Lopes.
A coincidência temporal entre as filmagens e essas movimentações é tratada pela PF como elemento relevante para o rastreamento, mas não basta, isoladamente, para definir a origem ilícita dos valores. A investigação precisará reconciliar receitas, aportes, contratos, notas fiscais e despesas da produção.
Dino impõe medidas cautelares
A decisão de Flávio Dino que autorizou a Operação Make Up foi tomada em 03/09/2026 e teve o sigilo levantado após o cumprimento das buscas. O processo tramita no STF sob a Petição 16.669, de relatoria do ministro.
Dino proibiu investigados, entre eles Mário Frias, de sair do Brasil e determinou a entrega de passaportes e a proibição de contato entre integrantes do grupo investigado. O ministro justificou as cautelares com a necessidade de evitar alinhamento de versões, combinação de depoimentos, destruição ou ocultação de provas.
Também foram suspensas atividades econômicas e financeiras do Instituto Conhecer Brasil e da Academia Nacional de Cultura, além da possibilidade de determinadas empresas investigadas contratarem com o poder público. Essas providências têm natureza cautelar e não correspondem a condenação.
Mário Frias e Flávio Bolsonaro negam irregularidades
Mário Frias sustenta que não desviou emendas para financiar “Dark Horse”. Após a operação, classificou a investigação como uma “cortina de fumaça em ano de eleição” e ressaltou que não havia mandado de prisão contra ele. Sua defesa também já afirmara ao STF que as emendas tinham finalidade social e que não existia prova de triangulação para o filme.
A produtora Go Up afirma que os recursos empregados em “Dark Horse” foram privados. Uma perícia particular contratada pela empresa calculou o custo da produção em aproximadamente US$ 13 milhões, ou R$ 75 milhões, e afirmou não ter identificado dinheiro público entre os valores examinados. O documento é peça apresentada pela defesa e não equivale a auditoria oficial da PF ou da CGU.
Flávio Bolsonaro também nega qualquer contrapartida ilícita a Daniel Vorcaro. O senador reconheceu posteriormente que buscou recursos para a produção, mas afirma que sua atuação se limitou à captação privada para o projeto.
Sigilo de Mendonça mantém parte decisiva do caso fora do conhecimento público
Na noite de 10/09/2026, André Mendonça atendeu parcialmente a uma solicitação do presidente do STF, Edson Fachin, e levantou o sigilo da Petição 15.556 e de outros 14 procedimentos relacionados ao caso Banco Master. Foi por meio desse material que se tornou pública a informação de que Flávio Bolsonaro havia sido formalmente incluído na investigação.
O ministro, entretanto, preservou o segredo sobre o inquérito específico de “Dark Horse”. A justificativa conhecida é que a investigação ainda está em fase preparatória e que a divulgação integral poderia comprometer diligências.
A preservação do sigilo cria uma distinção importante para a cobertura jornalística: sabe-se oficialmente quais crimes a PF foi autorizada a investigar e quem figura no procedimento, mas ainda não é possível conhecer toda a fundamentação policial, todas as provas reunidas nem as diligências em andamento.
O que a Polícia Federal ainda precisa esclarecer
O conjunto conhecido estabelece a existência de uma negociação milionária entre Flávio Bolsonaro e Daniel Vorcaro, transferências internacionais para o Havengate, emendas destinadas a entidades relacionadas à produtora, movimentações financeiras entre fornecedores e a Go Up e falhas de comprovação apontadas pela fiscalização pública. Esses fatos, porém, não demonstram automaticamente que todas essas cadeias financeiras formem um único esquema criminoso.
A principal tarefa investigativa será reconstruir o percurso individualizado do dinheiro. Isso inclui definir quem financiou cada parcela de “Dark Horse”, quem controlou os recursos no exterior, quem foram os beneficiários finais, quais despesas foram efetivamente cinematográficas e se recursos de emendas chegaram ou não à produção.
Também permanece aberta a questão central para a suspeita de corrupção: se houve alguma contrapartida pública, política, administrativa ou institucional em troca do dinheiro associado a Vorcaro. Até agora, não foi divulgada prova pública conclusiva de troca de favores. Flávio Bolsonaro nega que tenha oferecido qualquer benefício ao empresário.
Linha do tempo dos principais acontecimentos
- Novembro de 2023 e 30/01/2024 — Contrato posteriormente obtido pelo Intercept relaciona Eduardo Bolsonaro, Mário Frias e a Go Up à estrutura de produção de “Dark Horse”; Eduardo contesta a interpretação sobre o efetivo exercício das funções descritas.
- 08/12/2024 — Registros analisados pela imprensa indicam início da aproximação entre Flávio Bolsonaro e Daniel Vorcaro para tratar do projeto cinematográfico.
- Fevereiro a maio de 2025 — Seis transferências somando pelo menos US$ 10,6 milhões chegam ao circuito associado ao Havengate, segundo os documentos inicialmente revelados.
- 16/09/2025 — Nova transferência de US$ 1.666.667 eleva o total conhecido para aproximadamente US$ 12,3 milhões.
- 20/10 a 07/12/2025 — Ocorrem gravações de “Dark Horse” em São Paulo; entre novembro e dezembro, a Go Up registra movimentações de aproximadamente R$ 19 milhões.
- 21/03/2026 — Flávio Dino determina manifestações no contexto da fiscalização de emendas parlamentares relacionadas a entidades posteriormente alcançadas pela investigação.
- 13/05/2026 — Intercept revela que Flávio Bolsonaro negociou com Vorcaro financiamento de até US$ 24 milhões, equivalentes a cerca de R$ 134 milhões à época.
- 15/05/2026 — Dino determina que documentos sobre possíveis irregularidades nas emendas sejam autuados separadamente para investigação específica.
- 22/07/2026 — André Mendonça autoriza, a pedido da PF, inquérito para investigar Flávio Bolsonaro no financiamento de “Dark Horse”, incluindo suspeitas de lavagem, evasão de divisas e corrupção.
- 03/09/2026 — Flávio Dino autoriza medidas cautelares e buscas no procedimento que resultaria na Operação Make Up.
- 09/09/2026 — Mendonça homologa a colaboração premiada de Antônio Carlos Freixo Júnior, o Mineiro, ligado às remessas ao Havengate.
- 10/09/2026 — PF e CGU deflagram a Operação Make Up, com 49 mandados de busca e apreensão; Mário Frias e Karina Gama estão entre os alvos.
- 10/09/2026 — Mendonça retira o sigilo de 15 procedimentos do caso Master, preservando sob segredo de Justiça o inquérito específico sobre “Dark Horse”.
- 11/09/2026 — Torna-se pública a informação de que Flávio Bolsonaro figura formalmente como investigado no inquérito por suspeitas de lavagem de dinheiro, evasão de divisas e corrupção.
Fato comprovado e hipótese investigativa precisam permanecer separados. Está documentalmente estabelecido que Flávio Bolsonaro buscou recursos junto a Daniel Vorcaro para “Dark Horse”, que houve transferências internacionais relacionadas ao financiamento, que Mário Frias destinou emendas a entidades ligadas a pessoas envolvidas na produção e que a fiscalização encontrou inconsistências na comprovação de projetos financiados com dinheiro público. O que ainda não está demonstrado definitivamente é que essas diferentes rotas constituíram um único mecanismo de lavagem, corrupção ou desvio de emendas.
A dimensão estrutural do caso está na combinação de emendas parlamentares, organizações da sociedade civil, subcontratadas, produtoras privadas e veículos financeiros internacionais. Cadeias dessa natureza aumentam a dificuldade de rastrear a origem e o beneficiário final de recursos e tornam indispensável uma conciliação transação por transação. Isso explica por que a simples identificação de empresas interligadas, coincidências temporais ou valores semelhantes não substitui a prova financeira necessária para uma imputação penal.
Em prazo imediato, as buscas da Operação Make Up e a colaboração de Mineiro podem produzir documentos, dispositivos eletrônicos e registros bancários capazes de confirmar ou enfraquecer as hipóteses existentes. Em prazo posterior, caberá à Polícia Federal concluir se existem elementos para indiciamentos; à Procuradoria-Geral da República decidir sobre arquivamento, novas diligências ou eventual denúncia; e ao STF controlar as medidas investigativas e, se provocado, examinar eventual acusação. A condição atual de investigado não equivale à condição de réu nem a condenação.
O núcleo de interesse público ultrapassa o financiamento de uma obra cinematográfica. O caso envolve a necessidade de esclarecer a destinação de recursos públicos, a rastreabilidade de dezenas de milhões de dólares remetidos ao exterior, a relação entre um agente político e o então controlador de uma instituição financeira posteriormente submetida a investigação de grande alcance e a eventual existência — ainda não demonstrada — de contrapartidas. A qualidade da resposta institucional dependerá da capacidade de PF, CGU, PGR e STF reconstruírem documentalmente cada fluxo, preservarem o contraditório e distinguirem relações privadas legítimas de eventuais condutas criminosas.








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