Coaf aponta movimentação de R$ 1,3 milhão de Flávio Bolsonaro em três meses e repasse ligado à quitação de mansão; Escritório emitiu R$ 13,7 milhões em notas fiscais

Relatórios de inteligência financeira do Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf) apontam movimentações atribuídas ao senador e candidato à Presidência Flávio Bolsonaro (PL-RJ) consideradas incompatíveis com a renda, incluindo R$ 1,3 milhão movimentados em três meses, e indicam que um repasse relacionado a escritório de advocacia foi utilizado na quitação da mansão adquirida pelo parlamentar em Brasília, segundo reportagem publicada por O Globo neste sábado (24/10/2026). Os documentos integram a investigação da Polícia Federal (PF) sobre as relações financeiras e empresariais entre Flávio e o advogado Willer Tomaz. A revelação ocorre na véspera do segundo turno presidencial entre Flávio e Luiz Inácio Lula da Silva (PT), marcado para 25/10/2026, mas os apontamentos do Coaf constituem elementos de inteligência financeira que ainda dependem de investigação, contraditório e eventual avaliação judicial.

Relatórios do Coaf entram no centro da investigação da PF

Segundo O Globo, os relatórios incorporados à apuração federal registram transações realizadas por Flávio Bolsonaro que teriam apresentado incompatibilidade com sua renda declarada ou conhecida. Entre os dados destacados está a movimentação de aproximadamente R$ 1,3 milhão em apenas três meses.

A íntegra desses relatórios não está disponível publicamente. Por isso, as informações conhecidas não permitem estabelecer, de forma independente, quais operações compõem integralmente o montante, qual foi exatamente o intervalo de três meses examinado, a natureza de cada crédito ou débito e quais justificativas fiscais ou contratuais foram apresentadas para as transações.

O Coaf informa oficialmente que um Relatório de Inteligência Financeira (RIF) é produzido quando sua análise identifica fundados indícios de lavagem de dinheiro ou de outros ilícitos e, nesses casos, o material é encaminhado às autoridades competentes. O próprio regime jurídico dos RIFs estabelece caráter sigiloso para os documentos. A produção de um relatório, portanto, justifica aprofundamento investigativo, mas não equivale, isoladamente, a uma condenação ou à comprovação definitiva da origem ilícita dos valores analisados.

Movimentação de R$ 1,3 milhão exige rastreamento da origem e do destino dos recursos

O principal elemento novo da reportagem é a indicação de que o Coaf classificou como incompatíveis com a renda movimentações financeiras atribuídas ao senador. O valor destacado, R$ 1,3 milhão em três meses, ganha relevância porque a análise de inteligência financeira considera o perfil econômico do titular, a origem declarada de seus rendimentos e o padrão das operações realizadas.

A expressão “incompatível com a renda”, entretanto, não significa automaticamente que o dinheiro seja ilícito. A investigação precisa identificar a origem de cada transferência, verificar se os recursos estavam declarados, confrontar os valores com rendimentos empresariais, advocatícios, parlamentares e financeiros e determinar quem enviou e quem recebeu os recursos.

O segundo ponto destacado por O Globo é a indicação de que um repasse relacionado a escritório de advocacia teria sido utilizado na quitação da mansão de Flávio Bolsonaro no Lago Sul, em Brasília. Esse elemento poderá permitir à PF confrontar diretamente a movimentação bancária com notas fiscais, contratos advocatícios, declarações tributárias e pagamentos destinados ao financiamento imobiliário.

Mansão de quase R$ 6 milhões foi financiada pelo BRB e quitada antecipadamente

Flávio Bolsonaro e a esposa adquiriram em 2021 uma casa de alto padrão no Setor de Mansões Dom Bosco, no Lago Sul. O imóvel foi negociado por aproximadamente R$ 5,97 milhões.

Do valor total, cerca de R$ 2,87 milhões correspondiam a recursos próprios e aproximadamente R$ 3,1 milhões foram financiados pelo Banco de Brasília (BRB), inicialmente em um contrato com prazo de 360 meses, ou 30 anos. A prestação inicial era de aproximadamente R$ 18,7 mil.

Apesar do prazo contratual de três décadas, o financiamento foi encerrado em cerca de três anos. Entre novembro de 2022 e março de 2024, Flávio realizou seis amortizações extraordinárias que, somadas, alcançaram aproximadamente R$ 3,4 milhões. Os pagamentos variaram de cerca de R$ 198 mil a R$ 997 mil.

A origem dos recursos utilizados nessas amortizações passou a ser objeto de questionamentos públicos. Flávio declarou anteriormente que sua capacidade financeira decorria das atividades de parlamentar, empresário e advogado.

Justiça considerou regular a concessão do financiamento

É necessário distinguir a investigação sobre a origem das quantias utilizadas na quitação da discussão judicial sobre as condições em que o BRB concedeu o financiamento.

Uma ação popular apresentada pela deputada federal Erika Kokay (PT-DF) questionou a operação. Em primeira instância, a Justiça do Distrito Federal concluiu que não havia sido demonstrada irregularidade na concessão do crédito nem lesão ao patrimônio público.

Depois de novos atos processuais, a 4ª Turma Cível do Tribunal de Justiça do Distrito Federal e dos Territórios (TJDFT) manteve, em 25/09/2025, a improcedência da ação popular, concluindo que a operação havia observado as normas internas do banco.

Essa decisão trata das condições do financiamento concedido pelo BRB. Ela não responde, por si só, às questões distintas levantadas agora pelos relatórios de inteligência financeira sobre a origem e a circulação de recursos posteriormente utilizados pelo senador.

Escritório de Flávio Bolsonaro emitiu R$ 13,7 milhões em notas fiscais

A atividade advocatícia tornou-se outro elemento relevante porque o escritório Flávio Bolsonaro Sociedade Individual de Advocacia foi constituído em 16/04/2021, poucos meses depois da aquisição da mansão, e tem como endereço registrado o próprio imóvel no Lago Sul.

Levantamento divulgado em outubro de 2026 apontou que a sociedade emitiu 62 notas fiscais, que somam aproximadamente R$ 13,7 milhões, entre janeiro de 2023 e julho de 2026. Em grande parte dos documentos, a descrição apresentada era de “assessoria jurídica”.

A apuração jornalística localizou apenas um processo judicial relacionado diretamente aos clientes identificados nas notas analisadas. Esse dado, isoladamente, não demonstra inexistência dos serviços, porque a advocacia também abrange consultoria, elaboração de pareceres, negociações e atividades extrajudiciais.

O ponto investigativamente relevante passa a ser outro: caso o Coaf tenha identificado uma transferência associada à atividade advocatícia imediatamente relacionada ao pagamento da dívida imobiliária, será necessário confrontar nota fiscal, contrato, serviço prestado, recebimento bancário, eventual transferência para a pessoa física e pagamento correspondente ao BRB.

Essa sequência documental poderá confirmar uma operação regular e compatível com serviços efetivamente prestados ou revelar inconsistências que demandem novas diligências.

Seis pagamentos extraordinários aceleraram a quitação do imóvel

A documentação já conhecida permite reconstruir com precisão as principais amortizações extraordinárias realizadas no financiamento.

Em 08/11/2022, foram pagos R$ 697.627,32. Em 21/11/2022, houve uma segunda amortização, de R$ 696.502,07. Dois meses depois, em 17/01/2023, Flávio pagou R$ 996.819,14.

Outras amortizações ocorreram em 04/08/2023, no valor de R$ 249.706,32, e em 20/09/2023, de R$ 198.621,32. Finalmente, em 21/03/2024, um pagamento de R$ 520.277,28 encerrou o financiamento.

O fato de a dívida ter sido quitada antecipadamente não constitui irregularidade. A questão que pode adquirir significado investigativo é a correspondência entre os pagamentos e as fontes de renda ou transferências identificadas pelo Coaf.

Investigação alcança relação de Flávio Bolsonaro com Willer Tomaz

Os relatórios agora divulgados estão inseridos em uma apuração mais ampla da PF sobre a relação de Flávio Bolsonaro com Willer Tomaz, advogado e empresário que mantém amizade reconhecida publicamente com o senador.

A investigação ganhou dimensão nacional depois que dados obtidos pela PF revelaram conexões envolvendo empresas do setor de apostas, viagens internacionais, estruturas empresariais no exterior e registros bancários.

Um dos elementos examinados pelos investigadores é uma conta relacionada à Alcazar Holdings, empresa ligada a Tomaz e registrada na Ilha da Madeira. Documentos bancários obtidos pela PF indicariam que Flávio aparecia cadastrado como “usuário master”, condição que poderia permitir elevado nível de acesso operacional ao ambiente bancário. Flávio e Tomaz negam que tenham compartilhado conta ou mantido sociedade financeira.

Em 22/05/2025, segundo documentos examinados pela investigação, foi solicitada ao banco a retirada do cadastro associado ao senador. A existência desse registro é considerada relevante pelos investigadores, mas, isoladamente, não comprova que Flávio tenha movimentado recursos da conta.

Viagens e negócios de apostas também estão sob análise

A PF identificou ainda viagens realizadas por Flávio e familiares em companhia de Willer Tomaz. Documentos analisados pelos investigadores indicam que empresas relacionadas ao advogado participaram do custeio ou contratação de alguns deslocamentos internacionais.

Tomaz sustenta que se tratava de viagens particulares entre famílias amigas e afirma que não houve contraprestação financeira ou política. Flávio também declarou anteriormente que sua relação com o advogado é pessoal e familiar.

Outra frente envolve empresas e movimentações relacionadas ao mercado de apostas. A Polícia Federal procura esclarecer a estrutura empresarial controlada ou relacionada a Tomaz e se existiu qualquer participação econômica de Flávio em negócios desse setor.

Até o momento, as informações públicas não demonstram que recursos desviados de aposentados no caso investigado pela Operação Sem Desconto tenham sido transferidos para Flávio Bolsonaro. A origem de parte das evidências em equipamentos apreendidos durante essa investigação não permite atribuir automaticamente ao senador participação nas fraudes previdenciárias.

Moraes amplia medidas contra Willer Tomaz

O contexto investigativo ganhou novo capítulo na sexta-feira (23/10/2026), quando o ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal, determinou medidas patrimoniais e financeiras contra Willer Tomaz.

Entre elas estão quebra de sigilos bancário, fiscal e cambial e bloqueio de bens e valores que pode alcançar R$ 6 bilhões, segundo informações divulgadas por veículos de imprensa. A ordem também determina que instituições financeiras forneçam dados sobre pessoas que tiveram autorização para operar contas de empresas vinculadas ao advogado.

Essas medidas alcançam Tomaz e estruturas sob investigação e não significam, por extensão automática, responsabilização de Flávio Bolsonaro.

A análise dos dados bancários poderá, porém, permitir que a PF estabeleça se existiram movimentações entre as empresas do advogado, o senador, seu escritório de advocacia ou outras pessoas e sociedades mencionadas no inquérito.

Flávio não respondeu aos novos apontamentos e já apresentou versões sobre patrimônio

Segundo a reportagem de O Globo que revelou os novos dados do Coaf, Flávio Bolsonaro não havia se manifestado especificamente sobre os relatórios até a publicação.

Em manifestações anteriores sobre a mansão, o senador afirmou que os recursos empregados eram provenientes de suas atividades como parlamentar, empresário e advogado e classificou o dinheiro utilizado na quitação como lícito. Ao anunciar a liquidação antecipada do financiamento em 2024, declarou que os recursos eram “lícitos e fruto do suor de meu trabalho”.

Na noite de sexta-feira (23/10/2026), durante o último debate presidencial antes do segundo turno, Flávio voltou a ser questionado sobre a aquisição da mansão. Ele respondeu que construiu seu patrimônio por meio de suas atividades como advogado, empresário e parlamentar.

A manifestação anterior não substitui uma resposta aos elementos específicos dos novos relatórios do Coaf. Para esclarecer os apontamentos, será necessário demonstrar documentalmente a origem dos valores, a correspondência com os rendimentos declarados e a natureza dos repasses identificados.

Divulgação ocorre na véspera do segundo turno presidencial

As novas informações surgem em momento de elevada relevância política. O segundo turno das eleições presidenciais será realizado neste domingo (25/10/2026), das 8h às 17h, pelo horário de Brasília.

No primeiro turno, Flávio Bolsonaro obteve 56.104.268 votos, equivalentes a 47,03% dos votos válidos, enquanto Lula recebeu 53.876.617 votos, ou 45,16%. Os números são oficiais do Tribunal Superior Eleitoral.

A proximidade entre divulgação e votação aumenta a repercussão pública e eleitoral do caso, mas não modifica os requisitos jurídicos necessários à investigação. A existência de uma campanha eleitoral não transforma indícios em provas, assim como não impede que fatos de interesse público sejam apurados quando surgem durante o processo eleitoral.

Linha do tempo dos principais acontecimentos

  • 2021 — Flávio Bolsonaro e a esposa adquirem mansão no Lago Sul por aproximadamente R$ 5,97 milhões, utilizando recursos próprios e financiamento de cerca de R$ 3,1 milhões concedido pelo BRB.
  • 16/04/2021 — É aberta a Flávio Bolsonaro Sociedade Individual de Advocacia, registrada no endereço da mansão.
  • 08/11/2022 — Flávio realiza amortização extraordinária de R$ 697.627,32 no financiamento.
  • 21/11/2022 — Nova amortização extraordinária, no valor de R$ 696.502,07.
  • 17/01/2023 — O senador paga R$ 996.819,14 para reduzir o saldo do financiamento.
  • 04/08/2023 — Outra amortização alcança R$ 249.706,32.
  • 20/09/2023 — Flávio realiza pagamento extraordinário de R$ 198.621,32.
  • 21/03/2024 — Pagamento de R$ 520.277,28 encerra antecipadamente o financiamento originalmente contratado por 30 anos.
  • 25/09/2025 — A 4ª Turma Cível do TJDFT mantém a improcedência da ação popular que questionava as condições do empréstimo e conclui que o financiamento observou as normas internas do BRB.
  • 2025 e 2026 — Dados obtidos em investigações da PF revelam viagens, registros empresariais, negócios relacionados a apostas e informações bancárias envolvendo Willer Tomaz e referências a Flávio Bolsonaro.
  • 16/10/2026 — Investigação da PF sobre suspeitas financeiras relacionadas a Flávio Bolsonaro e Willer Tomaz é encaminhada ao STF e distribuída ao ministro Alexandre de Moraes, segundo informações divulgadas posteriormente.
  • 20/10/2026 — Vem a público levantamento segundo o qual o escritório de Flávio emitiu R$ 13,7 milhões em 62 notas fiscais entre janeiro de 2023 e julho de 2026; no mesmo período, o senador pede acesso ao material investigativo relacionado a Tomaz.
  • 23/10/2026 — Alexandre de Moraes determina medidas financeiras e patrimoniais contra Willer Tomaz, incluindo quebra de sigilos e bloqueio que pode alcançar R$ 6 bilhões.
  • 24/10/2026 — O Globo divulga novos dados atribuídos a relatórios do Coaf, entre eles movimentação de R$ 1,3 milhão em três meses considerada incompatível com a renda e repasse relacionado a escritório de advocacia utilizado na quitação da mansão.
  • 25/10/2026 — Está previsto o segundo turno presidencial entre Flávio Bolsonaro e Lula, conforme calendário oficial do TSE.

A relevância dos novos relatórios não decorre apenas do volume de dinheiro identificado, mas da possibilidade de reconstrução documental do caminho percorrido pelos recursos. Para uma investigação de natureza financeira, a pergunta decisiva não é somente quanto foi movimentado, mas de onde veio o dinheiro, por que foi transferido, qual atividade econômica o justificava, quem recebeu os valores e como eles foram posteriormente utilizados. O RIF do Coaf fornece uma trilha investigativa; cabe à PF buscar elementos independentes capazes de confirmá-la ou afastá-la.

Há três planos que precisam permanecer separados. Entre os fatos documentados estão a aquisição da mansão, o financiamento do BRB, as seis amortizações extraordinárias, a atividade formal do escritório de advocacia e a existência da investigação sobre Willer Tomaz. Entre os elementos atribuídos aos novos relatórios do Coaf estão a incompatibilidade financeira, a movimentação de R$ 1,3 milhão em três meses e a ligação entre um repasse advocatício e a quitação do imóvel. Entre as questões ainda dependentes de comprovação estão a origem final desses recursos, a regularidade dos serviços que os teriam produzido e eventual relevância criminal das operações.

Também é indispensável não confundir a regularidade do contrato de financiamento com a origem dos recursos utilizados para pagá-lo. O TJDFT já concluiu, no âmbito da ação popular conhecida, que não foi demonstrada irregularidade na concessão do crédito pelo BRB. A nova frente investigativa possui objeto distinto: verificar a procedência e a compatibilidade das movimentações financeiras relacionadas ao senador e determinar se os valores empregados em determinadas operações encontram respaldo documental e fiscal.

O caso possui relevância pública porque envolve um senador da República que disputa a Presidência, movimentações financeiras relevantes, uma sociedade de advocacia, um imóvel de alto valor e uma investigação federal que alcança estruturas empresariais nacionais e internacionais. Os próximos passos caberão principalmente à Polícia Federal, responsável pelo rastreamento financeiro e pelas perícias; à Procuradoria-Geral da República, a quem compete avaliar eventual repercussão penal perante o Supremo; ao STF, responsável pelas medidas judiciais cabíveis; e às defesas de Flávio Bolsonaro e Willer Tomaz, que terão de confrontar documentalmente os indícios divulgados. Até que esse processo seja concluído, movimentações consideradas atípicas devem ser tratadas como objeto de investigação, e não como demonstração antecipada de responsabilidade criminal.

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