A assinatura de dom Zanoni Demettino Castro, arcebispo metropolitano de Feira de Santana, em uma carta de bispos católicos sobre o segundo turno das eleições presidenciais colocou a principal liderança da Igreja Católica na região entre os integrantes do episcopado que fazem oposição à candidatura do senador Flávio Bolsonaro (PL).
Dom Zanoni subscreveu a “Carta de Bispos Católicos ao Povo de Deus diante do Segundo Turno das Eleições Presidenciais de 2026”, divulgada na quinta-feira (22/10/2026). O texto não escreve os nomes de Flávio Bolsonaro ou do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), mas descreve as duas candidaturas de maneira suficientemente específica para identificá-las e afirma que uma delas ameaça pontos centrais da Doutrina Social da Igreja, a democracia, a soberania nacional e o bem comum.
A relevância para Feira de Santana decorre da posição ocupada por dom Zanoni. A própria Arquidiocese o identifica como arcebispo metropolitano, sucessor de dom Itamar Vian desde 2 de dezembro de 2015. Na estrutura católica local, portanto, não se trata de um sacerdote ou integrante isolado de uma pastoral, mas do bispo responsável pelo governo pastoral da Arquidiocese e principal referência episcopal da Igreja Católica em Feira de Santana.
Dom Zanoni coloca Feira de Santana no centro de manifestação nacional
A carta começou a circular com aproximadamente 35 assinaturas na noite de quinta-feira. Ao longo das horas seguintes, novas adesões foram incorporadas: eram 47 na madrugada desta sexta-feira, passaram de 50 durante a manhã e, em atualização consultada pelo Jornal Grande Bahia, já chegavam a 56 bispos e arcebispos de diferentes regiões brasileiras. O documento continua aberto a adesões, razão pela qual o número pode aumentar até a véspera da votação.
Na Bahia, dom Zanoni aparece ao lado de outros integrantes do episcopado, entre eles dom Vicente de Paula Ferreira, bispo de Livramento de Nossa Senhora, e dom Mauro Montagnoli, bispo emérito de Ilhéus. A assinatura do arcebispo de Feira, entretanto, possui particular significado para a região por sua condição de dirigente da Igreja particular sediada no segundo maior município baiano.
A manifestação foi articulada com participação do movimento Bispos do Diálogo pelo Reino. Os signatários afirmam estar em comunhão com a CNBB e dizem aplicar ao cenário eleitoral princípios do Evangelho e da Doutrina Social da Igreja (DSI). A carta convoca os católicos a votar no domingo (25) em defesa da democracia, dos valores humanitários, dos pobres e dos ensinamentos sociais da Igreja.
Carta faz oposição clara a Flávio
Embora formalmente evite mencionar Flávio Bolsonaro, a identificação é direta.
Os bispos descrevem a candidatura criticada como sendo a do filho de um ex-presidente, fazem referência ao governo de Jair Bolsonaro, citam posições do senador sobre jornada de trabalho, relações com os Estados Unidos, armas, meio ambiente e mudanças constitucionais e contrapõem esse projeto à candidatura do atual presidente.
O manifesto sustenta que uma das candidaturas “ameaça frontalmente” pontos centrais da Doutrina Social da Igreja e afirma que os religiosos não consideram moralmente adequado manter neutralidade diante do cenário que identificam.
A conclusão política é, portanto, inequívoca: dom Zanoni e os demais signatários se posicionam contra a eleição de Flávio Bolsonaro, ainda que tenham escolhido formular a manifestação sem escrever seu nome.
Doutrina Social da Igreja sustenta princípios usados pelos bispos
A pesquisa documental realizada pelo JGB confirma que os principais valores gerais invocados pela carta encontram respaldo efetivo no magistério social católico.
O Compêndio da Doutrina Social da Igreja, publicado pelo Vaticano, estabelece como princípios permanentes a dignidade da pessoa humana, o bem comum, a subsidiariedade e a solidariedade. O documento afirma que uma democracia autêntica depende do Estado de Direito, da participação dos cidadãos, do respeito aos direitos humanos e da adoção do bem comum como critério da vida política.
A Doutrina Social também dedica extensa atenção à dignidade do trabalho. O Compêndio estabelece que o trabalhador não pode ser reduzido a simples instrumento de produção e afirma que “o trabalho é para o homem”, e não o homem para o trabalho. A encíclica Magnifica Humanitas, publicada pelo papa Leão XIV em maio de 2026, reafirma que a Igreja historicamente protege os trabalhadores e combate formas de exploração.
Pobreza, ambiente e democracia também integram o magistério católico
A opção preferencial pelos pobres igualmente constitui elemento tradicional da doutrina católica. O Compêndio determina que deve existir particular preocupação com pobres, marginalizados e pessoas impedidas de alcançar desenvolvimento adequado, relacionando o enfrentamento da pobreza não somente à caridade individual, mas também à justiça social.
Na questão ambiental, a encíclica Laudato si’, de Francisco, estabeleceu a ideia de ecologia integral e vinculou a proteção da chamada Casa Comum à atenção às populações mais pobres. Leão XIV retomou esse entendimento em Magnifica Humanitas, relacionando o “clamor da terra” ao “clamor dos pobres”.
Também existe respaldo doutrinário para a defesa institucional da democracia. O Compêndio afirma que a Igreja vê favoravelmente sistemas democráticos que assegurem participação popular, controle sobre governantes, alternância pacífica no poder e limites jurídicos à autoridade estatal.
CNBB defende democracia, mas não pediu voto em Lula
Na mensagem institucional específica para o segundo turno, divulgada nesta semana, o Conselho Permanente da CNBB reiterou a defesa da Constituição, do Estado Democrático de Direito, do respeito ao resultado das urnas, do trabalho digno, da alimentação, moradia, saúde, educação, segurança, preservação ambiental e promoção da paz.
A entidade pediu ainda que o eleitor considere a trajetória dos candidatos e seus compromissos com a democracia e com as condições de vida da população. Não indicou, contudo, voto em Lula nem pediu formalmente a rejeição a Flávio Bolsonaro.
A carta assinada por dom Zanoni, portanto, avança além da formulação institucional da CNBB: transforma os princípios gerais apresentados pela conferência em um juízo concreto sobre as duas candidaturas presidenciais.
Dom Zanoni possui trajetória de atuação social e defesa do diálogo
A assinatura também encontra continuidade na trajetória pública do próprio arcebispo.
Perfil publicado pelo Jornal Grande Bahia em fevereiro de 2025 registrou a atuação de dom Zanoni em iniciativas de combate à pobreza, inclusão social, educação, diálogo inter-religioso e proteção das populações vulneráveis. O religioso também representou a CNBB no Fórum Inter-religioso do G20 Social, onde abordou fome, pobreza, desigualdade, dignidade humana e paz.
Em abril de 2026, durante o I Simpósio de Liberdade Religiosa em Feira de Santana, o arcebispo definiu a liberdade religiosa como direito humano fundamental. Em setembro, durante encontro nacional promovido por comissão da CNBB, voltou a defender o diálogo entre diferentes tradições cristãs e afirmou que convicções firmes não deveriam ser transformadas em “muros”.
Em outro artigo publicado pela própria Arquidiocese, dom Zanoni relacionou explicitamente a missão eclesial à superação de desigualdades, preconceitos, violência e exclusão, defendendo uma Igreja comprometida com dignidade humana e fraternidade.
A manifestação contra a candidatura identificada como a de Flávio Bolsonaro, portanto, não aparece desconectada das posições sociais que o arcebispo vem sustentando publicamente.
Escala 6×1 e armas
Os bispos afirmam que a candidatura criticada “sempre foi contra o fim da escala 6×1”. Flávio Bolsonaro realmente se opôs anteriormente à proposta e classificou sua votação durante a campanha como oportunista. Entretanto, mudou de posição em 13 de outubro e, em 14/10, votou favoravelmente no Senado à PEC que extingue a escala 6×1.
O manifesto afirma que o candidato pretende ampliar o acesso da população a armamentos. A checagem do plano de governo registrado por Flávio Bolsonaro, entretanto, mostra propostas de armamentos de última geração para forças policiais e de armas de guerra para o sistema de fronteiras, mas não contém proposta específica de ampliação do acesso da população civil às armas.
Isso não elimina o histórico de Flávio e do PL em defesa de políticas mais permissivas sobre armamento, mas impede que a formulação da carta seja reproduzida como descrição literal do programa presidencial sem a devida ressalva.
Relação com Estados Unidos
No campo internacional, existe documentação de que Flávio Bolsonaro defende aprofundar a cooperação com os Estados Unidos, inclusive no setor de terras raras e minerais críticos.
Em maio, depois de reunião com o presidente norte-americano Donald Trump, Flávio afirmou que, se eleito, pretende estabelecer uma “parceria estratégica de longo prazo” com os EUA nesse setor, com investimentos e reindustrialização compartilhada. Em março, também declarou que o Brasil poderia funcionar como alternativa à dependência norte-americana da China em minerais críticos.
Manifestação ocorre após conflitos entre Flávio e setores católicos
A assinatura de dom Zanoni ocorre ainda em um contexto de desgaste entre Flávio Bolsonaro, a CNBB e integrantes do episcopado.
Investigação documental publicada pelo Jornal Grande Bahia em 1º de outubro mostrou que a relação da família Bolsonaro com setores da Igreja Católica mistura aproximação religiosa e sucessivos conflitos institucionais desde 2018. Jair Bolsonaro chamou a CNBB de “parte podre da Igreja Católica”; Eduardo Bolsonaro falou em suposta infiltração da esquerda na instituição; e Flávio acusou pessoas “de dentro” da CNBB de participarem da circulação de informação falsa durante a campanha de 2026.
A mesma investigação do JGB comprovou, contudo, que era falsa a atribuição a Flávio Bolsonaro da intenção de retirar de Nossa Senhora Aparecida o título de Padroeira do Brasil. O projeto legislativo que efetivamente propôs mudança semelhante foi apresentado em 2007 pelo então deputado Professor Victório Galli e arquivado em 2008; Flávio não foi autor nem coautor.
Liderança religiosa de Feira assume posição de alcance nacional
A novidade desta sexta-feira, portanto, não é apenas a existência de uma carta nacional de bispos.
Para Feira de Santana, o fato central está na decisão de dom Zanoni Demettino Castro, líder da Igreja Católica na Arquidiocese, de colocar seu nome em uma manifestação que considera a candidatura de Flávio Bolsonaro incompatível, em pontos fundamentais, com valores sociais e institucionais defendidos pela tradição católica.
Ao fazê-lo, dom Zanoni se alinha a dezenas de integrantes do episcopado brasileiro e aplica ao processo eleitoral princípios que efetivamente fazem parte do magistério social da Igreja — democracia, bem comum, dignidade do trabalho, solidariedade, prioridade aos vulneráveis e cuidado ambiental.
O passo seguinte, porém, pertence ao campo do discernimento político: concluir que esses princípios levam necessariamente à rejeição de Flávio Bolsonaro é posição dos bispos signatários, não determinação universal da Igreja.
Essa fronteira entre doutrina permanente e julgamento político concreto é fundamental para compreender o alcance da manifestação.
Em Feira de Santana, entretanto, o significado público é evidente: às vésperas de uma eleição presidencial altamente polarizada, Dom Zanoni, principal dirigente católico da Arquidiocese decidiu não permanecer neutro diante da candidatura de Flávio Bolsonaro, optando pela reeleição do presidente Lula.








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