Inspirado por Milei, Flávio Bolsonaro pode levar Brasil a choque econômico semelhante ao argentino; pobreza voltou a subir e mais de 24 mil empregadores desapareceram dos registros

A aproximação programática entre a candidatura presidencial de Flávio Bolsonaro (PL) e a política econômica implementada pelo presidente argentino Javier Milei colocou a experiência da Argentina no centro do debate eleitoral brasileiro. Integrantes da equipe econômica do candidato já apresentaram explicitamente o governo libertário argentino como referência para medidas de redução do Estado, desregulamentação, revisão de despesas e revogação de normas. Paralelamente, assessores discutem um ajuste fiscal que poderia chegar a R$ 250 bilhões, equivalente a aproximadamente 2% do Produto Interno Bruto (PIB) brasileiro.

A comparação exige, entretanto, análise dos resultados concretos obtidos pela Argentina desde que Milei assumiu a Presidência, em 10 de dezembro de 2023. Até esta segunda-feira (12/10/2026), o economista libertário completa aproximadamente dois anos e dez meses de governo, período marcado por uma das experiências de ajuste fiscal, monetário e regulatório mais intensas da América Latina recente.

Os indicadores revelam uma trajetória dividida em duas fases. A primeira foi marcada por recessão, forte perda de renda e expansão da pobreza. A segunda apresentou desaceleração inflacionária, recuperação econômica e queda significativa da pobreza, embora dados de 2026 mostrem nova deterioração de alguns indicadores sociais, comerciais e de atividade. A experiência, portanto, não permite afirmar que um eventual governo Flávio Bolsonaro produziria automaticamente os mesmos resultados, mas fornece parâmetros para avaliar os riscos e custos sociais de uma estratégia semelhante.

Flávio Bolsonaro tem Milei como referência econômica

A relação entre a política econômica defendida pela candidatura de Flávio Bolsonaro e a experiência argentina deixou de ser apenas uma associação feita por adversários políticos.

Em 14/09/2026, a economista Daniella Marques, integrante da coordenação econômica da campanha de Flávio e ex-presidente da Caixa Econômica Federal, declarou que Javier Milei seria “um ótimo exemplo” e afirmou que a campanha pretende utilizar parte da experiência argentina na revisão das normas e da estrutura estatal brasileira.

Segundo Marques, Flávio orientou sua equipe a trabalhar na revogação de normas e medidas tributárias. A equipe já teria identificado mais de mil normas passíveis de revisão ou revogação. A coordenadora afirmou expressamente que a iniciativa utiliza como inspiração medidas implementadas pelo governo Milei.

Em outra frente, integrantes responsáveis pela elaboração econômica da candidatura discutem um programa de ajuste fiscal de aproximadamente R$ 250 bilhões.

Entre as possibilidades estudadas estão alterações nas regras de correção dos benefícios do INSS e do Benefício de Prestação Continuada (BPC) e mudanças nos atuais mecanismos constitucionais de financiamento da saúde e da educação.

A própria candidatura ressalva que essas formulações técnicas não constituem, até o momento, compromissos oficiais do programa eleitoral. Flávio também afirmou posteriormente que pretende garantir aumentos reais para aposentadorias e que o ajuste não deverá recair sobre a população mais vulnerável.

Milei assumiu Argentina em meio a inflação, déficit fiscal e crise cambial

Javier Milei tomou posse em 10/12/2023, depois de vencer a eleição presidencial prometendo reduzir drasticamente o tamanho do Estado argentino.

A agenda passou a incluir cortes de despesas públicas, redução de subsídios, interrupção ou revisão de obras públicas, diminuição do quadro estatal, desregulamentação econômica, privatizações e busca de superávit fiscal.

O programa respondeu a desequilíbrios acumulados durante governos anteriores. Milei recebeu um país submetido a inflação muito elevada, dificuldade de financiamento, controles cambiais, déficit fiscal e recorrentes crises monetárias.

Portanto, parte importante da crise econômica encontrada em 2024 não começou no governo Milei. A questão central para avaliar sua administração é identificar como a estratégia escolhida para enfrentar aqueles problemas distribuiu custos e benefícios entre os diferentes segmentos da sociedade.

Pobreza saltou para 52,9% após início do choque econômico

O indicador social mais expressivo do primeiro período do governo Milei foi a pobreza.

Segundo o Instituto Nacional de Estatística e Censos da Argentina (INDEC), no segundo semestre de 2023 — período que compreende apenas os primeiros dias do governo Milei — 41,7% da população dos 31 principais aglomerados urbanos encontrava-se abaixo da linha de pobreza.

No primeiro semestre de 2024, já sob os efeitos do ajuste econômico, o índice disparou para 52,9%.

A indigência alcançou 18,1% da população naquele período.

Isso significava que mais de metade da população urbana pesquisada pelo INDEC não possuía renda suficiente para alcançar a cesta utilizada pelo instituto para estabelecer a linha de pobreza.

O aumento entre os dois períodos foi de 11,2 pontos percentuais.

A deterioração coincidiu com a forte correção de preços relativos, desvalorização cambial, redução de subsídios e perda de poder aquisitivo ocorrida durante os primeiros meses do novo governo.

Pobreza caiu depois do pico, mas voltou a subir em 2026

A trajetória seguinte, entretanto, impede que se descreva corretamente a política de Milei afirmando apenas que a pobreza continuou crescendo durante todo o governo.

No segundo semestre de 2024, a pobreza caiu de 52,9% para 38,1%.

No primeiro semestre de 2025, recuou novamente para 31,6%.

No segundo semestre de 2025, atingiu 28,2%, índice inferior aos 41,7% registrados no segundo semestre de 2023, imediatamente antes da posse do libertário.

Os dados mais recentes revelam, entretanto, uma inversão parcial dessa tendência.

No primeiro semestre de 2026, a parcela da população argentina abaixo da linha de pobreza voltou a crescer para 32,3%.

A indigência atingiu 7,5%.

Em apenas um semestre, portanto, a pobreza avançou 4,1 pontos percentuais, passando de 28,2% para 32,3%.

Evolução da pobreza na Argentina

  • 2º semestre de 2023: 41,7% da população abaixo da linha de pobreza.
  • 1º semestre de 2024: 52,9%.
  • 2º semestre de 2024: 38,1%.
  • 1º semestre de 2025: 31,6%.
  • 2º semestre de 2025: 28,2%.
  • 1º semestre de 2026: 32,3%.

Os números mostram, portanto, três momentos distintos: forte expansão inicial da pobreza, redução entre o segundo semestre de 2024 e o final de 2025 e novo aumento durante 2026.

Economia argentina encolheu 1,3% em 2024

O impacto inicial do programa econômico também chegou ao PIB.

Segundo o INDEC, a economia argentina contraiu 1,3% em 2024.

O resultado refletiu a combinação entre ajuste fiscal, redução do consumo, retração do investimento e perda de atividade em diferentes setores da economia.

Em 2025 ocorreu movimento contrário.

O PIB cresceu 4,4%, recuperando parte das perdas anteriores.

Esse crescimento é um dos principais argumentos apresentados pelos defensores de Milei para sustentar que os custos iniciais do ajuste teriam produzido condições para estabilização posterior.

Os números de 2026, contudo, voltaram a demonstrar perda de dinamismo.

No segundo trimestre deste ano, o PIB ainda estava 2% acima do registrado no mesmo período de 2025, mas apresentou queda dessazonalizada de 0,6% em relação ao trimestre imediatamente anterior.

Atividade caiu 2,9% em julho de 2026

Indicadores mais recentes reforçaram os sinais de desaceleração.

Em julho de 2026, o Estimador Mensal de Atividade Econômica da Argentina registrou queda de 2,9% frente ao mês anterior, considerando a série dessazonalizada.

Na comparação com julho de 2025, a atividade econômica apresentou retração de 1,4%.

O resultado significa que, embora a Argentina tenha recuperado crescimento depois da recessão de 2024, a trajetória permanece sujeita a fortes oscilações.

O comportamento do consumo apresenta sinais semelhantes.

Comércio e consumo perderam força em 2026

Segundo o INDEC, as vendas dos supermercados argentinos, medidas a preços constantes, acumulavam queda de 2,7% entre janeiro e julho de 2026 na comparação com o mesmo período de 2025.

Nos autosserviços atacadistas, a retração acumulada no mesmo intervalo também foi de 2,7%.

Os centros comerciais acumulavam queda real de 2% entre janeiro e julho de 2026.

Esses indicadores são particularmente relevantes porque ajudam a medir o comportamento da demanda das famílias.

Quando o consumo permanece deprimido, pequenas e médias empresas voltadas ao mercado interno enfrentam maior dificuldade para compensar custos fixos, financiamento e queda nas vendas.

Argentina perdeu mais de 24 mil empregadores registrados, segundo levantamento

Outro indicador utilizado para avaliar os efeitos da política econômica argentina é a evolução dos empregadores registrados.

Dados da Superintendência de Riesgos del Trabajo (SRT) foram utilizados pelo Centro de Economía Política Argentina (CEPA) para acompanhar a quantidade de unidades produtivas que declaravam trabalhadores.

Em novembro de 2023 havia 512.357 empregadores registrados. Em fevereiro de 2025 eram 499.246, redução de 13.111 empregadores.

Em setembro de 2025, a perda acumulada alcançava 20.134 empregadores, segundo levantamento do CEPA baseado nos registros da SRT.

Levantamento posterior da instituição, com dados até fevereiro de 2026, calculou uma redução de 24.437 unidades produtivas desde o início da administração Milei.

Há, entretanto, uma ressalva metodológica fundamental.

A própria SRT adverte que a redução no número de empregadores registrados não pode ser interpretada automaticamente como quantidade exata de empresas que fecharam.

Baixas podem decorrer de encerramentos efetivos, mas também de reorganização empresarial, alteração de CUIT, mudanças nas relações trabalhistas e outras modificações cadastrais. A instituição informa ainda que aproximadamente 87% da redução observada entre dezembro de 2023 e dezembro de 2025 concentrou-se em empregadores com apenas um a cinco trabalhadores.

Portanto, o dado mais rigoroso é afirmar que mais de 24 mil empregadores ou unidades produtivas desapareceram da base considerada pelos levantamentos, e não necessariamente que cada baixa correspondeu individualmente à falência ou fechamento definitivo de uma empresa.

Pequenos empregadores concentram perdas

O perfil das empresas atingidas também merece atenção.

No levantamento do CEPA referente a setembro de 2025, 99,6% da redução de empregadores ocorreu entre unidades com até 500 trabalhadores.

O grupo perdeu 20.053 empregadores, enquanto organizações com mais de 501 trabalhadores responderam por apenas 81 casos da redução observada.

Entre novembro de 2023 e fevereiro de 2025, alguns dos setores com maior redução foram:

Transporte e armazenamento: menos 3.321 empregadores;

Comércio e reparação de veículos: menos 1.869;

Construção: menos 1.804;

Serviços profissionais, científicos e técnicos: menos 1.671.

Os dados indicam que o ajuste não atingiu exclusivamente a estrutura estatal. Parte da contração ocorreu entre pequenos e médios agentes econômicos ligados ao mercado interno.

Mercado de trabalho continua pressionado

No segundo trimestre de 2026, a taxa oficial de desemprego argentina atingiu 7,9%.

A taxa de atividade foi de 48,9%, enquanto a taxa de emprego ficou em 45%.

O levantamento do CEPA baseado na SRT identificou ainda perda de 280.984 postos de trabalho registrados em unidades produtivas entre novembro de 2023 e setembro de 2025.

Nesse universo, entretanto, a redução inclui trabalhadores vinculados ao setor público. A própria SRT alerta que aproximadamente 60% da redução de trabalhadores cobertos na série decorreu do setor público, razão pela qual a variação total não pode ser apresentada simplesmente como perda de empregos privados.

Indústria opera com capacidade abaixo de 60%

A indústria argentina também revela dificuldades.

Em julho de 2026, a utilização da capacidade instalada da indústria manufatureira ficou em 58,2%, ligeiramente abaixo dos 58,4% registrados em julho de 2025.

O indicador significa que pouco mais de quatro décimos da capacidade produtiva disponível permaneciam sem utilização naquele mês.

Em julho, a produção industrial havia registrado queda interanual de 5%. Em agosto ocorreu recuperação, com crescimento de 1,9% em relação ao mesmo mês de 2025, mostrando novamente um cenário heterogêneo e instável.

Principal êxito de Milei ocorreu no combate à inflação

Uma análise equilibrada precisa registrar também o principal resultado positivo produzido pelo programa libertário: a desaceleração da inflação.

A Argentina atravessava inflação extremamente elevada quando Milei chegou ao poder.

Com ajuste fiscal, controle monetário, redução inicial do consumo e reorganização da política cambial, os aumentos mensais de preços foram reduzidos substancialmente.

Em agosto de 2026, o índice de preços ao consumidor registrou alta mensal de 1,7%, nível muito inferior aos observados no início da administração.

A estabilização dos preços ajudou posteriormente na recomposição parcial da renda e explica parte da forte redução da pobreza observada entre o pico de 52,9%, no primeiro semestre de 2024, e os 28,2% do segundo semestre de 2025.

Esse resultado constitui uma diferença importante entre analisar o impacto inicial e avaliar todo o período de governo.

Brasil não é Argentina e reprodução automática do modelo seria improvável

Mesmo diante das declarações de integrantes da campanha de Flávio Bolsonaro, não é tecnicamente correto concluir que a adoção de algumas ideias inspiradas em Milei produziria necessariamente no Brasil os mesmos resultados observados na Argentina.

As estruturas econômicas são diferentes.

O Brasil possui mercado interno maior, sistema financeiro mais profundo, moeda menos sujeita historicamente à dolarização, instituições fiscais diferentes, estrutura federativa mais descentralizada e mecanismos constitucionais específicos para financiamento da Previdência, saúde, educação e assistência social.

Além disso, alterações profundas nos pisos constitucionais ou nas regras previdenciárias dependeriam de aprovação do Congresso Nacional, inclusive por maioria qualificada quando exigida emenda constitucional.

A experiência argentina funciona, portanto, como referência dos possíveis efeitos de um ajuste rápido e concentrado, e não como previsão automática do futuro brasileiro.

Ajuste de R$ 250 bilhões amplia importância da comparação

A discussão adquire maior relevância porque a magnitude das medidas estudadas na equipe de Flávio Bolsonaro é elevada.

Um ajuste próximo de R$ 250 bilhões, equivalente a aproximadamente 2% do PIB, dificilmente poderia ser produzido exclusivamente pela redução de cargos comissionados, combate a fraudes ou extinção de ministérios.

Por essa razão, técnicos vinculados à formulação econômica discutiram alternativas envolvendo grandes despesas obrigatórias, segundo reportagem publicada durante a campanha.

A candidatura afirma, porém, que não existe decisão oficial de reduzir benefícios previdenciários nem de retirar recursos de saúde e educação, e Flávio declarou que manterá reajustes reais nas aposentadorias.

Essa distinção deve permanecer explícita: existem medidas estudadas por integrantes da equipe e existem compromissos formalmente assumidos pelo candidato.

Confundir as duas categorias transformaria hipótese em programa oficial.

Experiência argentina evidencia custo de ajustes concentrados

A principal conclusão da experiência de Milei não está em afirmar que todo ajuste fiscal é negativo nem que a Argentina permanece exclusivamente em recessão.

Os dados demonstram algo mais amplo.

O governo conseguiu reduzir substancialmente a inflação, atingir resultados fiscais mais favoráveis e promover recuperação do PIB em 2025.

Mas o caminho incluiu contração de 1,3% da economia em 2024, pobreza atingindo 52,9% no primeiro semestre daquele ano, forte redução inicial do consumo, retração de empregadores registrados e perda de postos formais.

Em 2026 surgiram novos sinais de alerta: pobreza novamente em 32,3%, desemprego de 7,9%, atividade econômica mensal em queda e vendas reais do varejo enfraquecidas.

A questão brasileira, portanto, não é simplesmente escolher entre responsabilidade fiscal e política social.

É definir onde será realizado o ajuste, quem absorverá seus custos, em qual velocidade ele ocorrerá e como preservar atividade produtiva, emprego e serviços públicos durante a transição.

Eleitor brasileiro precisa conhecer alcance da inspiração argentina

Ao apresentar Milei como referência, integrantes da candidatura de Flávio Bolsonaro transformaram a experiência argentina em elemento legítimo do debate eleitoral brasileiro.

O eleitor tem direito de conhecer não apenas a redução da inflação e a recuperação do PIB registrada em parte do período, mas também os custos enfrentados no processo.

A Argentina oferece um laboratório recente: ajuste fiscal acelerado, queda inicial do produto, explosão temporária da pobreza, redução de empregadores, recuperação posterior da atividade e da renda e novas dificuldades observadas em 2026.

Para o Brasil, a questão central será determinar se uma eventual política inspirada nessa experiência buscaria reproduzir apenas instrumentos de desregulamentação e eficiência estatal ou também promover um choque fiscal de dimensão capaz de alcançar Previdência, assistência, saúde e educação.

Enquanto a candidatura não detalhar a composição dos cortes pretendidos, afirmar que o Brasil inevitavelmente se transformaria em uma nova Argentina seria uma extrapolação.

Os indicadores disponíveis permitem, entretanto, uma conclusão objetiva: a experiência argentina demonstra que programas de estabilização baseados em ajuste fiscal abrupto podem produzir elevados custos sociais e produtivos no curto prazo, mesmo quando conseguem posteriormente reduzir a inflação e recuperar parte do crescimento econômico.

A dimensão desses custos — e quem os suportaria — passa a integrar o debate brasileiro diante da inspiração declarada da equipe econômica de Flávio Bolsonaro no governo Javier Milei.


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