PF pede mais 90 dias no caso Dark Horse e aponta divergência entre US$ 12,33 milhões enviados aos EUA e US$ 2,8 milhões documentados no Brasil

Divulgado na sexta-feira (16/10/2026), o pedido da Polícia Federal (PF) ao Supremo Tribunal Federal (STF) para ampliar em 90 dias o prazo do inquérito sobre o financiamento de Dark Horse, cinebiografia sobre o ex-presidente Jair Bolsonaro, revela que o ponto central da investigação deixou de ser apenas a existência dos aportes e passou a ser a reconstrução do caminho percorrido pelo dinheiro. A PF já identificou US$ 12,33 milhões remetidos ao fundo norte-americano Havengate Development Fund LP, relacionados a recursos atribuídos ao ex-banqueiro Daniel Vorcaro, enquanto documentos apresentados pela produtora brasileira registrariam o ingresso de US$ 2,8 milhões no país. O órgão classificou o descompasso como uma “divergência contábil severa” e afirma precisar concluir perícias, examinar dados telemáticos e obter registros financeiros por cooperação jurídica com os Estados Unidos.

O procedimento, sob relatoria do ministro André Mendonça, também alcança o senador e candidato à Presidência Flávio Bolsonaro (PL-RJ), cuja participação nas tratativas para obtenção de recursos junto a Vorcaro está documentada em mensagens e áudios reunidos pela investigação. Flávio reconhece que buscou financiamento para o projeto, sustenta que se tratava de investimento privado e nega contrapartidas ou irregularidades. A investigação, por sua vez, ainda precisa determinar a origem integral dos recursos, sua destinação final e a eventual participação individual de cada investigado em condutas que possam configurar crimes.

PF diz que perícias e dados dos Estados Unidos ainda são indispensáveis

Segundo a PF, permanecem pendentes uma perícia contábil-financeira do Instituto Nacional de Criminalística, a análise de dados telemáticos e o resultado do pedido de cooperação jurídica internacional destinado à obtenção de registros de entidades financeiras no exterior. A corporação também aguarda diligências complementares determinadas durante o inquérito.

Os investigadores já receberam respostas da Agência Nacional do Cinema (Ancine), do Hospital Indianópolis, em São Paulo, utilizado como uma das primeiras locações das filmagens, e da Go Up Entertainment, produtora responsável pelo longa. O objetivo é confrontar contratos, pagamentos, prestação de serviços e movimentações cambiais com as remessas identificadas pela investigação.

De acordo com a Agência Brasil, o delegado responsável pela apuração, Anderson Rodrigo Andrade de Lima, justificou a extensão do prazo pela necessidade de concluir os exames técnicos e esperar a tramitação da cooperação com os Estados Unidos para acessar registros financeiros das entidades que teriam recebido os valores.

US$ 12,33 milhões saíram do Brasil, mas documentos da produtora registram US$ 2,8 milhões

Um dos elementos de maior relevância desta fase da apuração é o contraste entre o dinheiro remetido ao exterior e os valores cuja entrada no Brasil aparece documentada nos papéis analisados.

Segundo documentos enviados ao STF e divulgados pelo Metrópoles, a Entre Investimentos e Participações, pertencente ao empresário Antônio Carlos Freixo Júnior, conhecido como Mineiro, remeteu US$ 12,33 milhões ao Havengate Development Fund LP, no Texas, em operações realizadas em 2025 por determinação atribuída a Daniel Vorcaro.

Os contratos apresentados pela Go Up brasileira, porém, comprovariam o ingresso no país de aproximadamente US$ 2,8 milhões. É esse contraste que a PF descreve como uma “divergência contábil severa” e pretende examinar mediante perícia forense.

A diferença não permite concluir, por si só, que recursos tenham sido desviados. Parte das despesas pode ter ocorrido diretamente no exterior — hipótese apresentada pela produtora — e, justamente por isso, os investigadores precisam obter extratos, contratos, notas, faturas e registros bancários capazes de demonstrar a efetiva destinação do dinheiro.

A Go Up apresentou um laudo privado segundo o qual R$ 54,2 milhões teriam sido gastos diretamente fora do Brasil. Esse documento constitui elemento apresentado pela produção e ainda precisa ser confrontado com registros financeiros independentes.

Comunicação ao Coaf acrescentou nova operação sob análise

Outra movimentação financeira também passou pelo escrutínio das autoridades. O Braza Bank comunicou ao Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf) uma operação envolvendo R$ 975,6 mil recebidos pela Go Up Entertainment Ltda., no Brasil, da Go Up Entertainment LLC, sediada nos Estados Unidos.

Segundo a documentação divulgada, a produtora brasileira apresentou contrato de empréstimo no valor de US$ 920 mil, com prazo de 730 dias, possibilidade de prorrogação e sem previsão de juros ou multas. A existência da comunicação ao Coaf não demonstra ilegalidade; significa que a operação reuniu características que levaram a instituição financeira a reportá-la para análise, dentro dos mecanismos de prevenção à lavagem de dinheiro.

O desafio investigativo é verificar como essa operação se relaciona, ou não, com o fluxo maior dos recursos que passaram pelo Havengate.

Delação de Mineiro tornou-se ponto central da nova etapa

A colaboração premiada de Antônio Carlos Freixo Júnior ganhou peso adicional no pedido de prorrogação. O acordo foi homologado por André Mendonça em 09/09/2026, e Freixo prestou novo depoimento à PF em 01/10/2026.

Mineiro declarou que recebeu de Fabiano Zettel, cunhado de Vorcaro, posteriormente confirmada pelo próprio ex-banqueiro, a determinação para enviar US$ 12,3 milhões ao exterior. Segundo sua versão, a operação lhe teria sido apresentada como investimento em empreendimentos imobiliários nos Estados Unidos, especialmente no Texas e na Flórida.

Ele afirmou não ter sido informado de que o dinheiro se destinaria à produção de Dark Horse, disse não ter mantido contato com integrantes da família Bolsonaro na operação e declarou que tentou obter o resgate integral dos valores depois de conhecer, pela imprensa, a ligação do Havengate com o filme. Segundo o colaborador, não houve resposta dos gestores do fundo.

A PF, entretanto, encontrou elementos que considera contraditórios em relação a essa narrativa.

Carta sobre o filme e depósito de R$ 12 milhões entram no confronto com a delação

Entre os documentos reunidos pelos investigadores está uma carta-acordo dirigida à Entre Investimentos que estabeleceria compromisso de aporte de US$ 24 milhões e faria referência à produção cinematográfica. A existência do documento precisa ser confrontada com a afirmação de Freixo de que desconhecia a destinação dos recursos ao filme.

Outro ponto envolve a fonte do dinheiro utilizado no primeiro envio ao exterior. Mineiro declarou que os aportes teriam sido financiados por saques de conta garantida no Banco Master, venda de ativos e recursos próprios.

A análise preliminar da PF, contudo, mostrou que, na véspera da primeira remessa, a conta da Entre recebeu R$ 12 milhões da empresa Super Empreendimentos. Para os investigadores, esse registro exige esclarecimento sobre a origem efetiva daquela parcela.

A polícia também apontou ausência de documentos relativos a parte das remessas e afirmou que os papéis analisados não permitem identificar todas as contas bancárias de origem dos valores movimentados pela Go Up, limitando-se, em alguns casos, aos montantes ingressados, beneficiários e características das operações cambiais.

Essas inconsistências não invalidam automaticamente a colaboração premiada. A delação é um meio de obtenção de prova e suas informações precisam ser corroboradas por documentação, perícias e outros elementos independentes.

Financiamento projetado chegava a US$ 24 milhões

Documentos localizados no celular de Daniel Vorcaro apontam que o projeto cinematográfico, originalmente denominado “Capitão do Povo”, previa financiamento de até US$ 24 milhões, aproximadamente R$ 134 milhões nas referências cambiais utilizadas quando o caso veio a público.

A PF identificou até agora cerca de US$ 12,33 milhões efetivamente enviados ao Havengate, aproximadamente metade do montante previsto na estrutura contratual.

As remessas ocorreram por meio da Entre Investimentos e foram destinadas ao fundo norte-americano administrado por Paulo Calixto, advogado relacionado profissionalmente ao ex-deputado Eduardo Bolsonaro. O Havengate havia sido criado para um empreendimento imobiliário no Texas e, segundo registros analisados pela investigação, permaneceu praticamente sem atividade operacional por anos antes de começar a receber os aportes relacionados ao projeto cinematográfico.

O primeiro repasse identificado ocorreu em 13/02/2025. Uma transferência adicional de aproximadamente US$ 1,67 milhão, realizada em 16/09/2025, elevou para cerca de US$ 12,3 milhões o volume conhecido.

Flávio Bolsonaro participou das tratativas e nega irregularidades

A atuação de Flávio Bolsonaro nas negociações passou a integrar formalmente a investigação depois que mensagens, áudios e documentos revelaram contatos diretos do senador com Vorcaro.

O parlamentar reconheceu que buscou recursos para viabilizar a produção sobre o pai. Sua versão é de que o investimento era privado, destinado exclusivamente ao filme e não envolvia qualquer benefício, favor ou contrapartida ao então controlador do Banco Master.

A representação da PF que deu origem ao procedimento descreve Flávio como interlocutor direto em tratativas sobre os aportes, com cobranças de parcelas, reuniões e acompanhamento do andamento da produção. Com anuência da Procuradoria-Geral da República (PGR), André Mendonça autorizou a investigação em 22/07/2026. O procedimento foi posteriormente reautuado no STF como Inquérito 5.070, protocolado em 06/08/2026.

A página pública do Supremo identifica o Inq 5.070, número único 0181367-57.2026.1.00.0000, como inquérito criminal sob relatoria de André Mendonça. Entre as estruturas registradas no procedimento aparecem a Entre Investimentos, Antônio Carlos Freixo Júnior e o Havengate Development Fund.

A condição de investigado não representa culpa ou responsabilidade penal estabelecida. Para eventual acusação, será necessário demonstrar de forma individualizada conhecimento, participação e elemento subjetivo relacionado às possíveis infrações investigadas.

Liquidante do Master diz não ter encontrado patrocínio registrado pelo banco

Outro documento divulgado em 16/10/2026 acrescentou uma distinção relevante sobre a origem institucional dos recursos.

Em resposta enviada à Câmara dos Deputados, o liquidante do Banco Master, Eduardo Bianchini, informou que não encontrou nos acervos das instituições liquidadas registros contábeis ou contratuais que comprovassem financiamento, patrocínio ou aporte institucional do banco para Dark Horse.

O dado não demonstra que Vorcaro não tenha destinado recursos ao projeto por outras estruturas empresariais ou privadas. Significa apenas que, segundo a documentação consultada pelo liquidante, não foi localizado um patrocínio contabilizado diretamente pelas instituições financeiras que passaram pelo processo de liquidação.

Esse ponto deverá ser compatibilizado com a versão de Flávio Bolsonaro de que houve investimento privado e com os registros que mostram recursos movimentados pela Entre Investimentos em direção ao Havengate.

PF avalia eventual fatiamento da investigação

Antes mesmo do pedido de prorrogação, investigadores já avaliavam a possibilidade de dividir o caso em núcleos para concluir primeiro a parte considerada tecnicamente mais avançada.

A frente relativa a Daniel Vorcaro concentra o rastreamento das remessas e suspeitas de possíveis infrações cambiais. A análise da eventual responsabilidade de Flávio Bolsonaro depende de elementos adicionais capazes de demonstrar sua relação jurídica com a movimentação financeira e seu eventual conhecimento sobre a origem e o destino efetivo do dinheiro.

O eventual desmembramento não significaria arquivamento em relação ao senador. Representaria uma divisão processual entre núcleos cuja maturidade probatória é diferente.

O pedido brasileiro de cooperação internacional é especialmente relevante porque somente registros obtidos nos Estados Unidos poderão ajudar a reconstruir integralmente a sequência Brasil → Havengate → empresas ou prestadores → despesas efetivas do filme → eventuais outros beneficiários.

Investigação de André Mendonça é distinta da Operação Make Up

O financiamento relacionado a Vorcaro não deve ser confundido com outra investigação vinculada ao mesmo filme.

Em 10/09/2026, a PF e a Controladoria-Geral da União deflagraram a Operação Make Up, autorizada pelo ministro Flávio Dino, cumprindo 49 mandados de busca e apreensão. Essa frente investiga suspeitas envolvendo recursos públicos provenientes de emendas parlamentares destinadas a entidades relacionadas à empresária Karina Ferreira da Gama, ligada à Go Up Entertainment.

Entre os alvos estava o deputado federal Mário Frias (PL-SP). A investigação examina, entre outros pontos, a suspeita de que R$ 750 mil provenientes de recursos públicos possam ter alcançado a estrutura empresarial relacionada à produtora.

São procedimentos com objetos jurídicos diferentes. O inquérito relatado por Mendonça trata principalmente dos recursos associados a Vorcaro, das remessas internacionais e da atuação dos personagens envolvidos nessa operação. A frente de Dino examina o eventual desvio de recursos de emendas.

Caso avança em meio ao segundo turno presidencial

A prorrogação foi solicitada durante o segundo turno das Eleições 2026, disputado por Flávio Bolsonaro e pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva, circunstância que amplia a repercussão política da investigação.

A proximidade da votação, entretanto, não altera o padrão probatório necessário para qualquer conclusão criminal. A eventual responsabilização dependerá de elementos documentais e periciais e das decisões posteriores da PGR e do STF.

A dimensão eleitoral torna especialmente necessária a distinção entre informações comprovadas, hipóteses da investigação e versões das partes. A existência de mensagens, remessas e contratos está documentada; a eventual utilização ilícita dos recursos e a responsabilidade criminal individual ainda dependem da conclusão das diligências.

Linha do tempo dos principais acontecimentos

  • 08/12/2024 — Registros posteriormente reunidos pela investigação apontam articulações para uma reunião entre Flávio Bolsonaro e Daniel Vorcaro sobre o financiamento do projeto cinematográfico.
  • 18/12/2024 — Documento denominado “Acordo de Financiamento de Produção ‘Capitão do Povo’” é encaminhado a Vorcaro. O projeto previa investimento de até US$ 24 milhões.
  • 13/02/2025 — O Havengate recebe o primeiro repasse identificado pela PF como relacionado ao financiamento de Dark Horse.
  • Fevereiro a setembro de 2025 — A investigação identifica sete remessas que totalizam aproximadamente US$ 12,33 milhões destinadas ao Havengate.
  • 16/09/2025 — Uma transferência adicional de aproximadamente US$ 1,67 milhão eleva para cerca de US$ 12,3 milhões o total conhecido das remessas.
  • 13/05/2026 — Reportagens tornam públicas mensagens, áudios e documentos relativos à negociação de recursos entre Flávio Bolsonaro e Daniel Vorcaro.
  • 22/07/2026 — André Mendonça, com anuência da PGR, autoriza investigação em apartado sobre as hipóteses criminais apontadas pela PF.
  • 06/08/2026 — O procedimento é registrado no STF como Inquérito 5.070.
  • 09/09/2026 — Mendonça homologa a colaboração premiada de Antônio Carlos Freixo Júnior, o Mineiro.
  • 10/09/2026 — PF e CGU cumprem 49 mandados na Operação Make Up, investigação distinta sobre possíveis desvios de recursos públicos relacionados a estruturas próximas à produção do filme.
  • 01/10/2026 — Mineiro presta depoimento à PF e afirma que acreditava estar destinando recursos a empreendimentos imobiliários nos Estados Unidos e que desconhecia a finalidade cinematográfica das remessas.
  • 09/10/2026 — Investigadores informam o encaminhamento de pedido de cooperação jurídica aos Estados Unidos para obtenção de dados financeiros necessários ao rastreamento do dinheiro.
  • 10/10/2026 — Expira o prazo então vigente para a tramitação da investigação, segundo informações reunidas no pedido da PF.
  • 15/10/2026 — Segundo a Folha de S.Paulo, a Polícia Federal encaminha ao STF o pedido de mais 90 dias para novas diligências.
  • 16/10/2026 — O pedido torna-se público; documentos também revelam a chamada “divergência contábil severa” entre os US$ 12,33 milhões remetidos ao Havengate e os US$ 2,8 milhões cuja entrada no Brasil consta dos documentos apresentados pela produtora.

O pedido de prorrogação demonstra que o núcleo mais importante da investigação passou a ser essencialmente documental e financeiro. Já existem registros de remessas internacionais, contratos, mensagens entre personagens envolvidos e uma colaboração premiada. O que ainda falta é estabelecer uma correspondência verificável entre origem, saída do Brasil, entrada no Havengate, transferências subsequentes e despesas efetivamente realizadas na produção. Sem essa cadeia completa, o volume de dinheiro identificado não permite definir sozinho sua destinação final.

A chamada divergência contábil entre US$ 12,33 milhões enviados ao fundo e US$ 2,8 milhões documentados como ingressos no Brasil é relevante, mas não equivale à comprovação automática de desvio. A produtora sustenta que parcela substancial dos gastos ocorreu diretamente nos Estados Unidos. A questão que a perícia deverá resolver é se essas despesas têm suporte em contratos, documentos fiscais, extratos e serviços efetivamente prestados e se correspondem aos valores remetidos ao Havengate.

Há também uma distinção jurídica indispensável entre participação nas negociações e responsabilidade criminal. Está documentado que Flávio Bolsonaro buscou recursos e manteve interlocução sobre pagamentos do projeto. Ainda depende de prova, contudo, se o senador participou ou tinha conhecimento de alguma operação financeira irregular, caso ela seja comprovada. Da mesma forma, as inconsistências identificadas na colaboração de Mineiro precisam ser confrontadas com registros independentes antes de qualquer conclusão sobre sua narrativa.

O núcleo factual de interesse público permanece definido: uma estrutura contratual projetou US$ 24 milhões para financiar Dark Horse; aproximadamente US$ 12,33 milhões foram rastreados em remessas a um fundo nos Estados Unidos; documentos apresentados pela produtora demonstram valor significativamente menor ingressando no Brasil; e a PF ainda precisa esclarecer o destino do restante, a origem integral dos aportes e a conduta individual dos envolvidos. Caberá à Polícia Federal concluir as perícias e o rastreamento internacional, à PGR avaliar a suficiência jurídica das provas e ao STF, sob a condução processual competente, decidir sobre a prorrogação, eventual desmembramento e demais medidas decorrentes da investigação.


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