A escolha de Jorge Messias para o Supremo Tribunal Federal desencadeou, nesta segunda-feira (24/11/2025), um entrelaçamento de crises envolvendo Senado, Câmara dos Deputados e Governo Lula 3, ampliando tensões que já vinham se acumulando nas últimas semanas. A reação imediata de Davi Alcolumbre, marcada por ironia e por um recado institucional duro, somou-se ao rompimento declarado entre o presidente da Câmara, Hugo Motta, e o líder do PT, Lindbergh Farias, agravando a percepção de descontrole político e de falhas persistentes na articulação do governo Lula junto ao Congresso Nacional.
O início do conflito
A crise começa com o gesto público de Jorge Messias, que decidiu divulgar uma nota elogiando o “relevante papel” de Alcolumbre no Senado, em uma tentativa de reduzir resistências à sua indicação. O movimento foi interpretado como inoportuno, improvisado e sinal de fragilidade. A resposta de Alcolumbre, enviada a aliados, foi carregada de ironia: Messias teria “começado bem” ao se dirigir a ele “pela imprensa”, e não pessoalmente.
A irritação escalou quando, horas depois, Alcolumbre publicou uma nota oficial afirmando que a indicação ao STF seria analisada “no momento oportuno”, reforçando a prerrogativa do Senado e omitindo o nome de Messias como gesto simbólico de distanciamento. A nota enfatizou que cada Poder exerce suas atribuições e que o ritmo da sabatina não seria ditado pelo Planalto.
Esse comportamento, que inicialmente soava como mera formalidade, rapidamente adquiriu caráter estratégico: Alcolumbre deslocou o eixo da crise para o campo institucional, reforçando sua autoridade como presidente do Senado e abrindo uma nova frente de pressão sobre o governo.
A raiz da ruptura: a frustração com Lula e o veto a Rodrigo Pacheco
No centro da insatisfação está a decisão de Lula de não indicar Rodrigo Pacheco ao STF — nome defendido por Alcolumbre, por integrantes da cúpula do Senado e por ministros influentes da Suprema Corte, como Gilmar Mendes e Alexandre de Moraes.
A informação de que o presidente tentara convencer Pacheco a disputar o governo de Minas, recomendando que encerrasse sua carreira política, aprofundou o conflito. Na leitura de Alcolumbre, Lula teria ignorado acordos implícitos e subestimado o peso político do Senado dentro da engenhagem de governabilidade.
A reação do senador expôs o esgarçamento da relação:
“Vou mostrar ao governo o que é não ter o presidente do Senado como aliado.”
O episódio reforçou um ponto sensível: Alcolumbre percebeu que a decisão presidencial não foi apenas uma escolha técnica ou estratégica, mas uma ruptura com entendimentos prévios que vinham sustentando a estabilidade da base no Senado.
A retaliação legislativa: a pauta-bomba e o uso do poder regimental
Após a indicação de Messias, Alcolumbre deu sinais inequívocos de que atuaria para reequilibrar forças. Entre suas ações imediatas estavam:
- Desengavetamento de projetos que ampliam gastos públicos, contrariando a equipe econômica.
- Pautas que pressionam o governo, como a aposentadoria especial de agentes comunitários de saúde — com impacto acima de R$ 20 bilhões.
- Apreciação de mais de 50 vetos presidenciais em matéria ambiental e fiscal.
- Aumento da demora para remeter a indicação de Messias à CCJ.
A capacidade de Alcolumbre de paralisar, retardar ou acelerar processos legislativos tornou-se arma explícita. Em 2021, ele segurou por quase cinco meses a sabatina de André Mendonça, indicado por Jair Bolsonaro — um precedente que pesa diretamente sobre o futuro de Messias.
A articulação religiosa e o cálculo eleitoral de Lula
Paralelamente, análises indicam que a indicação de Messias faz parte de uma estratégia mais ampla de Lula para fortalecer laços com o eleitorado evangélico. Como diácono da Igreja Batista, Messias cumpre papel simbólico relevante num momento em que o Planalto tenta furar o bloqueio conservador no Congresso e nas bases populares.
O Estadão descreve o movimento como uma “guerra santa” destinada a ampliar o diálogo do presidente com a direita religiosa — esforço que se intensificou após o tarifaço de Trump e o desgaste internacional com o STF.
Em eventos reservados, Lula tem reforçado alianças com figuras centrais:
- O bispo Samuel Ferreira, da Assembleia de Deus, liderança com milhões de fiéis.
- O papa Leão XIV, em recente audiência no Vaticano.
- Parlamentares evangélicos alinhados ao governo.
A estratégia, contudo, enfrenta críticas internas por não incluir mulheres, negros ou representantes de minorias — setores que haviam sido centrais na narrativa simbólica da posse presidencial.
O enfraquecimento da articulação política e as críticas do STF
Além da cisão no Senado, ministros do STF manifestaram diretamente a Lula descontentamento com a articulação política do governo — especialmente no Senado, onde Jaques Wagner, Randolfe Rodrigues e Gleisi Hoffmann foram citados nominalmente por falhas no diálogo institucional.
O diagnóstico dos magistrados é que a fragilidade dessa articulação fortalece a figura de Alcolumbre como “resolvedor de problemas”, ampliando seu poder de barganha e dificultando a construção de consensos no momento em que o governo mais precisa da Casa.
Crise paralela na Câmara: a ruptura entre Hugo Motta e Lindbergh Farias
Simultaneamente ao conflito no Senado, o governo enfrenta um abalo significativo na Câmara. O presidente da Casa, Hugo Motta, declarou rompimento com o líder do PT, Lindbergh Farias, acusando-o de desgaste público da imagem institucional e de comportamento incompatível com a função.
Lindbergh respondeu com dureza, classificando a reação como “imatura” e atribuindo a crise às escolhas políticas do próprio Motta.
A ruptura ocorre num momento em que:
- a relação Planalto–Câmara está fragilizada;
- o governo foi derrotado na tramitação do projeto antifacção;
- houve queixas sobre execução orçamentária e acordos descumpridos;
- o clima entre ministros e deputados se deteriora.
A crise na Câmara potencializa a instabilidade causada pela guerra aberta no Senado.
A contabilidade no Senado: Messias teria hoje apenas 31 votos
Segundo levantamento citado pelo Estadão, a avaliação interna de Alcolumbre indica que Messias não teria mais do que 31 votos caso fosse votado hoje — muito abaixo dos 41 votos necessários para aprovação.
Mesmo aliados do governo reconhecem que a votação tende a ser apertada, com teto estimado em 46 votos — patamar que exige articulação precisa, firme e contínua.
Messias aposta em:
- aproximação com o Centrão;
- apoio de evangélicos influentes, como André Mendonça e Eliziane Gama;
- construção de uma narrativa de diálogo institucional.
Fragmentação do Congresso ameaça governabilidade
A atual crise evidencia um quadro de fragmentação política que coloca em xeque a capacidade do governo Lula de controlar a agenda legislativa. A simultaneidade das tensões — Senado em guerra aberta, Câmara em desgaste público — cria um ambiente imprevisível e potencialmente explosivo.
A estratégia religiosa pode render ganhos simbólicos, mas é insuficiente para compensar a deterioração das relações com atores centrais do Legislativo. O risco de uma derrota política na indicação ao STF — algo raríssimo na história recente — não é mais considerado implausível.
A instabilidade revela ainda:
- uma articulação política descoordenada;
- erros de cálculo na escolha de interlocutores;
- vulnerabilidade do governo a movimentos táticos de líderes independentes;
- fragilidade institucional diante de interesses cruzados e disputas por espaço.
O Congresso se consolidou como arena de disputa, e não de cooperação. A vitória de Messias dependerá menos de afinidades ideológicas e muito mais da capacidade do governo de recompor pontes com líderes feridos ou contrariados.








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