Reportagens publicadas ao longo das três semanas de janeiro de 2026 por O GLOBO, Folha de S.Paulo, Estado de S.Paulo e Metrópoles ampliaram o escopo do chamado Caso Banco Master, ao revelar uma rede de relações empresariais, familiares e logísticas que conecta o ministro do Supremo Tribunal Federal Dias Toffoli ao Resort Tayayá, no interior do Paraná. O episódio ocorre no contexto da liquidação extrajudicial do Banco Master, decretada pelo Banco Central do Brasil em novembro de 2025, e da Operação Compliance Zero, conduzida pela Polícia Federal, que apura fraudes financeiras, uso irregular de fundos de investimento e possíveis conflitos de interesse envolvendo gestores, empresários e agentes públicos.
Contexto do Caso Banco Master e a atuação no STF
A crise teve início com a intervenção do Banco Central no Banco Master, instituição controlada por Daniel Vorcaro, após a identificação de inconsistências patrimoniais, operações estruturadas sem lastro suficiente e indícios de governança deficiente. A partir da liquidação, investigações administrativas e criminais avançaram sobre uma complexa teia de fundos e empresas ligadas ao grupo.
O processo chegou ao Supremo Tribunal Federal, sob relatoria de Dias Toffoli, o que desde o início gerou questionamentos internos e externos quanto à concentração da apuração na Corte, em detrimento da primeira instância. Parlamentares da oposição chegaram a protocolar pedido de afastamento do ministro da relatoria, alegando risco de comprometimento da imparcialidade.
Na quinta-feira anterior, o procurador-geral da República Paulo Gonet decidiu arquivar o pedido, garantindo a permanência temporária de Toffoli no caso. A decisão foi interpretada, nos bastidores do Judiciário, como um alívio institucional momentâneo, sem afastar o desgaste político e reputacional acumulado.
O Resort Tayayá e as conexões empresariais reveladas
O Resort Tayayá, localizado em Ribeirão Claro (PR), emergiu como ponto sensível da investigação após reportagens revelarem que irmãos de Dias Toffoli foram sócios do empreendimento até 2021. À época, parte da participação foi adquirida por um fundo de investimento ligado ao pastor e empresário Fabiano Zettel, cunhado de Daniel Vorcaro.
A operação envolveu valores estimados em R$ 6,6 milhões, segundo auditorias e documentos obtidos pelos veículos de imprensa. A gestora responsável pelos fundos, a Reag, também passou a ser investigada no âmbito da Operação Compliance Zero e acabou liquidada pelo Banco Central.
Relatórios internos indicaram, ainda, ausência de laudo técnico de avaliação de “valor justo” do resort no momento da transação, o que acendeu alertas de compliance ignorados à época.
Uso de recursos públicos e deslocamentos de seguranças
Outro eixo de desgaste envolve o uso de servidores públicos para a segurança do ministro em viagens à região do resort. Dados do Tribunal Regional do Trabalho da 2ª Região (TRT-2) apontam que, entre 2022 e 2025, seguranças vinculados ao STF permaneceram 128 dias em Ribeirão Claro, com custo aproximado de R$ 460 mil em diárias.
A maior parte dessas estadias ocorreu durante recessos do Judiciário, fins de semana prolongados e feriados como Carnaval e Corpus Christi. O TRT-2 confirma os deslocamentos, mas não divulga oficialmente o nome do ministro atendido em cada ocasião, embora as coincidências temporais tenham sido amplamente documentadas.
Sete dessas viagens teriam ocorrido após a venda formal do resort, em fevereiro de 2025, a Paulo Humberto Barbosa, executivo ligado à JBS, o que ampliou as dúvidas sobre a natureza institucional das missões de segurança.
Jatinhos, voos privados e encontros no resort
Reportagens adicionais revelaram que uma aeronave privada pertencente ao empresário Luiz Osvaldo Pastore foi utilizada por Dias Toffoli em diferentes ocasiões, incluindo a viagem para a final da Libertadores de 2025, em Lima. Registros de voo mostram que o mesmo jato esteve em datas coincidentes na região próxima ao Resort Tayayá.
Em um dos episódios, Toffoli dividiu o voo com advogados e empresários ligados direta ou indiretamente às investigações do Banco Master. Em vídeo divulgado pelo portal Metrópoles, o ministro aparece recebendo no resort Luiz Pastore e o banqueiro André Esteves, figura central do sistema financeiro nacional.
Toffoli afirmou publicamente que não houve custeio irregular de despesas e classificou Pastore como “amigo pessoal”, negando conflito de interesses.
Reações no Supremo e defesa institucional
Diante do avanço das revelações, o presidente do STF, Edson Fachin, divulgou nota enfatizando a autonomia do Banco Central, a regularidade institucional do Supremo e a necessidade de distinguir críticas legítimas de ataques à democracia.
O ministro Gilmar Mendes também manifestou apoio à decisão de arquivamento do pedido de afastamento de Toffoli, defendendo o “funcionamento regular das instituições”. Nos bastidores, porém, relatos apontam incômodo crescente entre ministros com o impacto reputacional do caso.
Entre governança judicial e crise de credibilidade
O Caso Banco Master deixou de ser apenas uma investigação financeira para se tornar um teste de governança do Judiciário brasileiro. A concentração do processo no STF, somada às conexões indiretas envolvendo familiares, fundos e uso de estruturas públicas, expôs fragilidades institucionais difíceis de ignorar.
Embora não haja, até o momento, imputação formal de crime ao ministro, a sucessão de revelações cria um ambiente de desconfiança que tensiona a credibilidade da Corte. A insistência em manter o caso no Supremo é vista por parte da comunidade jurídica como juridicamente defensável, porém politicamente onerosa.
*Com informações dos jornais O Globo, Folha de S.Paulo e Estadão, Revista Veja, site Metrópoles e Agência Brasil.











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