Caso Banco Master: CVM aponta “alinhamento perverso” em superavaliação de ativos e investigações revelam suspeitas de fraudes financeiras

Investigações conduzidas por autoridades regulatórias e policiais sobre o Banco Master, instituição financeira ligada ao empresário Daniel Vorcaro, revelam um conjunto complexo de suspeitas envolvendo superavaliação de ativos, negociação de créditos inexistentes, possível fraude na compra de precatórios e operações financeiras suspeitas com remessas internacionais.

Durante audiência ocorrida na terça-feira (24/02/2026) no Senado, o presidente interino da Comissão de Valores Mobiliários (CVM), João Accioly, afirmou que o caso apresenta uma “peculiaridade” marcada por um “alinhamento perverso” entre gestores e investidores, indicando que o banco teria atuado não como vítima de fraude, mas como agente ativo na valorização artificial de ativos financeiros. Paralelamente, investigações apontam indícios de créditos falsos negociados com o Banco de Brasília (BRB) e uma operação controversa envolvendo um precatório bilionário do Grupo João Santos, cujos recursos teriam sido enviados ao exterior.

CVM aponta atuação ativa do banco na superavaliação de ativos

Declarações no Senado

Durante audiência no Congresso Nacional, o presidente interino da CVM afirmou que o Banco Master teria incentivado a superavaliação de ativos em fundos de investimento nos quais participava.

Segundo Accioly, o caso difere de fraudes tradicionais do mercado financeiro porque, em vez de ser enganada por terceiros, a instituição teria atuado diretamente na promoção de ativos inflados.

“Não se trata de gestores convencendo o banco de que um ativo vale determinado valor. Ao que tudo indica, o banco foi promotor ativo desses superdimensionamentos”, declarou.

Na avaliação do dirigente da CVM, a dinâmica observada revela uma relação atípica entre investidores e gestores, que teria permitido a manutenção de uma espécie de “ficção contábil” em determinados fundos de investimento.

Debate sobre responsabilidades regulatórias

Durante a mesma audiência, senadores criticaram a atuação da CVM no caso. O líder do MDB no Senado, Eduardo Braga (AM), afirmou que a autarquia poderia ter agido com maior rapidez diante de indícios de irregularidades.

Ele citou outros episódios recentes do mercado financeiro e argumentou que a autoridade regulatória teria sido omissa na identificação e denúncia de irregularidades.

Accioly rejeitou a acusação e afirmou que diversas medidas investigativas foram adotadas, embora muitas delas não tenham sido divulgadas publicamente. Segundo ele, algumas limitações decorrem do desenho institucional do sistema regulatório brasileiro, que distribui competências entre diferentes órgãos.

O dirigente ressaltou que a regulação da distribuição de CDBs e outros títulos bancários é responsabilidade do Banco Central, não da CVM.

Centenas de processos internos

Accioly afirmou que a CVM já abriu mais de 200 processos internos relacionados ao caso Banco Master, alguns iniciados ainda em 2022.

Entre os temas investigados estão:

  • possíveis manipulações de mercado
  • condutas de gestores de fundos
  • operações envolvendo a gestora Reag
  • negociações entre o Banco Master e o BRB

Segundo o dirigente, 24 processos tratam especificamente das negociações entre o BRB e o Master.

Apesar disso, ele reconheceu dificuldades estruturais no avanço das investigações.

“Há falta de recursos humanos para que os processos avancem mais rapidamente”, afirmou.

Accioly acrescentou que servidores da autarquia trabalham acima da capacidade operacional, defendendo investimentos em tecnologia e reforço de pessoal.

Investigação aponta venda irregular de precatório bilionário

Origem do crédito judicial

Uma das frentes mais relevantes das investigações envolve a aquisição de um precatório bilionário pelo Banco Master, originalmente pertencente ao Grupo João Santos, conglomerado industrial do setor sucroalcooleiro.

O crédito judicial tem origem em uma condenação da União relacionada à política de preços do Instituto do Açúcar e do Álcool (IAA) entre 1989 e 1994, que teria causado prejuízos às usinas.

Em 2012, a Justiça reconheceu o direito à indenização. O valor inicial estimado era de R$ 983 milhões, mas, com atualizações monetárias, o crédito passou a ser estimado em cerca de R$ 2,2 bilhões.

Uma das empresas beneficiadas pela decisão judicial foi a Companhia Agro Industrial de Goiana (Caig), proprietária da Usina Santa Tereza, em Pernambuco.

Venda do ativo ao Banco Master

Entre 2019 e 2020, o então controlador do Grupo João Santos, Fernando Santos, negociou a venda do precatório ao Banco Master, que na época operava sob a marca Banco Máxima.

A operação ocorreu por meio de diversos fundos de investimento, entre eles:

  • Amazonita
  • Luna
  • Noruega
  • Atenas
  • Dublin
  • Horizon

Documentos apresentados à Justiça indicam que o Banco Master era cotista majoritário em alguns desses fundos.

O conglomerado pernambucano recebeu aproximadamente R$ 180 milhões pela venda do crédito, valor significativamente inferior ao montante potencial do precatório.

A atual gestão do grupo afirma que a operação teria causado prejuízo estimado em R$ 1,8 bilhão à empresa.

Remessas de recursos para o exterior

Relatórios encaminhados à Polícia Federal e à Justiça apontam que parte do dinheiro obtido com a venda do precatório foi transferida para o exterior.

Entre 2019 e 2022, cerca de R$ 32 milhões teriam sido enviados para três empresas na Suíça:

  • Agricultural
  • Cement & Land
  • Sugar & Land

Outros R$ 75 milhões teriam sido transferidos para contas de Gustavo Elijah Figueiredo Góes, genro de Fernando Santos, e para empresas ligadas à família.

A atual gestão do Grupo João Santos pediu à Justiça a nulidade da operação, argumentando que o ativo foi vendido por valor inferior ao seu potencial econômico, comprometendo a recuperação judicial do conglomerado.

Créditos inexistentes vendidos ao BRB

Esquema com empresa intermediária

Outra frente de investigação envolve créditos bancários que teriam sido vendidos ao Banco de Brasília (BRB).

Segundo investigações policiais e depoimentos de autoridades monetárias, parte desses créditos não existia.

Os ativos teriam sido originados pela empresa Tirreno, instituição financeira ligada ao Banco Master.

Entre janeiro e maio de 2025, a Tirreno teria cedido cerca de R$ 6,7 bilhões em créditos ao Banco Master.

Posteriormente, esses créditos foram repassados ao BRB por cerca de R$ 12,2 bilhões, operação que embutiria um prêmio estimado em R$ 5,5 bilhões.

Investigadores apontam que a Tirreno teria funcionado como empresa de fachada para simular ativos financeiros inexistentes.

Suspeita de lavagem de dinheiro

Um ex-funcionário do Banco Master e dirigente da Tirreno também passou a ser investigado por suspeita de lavagem de dinheiro envolvendo plataformas ilegais de apostas online, conhecidas popularmente como “bets” ou “tigrinho”.

A investigação, que tramita sob sigilo, apura movimentações financeiras realizadas por meio de intermediadoras de pagamento.

Segundo a polícia, a estrutura utilizava mecanismos como “contas-bolsão”, que permitem o recebimento de recursos de múltiplas origens sem identificação direta dos beneficiários.

Autoridades afirmam que essas operações dificultam o rastreamento do fluxo financeiro.

Defesa dos envolvidos

A defesa do empresário Daniel Vorcaro, proprietário do Banco Master, afirma que não existe decisão definitiva que comprove irregularidades.

Em nota, os advogados destacaram que as investigações ainda estão em curso e que conclusões antecipadas seriam incompatíveis com o devido processo legal.

A defesa afirma que seguirá exercendo o direito ao contraditório e à ampla defesa, sustentando que uma análise técnica completa dos fatos deverá esclarecer as circunstâncias das operações investigadas.

Impacto institucional e riscos ao sistema financeiro

O caso Banco Master revela uma das investigações mais complexas recentes do sistema financeiro brasileiro, envolvendo múltiplas frentes regulatórias, judiciais e policiais.

A atuação simultânea de diferentes órgãos — CVM, Banco Central, Polícia Federal e Justiça Federal — evidencia as dificuldades de supervisão em um sistema financeiro altamente interconectado, no qual operações podem circular entre bancos, fundos de investimento e empresas intermediárias.

Outro ponto relevante é o debate sobre lacunas regulatórias. As declarações do presidente interino da CVM indicam que parte das operações investigadas ocorreu em zonas cinzentas da regulação financeira, nas quais a competência de fiscalização é dividida entre diferentes instituições.

Caso as suspeitas sejam confirmadas, o episódio pode gerar mudanças regulatórias significativas, especialmente em áreas como transparência de fundos de investimento, supervisão de operações estruturadas e rastreabilidade de ativos financeiros.

*Com informações do jornal O Globo, Folha de S.Paulo, Estadão, Poder360, Metrópoles, CNN, Revista Veja e Agência Brasil.


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