Investigações sobre Banco Master apontam suposto esquema de repasses a políticos envolvendo ex-CEO Augusto Lima

Nesta terça-feira (17/03/2026), novas informações surgiram no âmbito das investigações que apuram a atuação do Banco Master e suas conexões com agentes políticos. Relatos reunidos por investigadores indicam que Augusto Lima, ex-presidente executivo da instituição, teria operado um esquema de financiamento ilegal de políticos, com repasses realizados por meio de malas de dinheiro distribuídas na sede do banco em São Paulo ou por meio de empresas ligadas a intermediários.

Segundo informações obtidas no curso das apurações, parte dos recursos teria sido direcionada a empresas que teriam políticos como sócios ocultos, mecanismo frequentemente utilizado em esquemas de corrupção para ocultar a origem dos valores e os beneficiários finais. A Polícia Federal também identificou um possível fluxo financeiro envolvendo uma empresa atualmente registrada em nome da esposa de um secretário de Estado, que possui vínculos familiares com um influente dirigente do Partido dos Trabalhadores (PT).

Natural da Bahia, Augusto Lima construiu parte de sua trajetória empresarial a partir de conexões políticas no estado, o que, segundo investigadores, pode ter facilitado a expansão de negócios do banco em diferentes áreas da administração pública.

Quebras de sigilo revelam movimentações milionárias

Dados obtidos a partir da quebra de sigilo do banqueiro Daniel Vorcaro, ligado ao Banco Master, ajudam a dimensionar o volume de recursos movimentados na chamada “operação baiana” da instituição financeira.

Registros indicam que, em 19 de junho de 2023, Vorcaro recebeu cerca de R$ 3 milhões do empresário baiano Miguel Luiz Rosário Lorenzo. Pouco menos de um mês depois, em 14 de julho de 2023, uma empresa ligada ao mesmo empresário — MCR Patrimonial Ltda. — realizou nova transferência, desta vez no valor de R$ 30,6 milhões, também destinada ao banqueiro.

De acordo com informações apuradas no curso da investigação, Daniel Vorcaro teria atribuído essas transações a negócios conduzidos por Augusto Lima, embora a natureza exata dessas operações ainda esteja sob análise das autoridades.

Em nota encaminhada à imprensa, a MCR Patrimonial Ltda. e o empresário Miguel Luiz Rosário Lorenzo afirmaram que os valores mencionados correspondem exclusivamente à compra de um imóvel realizada em 2023, em operação que classificam como regular e devidamente documentada. A empresa declarou ainda não ser alvo de investigação e informou que não recebeu notificações de autoridades sobre o tema.

Relatórios do Coaf indicam transferências a empresa ligada a ACM Neto

Informações provenientes do Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf) também indicam movimentações financeiras envolvendo empresas ligadas a figuras políticas.

Segundo relatórios de inteligência financeira, uma empresa vinculada ao ex-prefeito de Salvador, ACM Neto (União Brasil) teria recebido cerca de R$ 3,6 milhões provenientes do Banco Master e da instituição financeira Reag.

O ex-prefeito afirmou que os valores correspondem a serviços de consultoria prestados ao banco, sustentando que as operações ocorreram dentro da legalidade e foram formalmente registradas.

Essas movimentações financeiras passaram a integrar o conjunto de dados analisados pelos investigadores, que buscam compreender a extensão das relações comerciais e políticas envolvendo o Banco Master e seus executivos.

Prisão de Augusto Lima e desdobramentos da Operação Compliance Zero

Augusto Lima, também conhecido como “Guga Lima”, foi preso durante a primeira fase da Operação Compliance Zero, conduzida pela Polícia Federal.

O empresário permaneceu detido por 11 dias, entre 18 e 29 de novembro de 2025, sendo posteriormente libertado por decisão do Tribunal Regional Federal da 1ª Região (TRF-1). Apesar da soltura, ele segue monitorado por tornozeleira eletrônica enquanto as investigações prosseguem.

Além de ter comandado o Banco Master, Lima também é controlador do Banco Pleno, instituição cuja liquidação extrajudicial foi decretada pelo Banco Central em fevereiro, ampliando as suspeitas sobre a gestão financeira do grupo.

No âmbito pessoal, o empresário é casado com Flávia Péres, que ocupou cargo ministerial durante o governo do ex-presidente Jair Bolsonaro.

Relações políticas na Bahia e contratos com o poder público

Parte das investigações também analisa a expansão dos negócios de Augusto Lima na Bahia, especialmente a partir de contratos firmados com o poder público.

Durante a gestão do então governador Rui Costa, atual ministro da Casa Civil do governo federal, Lima venceu uma licitação para operar o CredCesta, um cartão de pagamento voltado a servidores públicos estaduais com desconto direto em folha.

Esse produto financeiro foi considerado estratégico para o crescimento do Banco Master, pois ampliou sua presença no mercado de crédito consignado, segmento tradicionalmente associado a contratos com administrações públicas.

Investigadores avaliam que a operação do CredCesta contribuiu para fortalecer as relações de Lima com setores políticos na Bahia, especialmente no período em que o banco consolidava sua atuação no estado.

Empréstimos consignados e investigação no Congresso

Outro eixo das apurações envolve a atuação do Banco Master no mercado de empréstimos consignados, setor que também passou a ser examinado pela Comissão Parlamentar Mista de Inquérito (CPMI) do INSS.

Augusto Lima chegou a ser convocado para prestar depoimento à comissão, mas acabou dispensado da obrigação após decisão do ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal, que acolheu pedido da defesa.

Mesmo com a dispensa do depoimento, as operações de crédito vinculadas ao banco continuam sob análise de parlamentares e autoridades, que investigam possíveis irregularidades envolvendo contratos e intermediações financeiras.

*Com informações do jornal O Globo, Folha de S.Paulo, Estadão, Poder360, Metrópoles, CNN, Revista Veja e Agências Brasil, Reuters, RFI, Sputnik e BBC Brasil.


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