A repercussão nacional do início das obras da Ponte Salvador–Ilha de Itaparica ampliou, nesta segunda-feira (20/07/2026), a projeção de um dos maiores projetos de infraestrutura em execução no Brasil e reacendeu a disputa política entre o governo do Estado e a oposição baiana. Veículos como Veja, Folha de S.Paulo, Exame, Agência Brasil e O Tempo abordaram a dimensão econômica, a participação de empresas chinesas, os desafios de engenharia e as controvérsias acumuladas pelo empreendimento, enquanto a deputada federal Lídice da Mata (PSB-BA) afirmou que o reconhecimento nacional contrasta com o que classificou como uma postura de “torcida contra” de adversários do governador Jerônimo Rodrigues (PT), especialmente do ex-prefeito de Salvador e pré-candidato ao governo ACM Neto (União Brasil).
A reportagem publicada pela revista Veja na quarta-feira (15/07) apresentou a Ponte Salvador–Itaparica como a futura maior ponte sobre o mar da América Latina. O veículo destacou a extensão de 12,4 quilômetros, a participação de grupos empresariais chineses e a execução do empreendimento por meio de uma parceria público-privada com o Governo da Bahia.
A revista informou um investimento arredondado em R$ 11 bilhões. Os dados oficiais mais recentes, entretanto, estimam o custo total do Sistema Rodoviário Ponte Salvador–Ilha de Itaparica em R$ 11,6 bilhões, divididos entre R$ 3 bilhões de aporte federal, R$ 3,1 bilhões do Governo da Bahia e R$ 5,5 bilhões da concessionária responsável pela implantação e operação da estrutura.
A cobertura da Veja também ressaltou que a ponte terá quatro faixas de tráfego e um trecho estaiado com vão livre de 85 metros de altura, projetado para preservar a passagem de embarcações de grande porte pela Baía de Todos-os-Santos. Depois da construção, a concessionária ficará responsável pela operação e manutenção do sistema durante 29 anos, com cobrança de pedágio.
Folha aborda pendências técnicas e complexidade da engenharia
A Folha de S.Paulo publicou duas reportagens sobre o empreendimento em julho. A primeira acompanhou o ato realizado em 1º de julho de 2026, em Vera Cruz, com a presença do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, de Jerônimo Rodrigues e de representantes da concessionária. A segunda, publicada em 12 de julho, concentrou-se nos desafios técnicos, no cronograma e nas etapas ainda sujeitas a revisão.
Segundo a apuração do jornal, a primeira parte do projeto executivo, relacionada às fundações, ainda estava em fase final de análise e aprovação quando ocorreu a cerimônia de início oficial. A concessionária avançava simultaneamente na instalação dos canteiros e na montagem de estruturas de apoio logístico, enquanto os projetos seriam entregues e examinados por etapas.
As investigações geológicas identificaram profundidades de até 60 metros na Baía de Todos-os-Santos, além de camadas alternadas de sedimentos e rochas. Em determinados pontos, as fundações poderão atingir aproximadamente 120 metros de profundidade, condição que levou à revisão de parte dos cálculos estruturais. A complexidade do solo marinho coloca a engenharia, o licenciamento, o controle dos custos e o cumprimento do cronograma entre os principais pontos de acompanhamento da obra.
Exame registra dimensão econômica e disputa eleitoral
A revista Exame noticiou, em 2 de julho, a participação do presidente Lula no início oficial dos trabalhos e apresentou o empreendimento como um dos maiores projetos de infraestrutura atualmente em implantação no Brasil. A publicação destacou a integração da ponte ao Novo Programa de Aceleração do Crescimento — Novo PAC e a participação dos grupos chineses China Communications Construction Company — CCCC e China Civil Engineering Construction Corporation — CCECC.
Em nova reportagem, publicada em 8 de julho, a revista abordou a transformação da ponte em um dos principais temas da disputa política baiana. A matéria registrou críticas de ACM Neto aos sucessivos adiamentos e às promessas feitas desde o início da elaboração do projeto, bem como as respostas do governo estadual e de seus aliados.
ACM Neto classificou o empreendimento como a “grande mentira” da política baiana e argumentou que os governos petistas anunciaram a ponte durante quase duas décadas sem iniciar efetivamente a construção. As críticas se apoiam no intervalo transcorrido entre a formulação inicial do projeto, o leilão realizado em 2019, a assinatura do contrato em 2020, a repactuação concluída em 2025 e a cerimônia de início oficial em julho de 2026.
Agência Brasil destaca mobilidade e alerta sobre especulação imobiliária
A Agência Brasil também acompanhou a cerimônia realizada em Vera Cruz e destacou que a estrutura será a maior da América Latina considerando o comprimento construído sobre a lâmina d’água. A comparação leva em conta que a Ponte Rio–Niterói possui cerca de 13,2 quilômetros de extensão total, mas aproximadamente 8,3 quilômetros sobre o mar.
Durante o evento, o presidente Lula defendeu a implantação da ligação rodoviária, mas alertou para o risco de especulação imobiliária na Ilha de Itaparica. O crescimento do valor dos terrenos, a expansão urbana e a chegada de novos empreendimentos privados deverão exigir planejamento territorial, regularização fundiária, proteção ambiental e políticas que impeçam o deslocamento de comunidades tradicionais e famílias de menor renda.
O tema também foi repercutido por O Tempo, que publicou reportagem da Folhapress sobre as pendências do projeto executivo, as fundações profundas e a previsão de conclusão em junho de 2031. O portal Terra, por sua vez, destacou a participação chinesa no financiamento e na engenharia da obra.
Obra alcança repercussão internacional
A dimensão internacional do empreendimento foi reforçada pela agência chinesa Xinhua, que noticiou o início oficial da construção em 2 de julho. A publicação apresentou a ponte como um dos maiores projetos de infraestrutura em andamento no Brasil e destacou a atuação de empresas chinesas na execução.
O jornal espanhol AS também abordou o projeto em 18 de julho, enfatizando seus 12,4 quilômetros, a expectativa de redução do tempo de deslocamento entre Salvador e o litoral sul da Bahia e a estimativa oficial de atendimento a cerca de 10 milhões de pessoas em aproximadamente 250 municípios.
A repercussão externa acrescenta uma dimensão geoeconômica ao projeto. Além de integrar regiões da Bahia, a ponte passa a ser apresentada como exemplo da presença de empresas chinesas em grandes projetos de infraestrutura latino-americanos e da ampliação das relações econômicas entre Brasil e China.
Lídice da Mata contrapõe repercussão às críticas da oposição
Diante da cobertura nacional, Lídice da Mata afirmou que a exposição alcançada pela obra contrasta com a postura adotada por setores da oposição baiana. Segundo a deputada federal, adversários políticos passaram anos desacreditando o empreendimento e, mesmo após o início oficial dos trabalhos, continuariam concentrados em desqualificar o projeto.
“A Bahia não precisa de quem torça contra. Precisa de quem trabalhe para gerar emprego, reduzir distâncias, atrair investimentos e criar oportunidades. Quando uma obra dessa magnitude passa a ser destaque nacional, fica evidente que ela representa muito mais do que concreto e aço: representa desenvolvimento”, afirmou.
A parlamentar também direcionou críticas a ACM Neto. De acordo com Lídice, a atuação política do ex-prefeito de Salvador tem sido marcada por ataques ao governador Jerônimo Rodrigues e às ações estaduais, sem a apresentação de alternativas equivalentes para a infraestrutura e o desenvolvimento regional.
“É um discurso que se resume à crítica permanente, sem oferecer caminhos concretos para enfrentar os desafios da Bahia”, declarou.
A posição da deputada integra o discurso dos partidos que apoiam o governo estadual. Para esse grupo, o início da construção representa a passagem de um projeto longamente debatido para uma fase material, com canteiros, equipamentos, trabalhadores e intervenções em terra.
A oposição, por sua vez, sustenta que o ato realizado em julho não elimina a necessidade de fiscalização. Os adversários do governo apontam o histórico de atrasos, o aumento do custo, as alterações contratuais, as pendências no projeto executivo e a distância entre a cerimônia oficial e a execução completa das estruturas marítimas.
Sistema rodoviário terá 46,8 quilômetros
A ponte constitui apenas um dos trechos do sistema rodoviário. O projeto completo terá aproximadamente 46,8 quilômetros e inclui 4,4 quilômetros de acessos, viadutos e túneis em Salvador, a travessia marítima de 12,4 quilômetros, uma via expressa de 22 quilômetros na Ilha de Itaparica e a recuperação e duplicação de oito quilômetros da BA-001, entre Tairu e a Ponte do Funil.
A estimativa oficial é que a nova ligação reduza em até duas horas o deslocamento entre Salvador, o Recôncavo e o Baixo Sul. Em alguns trajetos rodoviários, especialmente no transporte de cargas, a redução poderá chegar a aproximadamente 200 quilômetros, com efeitos projetados sobre custos logísticos, turismo, circulação de mercadorias e acesso a serviços públicos.
A expectativa inicial é de um fluxo diário próximo de 28 mil veículos. O Governo da Bahia e a concessionária também estimam a criação de cerca de sete mil empregos durante a fase de construção. Esses números representam projeções e dependerão do ritmo da obra, da contratação efetiva de trabalhadores e do comportamento da demanda após a inauguração.
Canteiros e equipamentos indicam mobilização material
A concessionária estruturou três bases operacionais em São Roque do Paraguaçu, Vera Cruz e Salvador. O canteiro de São Roque, instalado em uma área de aproximadamente 400 mil metros quadrados, deverá concentrar a produção industrial e a fabricação de componentes pré-moldados.
Na região da Jequitaia, em Salvador, está prevista uma base administrativa e de produção de concreto e estruturas de aço. O canteiro de Vera Cruz concentra atividades relacionadas ao início das fundações e aos primeiros pilares no lado da Ilha de Itaparica.
Em maio de 2026, um navio procedente da China chegou ao Porto de Salvador com mais de 800 toneladas de equipamentos e materiais, avaliados em aproximadamente US$ 3,5 milhões. A carga incluiu componentes destinados à montagem dos canteiros e às operações de fundação.
A concessionária informou que os canteiros já haviam recebido aproximadamente 4,7 mil toneladas de equipamentos e materiais quando ocorreu o ato de 1º de julho e que mais de 300 profissionais estavam mobilizados. Os dados constituem evidências de preparação operacional, embora o avanço físico da estrutura principal deva ser medido ao longo dos próximos meses por meio de fundações concluídas, pilares erguidos, contratos executados e desembolsos efetivamente realizados.
Linha do tempo da Ponte Salvador-Itaparica
- 2009 — Formulação do projeto: o Governo da Bahia inicia a estruturação da proposta de uma ligação rodoviária entre Salvador e a Ilha de Itaparica.
- 13/12/2019 — Leilão na B3: o Consórcio Ponte Salvador-Itaparica vence o leilão da parceria público-privada. Naquele momento, o investimento era estimado em R$ 5,34 bilhões.
- 12/11/2020 — Assinatura do contrato: o Estado da Bahia e o consórcio chinês formalizam o contrato para construção, operação e manutenção do sistema rodoviário.
- Agosto de 2024 — Mediação institucional: Governo da Bahia e concessionária solicitam ao Tribunal de Contas do Estado uma solução consensual para os impasses econômicos e contratuais.
- 11/02/2025 — Homologação pelo TCE-BA: o plenário da Corte de Contas aprova a proposta de conciliação, com mudanças na taxa de retorno, no aporte público, nas contraprestações e no prazo de operação.
- 04/06/2025 — Termo aditivo: Governo da Bahia e concessionária assinam o primeiro termo aditivo, que redefine as condições econômicas e estabelece junho de 2031 como prazo contratual de conclusão.
- 21/07/2025 — Consulta a comunidades tradicionais: Estado, concessionária, Ministério Público Federal, Defensoria Pública da União e Inema firmam um Termo de Ajustamento de Conduta para assegurar consultas prévias a comunidades atingidas.
- 16/03/2026 — Cronograma apresentado ao TCE-BA: o governo informa que o início das obras ocorrerá em junho de 2026 e reafirma a previsão de conclusão em 2031.
- 18 e 19/05/2026 — Chegada de equipamentos: mais de 800 toneladas de materiais procedentes da China desembarcam no Porto de Salvador.
- 15/06/2026 — Autorização das intervenções em terra: Jerônimo Rodrigues autoriza o início das obras no município de Vera Cruz.
- 01/07/2026 — Início oficial: Lula, Jerônimo e representantes da concessionária participam do ato que marca formalmente a entrada do empreendimento na fase de construção.
- 12 a 18/07/2026 — Repercussão nacional e internacional: Folha, O Tempo, Terra, Veja e o espanhol AS publicam reportagens sobre o projeto, seus impactos, a participação chinesa e os desafios técnicos.







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