O deputado estadual Bobô (PCdoB) criticou, nesta terça-feira (21/07/2026), a circulação de um santinho político que reúne o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), o pré-candidato ao Governo da Bahia ACM Neto (União Brasil) e os nomes de João Roma (PL) e Angelo Coronel para o Senado. Divulgado nas redes sociais pelo ex-prefeito de Jacobina Tiago Dias (PSDB), o material ganhou repercussão fora da Bahia após ser abordado pela Coluna do Estadão e passou a integrar a disputa política em torno da influência de Lula sobre o eleitorado baiano. Bobô classificou o episódio como uma tentativa de aproximar lideranças oposicionistas do presidente e afirmou que a iniciativa “virou piada na imprensa nacional”.
Bobô associa santinho à disputa pelo eleitorado de Lula
Na avaliação do deputado, a divulgação do material demonstra o desconforto da oposição diante da identificação histórica de parte expressiva do eleitorado baiano com Lula. O parlamentar sustentou que lideranças ligadas ao grupo de ACM Neto mantêm alianças nacionais com nomes situados no campo de oposição ao presidente, embora integrantes desse mesmo agrupamento tentem alcançar eleitores lulistas na disputa estadual.
Bobô citou, especificamente, as relações políticas da oposição baiana com o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) e com o ex-governador de Goiás Ronaldo Caiado. João Roma declarou publicamente apoio à pré-candidatura presidencial de Flávio Bolsonaro, enquanto aliados de ACM Neto apontam Caiado como a liderança nacional mais próxima do ex-prefeito de Salvador.
Ao comentar o episódio, Bobô afirmou:
“É mais uma bola fora de ACM Neto e sua turma. O povo da Bahia não esqueceu quem foi que prometeu uma surra em Lula. Isso não cola, Neto Valentão!”
O parlamentar classificou a peça como uma tentativa de confundir eleitores do interior e questionou a compatibilidade entre a imagem apresentada no santinho e os posicionamentos políticos assumidos pelos integrantes da oposição baiana.
Material foi divulgado pelo ex-prefeito Tiago Dias
O santinho foi publicado pelo ex-prefeito de Jacobina Tiago Dias, atualmente filiado ao PSDB. No material, Dias apresenta Lula para a Presidência da República, ACM Neto para o Governo da Bahia e João Roma e Angelo Coronel para as duas vagas que estarão em disputa no Senado.
A composição reúne políticos de campos partidários distintos e representa uma manifestação do próprio ex-prefeito sobre as candidaturas que pretende apoiar. Até o momento, não há indicação de que a peça tenha sido produzida ou autorizada pelas equipes oficiais de ACM Neto ou de João Roma.
Procurada pela Coluna do Estadão, a assessoria de ACM Neto negou qualquer associação política do pré-candidato com Lula. João Roma também afirmou que o material não foi produzido por sua equipe e reiterou que seu nome para a Presidência da República é o senador Flávio Bolsonaro.
Voto cruzado volta ao centro da eleição baiana
A publicação reacendeu o debate sobre o chamado voto cruzado, fenômeno em que um eleitor escolhe candidatos pertencentes a grupos políticos diferentes nas disputas nacional e estadual.
Na eleição de 2022, setores do eleitorado baiano votaram simultaneamente em Lula para presidente e em ACM Neto para governador. Apesar desse movimento, o candidato do União Brasil foi derrotado no segundo turno por Jerônimo Rodrigues (PT), que recebeu 52,79% dos votos válidos, contra 47,21% de ACM Neto.
Na disputa presidencial daquele ano, Lula obteve 6.097.815 votos na Bahia, equivalentes a 72,12% dos votos válidos. Jair Bolsonaro recebeu 2.357.028 votos, ou 27,88%. O resultado confirmou a Bahia como um dos principais redutos eleitorais do presidente e transformou sua imagem em ativo político relevante para as disputas estaduais.
O desempenho explica por que candidatos, prefeitos e lideranças municipais procuram dialogar com o eleitorado lulista, mesmo quando integram partidos ou alianças que fazem oposição ao Governo Federal. Esse movimento não significa, necessariamente, a existência de acordos formais entre as lideranças apresentadas no mesmo material.
Bobô acusa oposição de tentar reescrever trajetória política
Bobô afirmou que a circulação do santinho integra uma tentativa da oposição de reduzir o desgaste provocado pela associação com o bolsonarismo. Segundo o deputado, os posicionamentos públicos assumidos pelos integrantes da aliança oposicionista seriam incompatíveis com uma aproximação eleitoral com Lula.
“Assuma que você é bolsonarista e anti-Lula. Não adianta tentar vestir uma fantasia que ninguém acredita. A Bahia sabe quem sempre esteve ao lado de Lula e quem passou os últimos anos atacando o presidente. O eleitor distingue discurso de ocasião da verdade.”
A declaração reproduz a estratégia da base governista de vincular a candidatura de ACM Neto ao campo bolsonarista. Nas semanas anteriores, integrantes do PT e do PCdoB já haviam questionado a participação do ex-prefeito em articulações que reuniram João Roma e apoiadores de Flávio Bolsonaro.
Em 6 de julho de 2026, ACM Neto participou virtualmente de uma reunião política em Guanambi que contou com João Roma e lideranças conservadoras. O encontro foi promovido por apoiadores de Flávio Bolsonaro e integrou as articulações da oposição para as eleições estaduais.
Declaração sobre “surra” em Lula ocorreu em 2005
Ao citar a promessa de uma “surra” em Lula, Bobô recuperou uma declaração feita por ACM Neto em novembro de 2005, quando o atual pré-candidato ao Governo da Bahia exercia mandato de deputado federal.
Naquele período, durante a crise política do primeiro mandato de Lula, ACM Neto afirmou que reagiria fisicamente caso o presidente ou integrantes do governo interferissem em sua família. A declaração foi proferida em um contexto de denúncias sobre supostas atividades de espionagem envolvendo parlamentares que participavam das investigações do Congresso.
O episódio voltou ao debate público durante a campanha municipal de Salvador em 2012. Na ocasião, ACM Neto reconheceu o excesso cometido e se retratou pela declaração. O registro histórico, no entanto, continuou a ser utilizado por adversários políticos em campanhas posteriores.
A referência feita por Bobô, portanto, corresponde a um episódio ocorrido há mais de duas décadas e posteriormente seguido por uma retratação pública. O deputado utilizou o antecedente para sustentar seu argumento sobre a distância histórica entre ACM Neto e Lula.
Episódio amplia disputa pela imagem do presidente
A controvérsia atual não é a primeira envolvendo a utilização da imagem de Lula em materiais relacionados ao grupo de ACM Neto. Em 14 de julho de 2026, Bobô já havia acusado aliados do ex-prefeito de tentar associar o presidente a uma composição política da oposição baiana.
Na manifestação anterior, o deputado afirmou que Lula mantém alinhamento político com Jerônimo Rodrigues e que não existe acordo entre o presidente e a chapa liderada pelo União Brasil. A postagem também estava relacionada a material divulgado por Tiago Dias nas redes sociais.
A repetição do debate demonstra que a vinculação das candidaturas estaduais aos principais nomes da política nacional deverá ocupar espaço relevante durante a campanha de 2026. Enquanto a base governista procura preservar a associação entre Lula e Jerônimo, a oposição busca alcançar eleitores que apoiam o presidente, mas avaliam alternativas para o Governo da Bahia.
Convenções partidárias definirão candidaturas e palanques
A controvérsia ocorre no início do período oficial das convenções partidárias. De acordo com o calendário aprovado pelo Tribunal Superior Eleitoral, partidos e federações podem realizar suas convenções entre 20 de julho e 5 de agosto de 2026, quando deverão escolher formalmente os candidatos e deliberar sobre coligações.
As candidaturas precisarão ser registradas até 15 de agosto. A propaganda eleitoral geral nas ruas e na internet estará autorizada a partir de 16 de agosto, enquanto o primeiro turno ocorrerá em 4 de outubro de 2026. Um eventual segundo turno para presidente e governador está previsto para 25 de outubro.
Até a formalização das candidaturas e dos palanques presidenciais, materiais divulgados por lideranças locais poderão continuar expressando combinações eleitorais próprias, sem representar necessariamente decisões oficiais dos partidos ou das chapas majoritárias.
Linha do tempo da controvérsia
- 1º de novembro de 2005: durante mandato de deputado federal, ACM Neto declara que poderia dar uma “surra” em Lula caso o presidente interferisse em sua família, no contexto das denúncias de suposta espionagem de parlamentares.
- Setembro de 2012: candidato à Prefeitura de Salvador, ACM Neto reconhece o excesso cometido em 2005 e apresenta retratação pública pela declaração.
- 30 de outubro de 2022: Lula recebe 6.097.815 votos, equivalentes a 72,12% dos votos válidos na Bahia. No mesmo pleito, Jerônimo Rodrigues derrota ACM Neto no segundo turno da eleição estadual.
- 6 de julho de 2026: ACM Neto participa virtualmente de evento em Guanambi ao lado de João Roma e de lideranças conservadoras ligadas à pré-candidatura presidencial de Flávio Bolsonaro.
- 14 de julho de 2026: Bobô acusa aliados de ACM Neto de utilizarem a imagem de Lula em publicação nas redes sociais para tentar alcançar o eleitorado do presidente na Bahia.
- 17 de julho de 2026: a divulgação do santinho por Tiago Dias ganha repercussão. As assessorias de ACM Neto e João Roma negam participação na produção do material. Roma reafirma apoio a Flávio Bolsonaro.
- 21 de julho de 2026: Bobô volta a criticar a peça e afirma que a associação de Lula com ACM Neto e João Roma teria se transformado em “piada na imprensa nacional”.







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