No sábado (11/04/2026), vieram à tona informações detalhadas sobre os gastos do Banco Master com serviços jurídicos entre 2022 e 2025, revelando o pagamento de R$ 543 milhões a 91 escritórios de advocacia, além de transferências a políticos e ex-autoridades, conforme documentos encaminhados pela Receita Federal à Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) do Crime Organizado no Senado. Os dados indicam uma escalada significativa nas despesas jurídicas do banco, especialmente no período em que a instituição passou a ser alvo de investigações federais e enfrentou medidas regulatórias mais rigorosas.
Crescimento exponencial dos gastos jurídicos
Os registros apontam uma evolução acentuada nos valores destinados a honorários advocatícios ao longo dos anos:
- 2022: R$ 40,1 milhões
- 2023: R$ 56,8 milhões
- 2024: R$ 183,7 milhões
- 2025: R$ 262,4 milhões
O aumento coincide com o avanço das investigações envolvendo o ex-banqueiro Daniel Vorcaro, controlador do Banco Master, além do endurecimento das ações da Polícia Federal e do Banco Central, que culminaram na liquidação da instituição.
Segundo os documentos, ao menos 15 escritórios receberam valores superiores a R$ 10 milhões, indicando a mobilização de uma ampla rede jurídica em diferentes frentes — desde contencioso judicial até estratégias de defesa institucional e regulatória.
Principais beneficiários e vínculos institucionais
Entre os escritórios que mais receberam recursos, destacam-se bancas com forte inserção no meio jurídico e institucional:
- O escritório Barci de Moraes, ligado à advogada Viviane Barci de Moraes, recebeu cerca de R$ 80,2 milhões em 22 meses, tornando-se o maior beneficiário individual do período.
- A sociedade Monteiro, Rusu, Cameirão e Bercht acumulou R$ 79,1 milhões em pagamentos.
- Escritórios ligados ao advogado Walfrido Warde receberam R$ 76,6 milhões.
- O Gabino Kruschewsky Advogados Associados registrou cerca de R$ 54 milhões em repasses.
Os escritórios citados, em sua maioria, contestaram os valores ou destacaram a legalidade das contratações, ressaltando a complexidade dos serviços prestados e o volume de processos atendidos.
Pagamentos a políticos e ex-autoridades
Os documentos também indicam pagamentos a figuras políticas relevantes, incluindo:
- Michel Temer, ex-presidente da República
- Antônio Rueda, presidente nacional do União Brasil
- Guido Mantega, ex-ministro da Fazenda
- Ricardo Lewandowski, ex-ministro do STF e da Justiça
Os valores pagos variam conforme o tipo de serviço prestado, incluindo consultorias jurídicas e atuação em negociações estratégicas, como a tentativa de venda do banco ao BRB.
As defesas dos envolvidos destacam que as atividades foram profissionais e compatíveis com o exercício da advocacia, sem irregularidades formais declaradas até o momento.
Estratégia jurídica e contexto das investigações
O aumento expressivo dos gastos coincide com a intensificação das ações contra o Banco Master, incluindo:
- Operação Compliance Zero, conduzida pela Polícia Federal
- Liquidação da instituição pelo Banco Central
- Tentativas de reestruturação e venda da operação
A estratégia jurídica adotada por Vorcaro envolveu a contratação simultânea de diversos escritórios, com atuação coordenada em milhares de processos judiciais — alguns escritórios relataram participação em mais de 40 mil ações.
Além disso, há indícios de uma atuação considerada “agressiva” no meio jurídico, com tentativas de reversão de decisões e articulações em diferentes instâncias do Judiciário.
Relações institucionais e proximidade com autoridades
Os dados sugerem um estreitamento de relações entre o banco e figuras com trânsito nos tribunais superiores e no meio político, o que levanta questionamentos sobre o alcance e a influência dessas conexões.
Entre os casos citados, aparecem vínculos indiretos com membros do Judiciário, como a atuação de escritórios ligados a familiares de ministros de tribunais superiores, ainda que sem comprovação de irregularidade formal.
Concentração de poder jurídico e influência institucional
A mobilização de centenas de milhões de reais em honorários revela não apenas a dimensão da crise enfrentada pelo Banco Master, mas também a capacidade de grandes instituições financeiras de recorrer a estruturas jurídicas complexas para proteger seus interesses. Trata-se de um fenômeno recorrente no sistema financeiro, onde a litigância estratégica se tornou instrumento central de sobrevivência empresarial.
Embora os dados tenham sido obtidos por meio de documentos fiscais oficiais, não há detalhamento sobre a natureza específica dos serviços prestados, o que dificulta a avaliação precisa da adequação dos pagamentos. A ausência de transparência nesse ponto mantém zonas de incerteza, sobretudo quando há envolvimento de agentes públicos ou ex-autoridades.
O caso evidencia uma zona sensível da vida institucional brasileira: a interseção entre advocacia privada, influência política e interesses econômicos. Ainda que legalmente permitidas, essas relações exigem vigilância permanente, sobretudo quando se aproximam de decisões judiciais ou processos regulatórios de alto impacto.
*Com informações dos jornais Folha de S.Paulo e O Globo.








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