Brasília, sábado, 25/07/2026 — O ex-juiz federal Erik Navarro Wolkart, que deixou a magistratura em 2023 e passou a atuar na área de inteligência artificial aplicada à advocacia, visitou o ex-controlador do Banco Master, Daniel Vorcaro, no 19º Batalhão da Polícia Militar do Distrito Federal, conhecido como Papudinha, e negocia com integrantes da família uma possível entrada na equipe de defesa. A movimentação ocorre após a rejeição de duas propostas de colaboração premiada pela Polícia Federal e pela Procuradoria-Geral da República, em meio a divergências entre advogados, pressão familiar e tentativas de formular uma terceira proposta capaz de atender às exigências dos investigadores.
Ex-juiz federal entra nos bastidores da defesa
Segundo apuração publicada pela coluna de Malu Gaspar, em O Globo, Wolkart chegou a Daniel Vorcaro por intermédio da mãe do ex-banqueiro, Aline Vorcaro, e da irmã dele, Natália Vorcaro. Interlocutores da família teriam comunicado à PF e à PGR a intenção de contratar o ex-magistrado, apresentando como credenciais sua experiência de quase duas décadas na Justiça Federal e sua passagem pelo Tribunal Regional Federal da 2ª Região, o TRF-2.
O objetivo central seria reorganizar a estratégia jurídica e preparar uma terceira proposta de colaboração premiada. De acordo com a reportagem, representantes da família indicaram às autoridades que uma eventual nova negociação seria mais abrangente do que as anteriores, com a apresentação de informações e documentos que pudessem oferecer avanço efetivo à investigação.
A recepção dos investigadores, entretanto, teria sido marcada pelo ceticismo. A avaliação atribuída a integrantes da PF é que uma substituição ou ampliação da defesa somente produziria efeito concreto caso Vorcaro apresentasse fatos novos, verificáveis e acompanhados de elementos de prova. Segundo relatos reproduzidos pela imprensa, as duas propostas anteriores teriam avançado pouco além de informações já extraídas dos aparelhos eletrônicos apreendidos durante a investigação.
Terceira proposta enfrenta resistência da PF e da PGR
A primeira movimentação formal em direção a uma colaboração ocorreu em março de 2026, quando Vorcaro assinou um acordo de confidencialidade com autoridades responsáveis pela investigação. Esse documento abriu caminho para conversas preliminares, mas não representava a celebração nem a homologação de uma delação premiada.
Nos meses seguintes, a defesa apresentou propostas destinadas a demonstrar a utilidade da colaboração. A segunda tentativa foi rejeitada pela Polícia Federal em 11/06/2026 e, posteriormente, pela Procuradoria-Geral da República. As autoridades teriam considerado insuficientes as informações oferecidas e mantido dúvidas sobre a capacidade do material apresentado de revelar fatos desconhecidos ou identificar novos participantes do suposto esquema investigado.
A divergência está concentrada na qualidade e na abrangência do conteúdo. Vorcaro teria afirmado a aliados que houve resistência excessiva da PF aos documentos entregues e que pretende reunir provas mais robustas. Investigadores, por outro lado, sustentam que uma colaboração somente poderá prosperar se o ex-banqueiro fornecer dados comprováveis, esclarecer o funcionamento das operações financeiras investigadas e indicar eventuais beneficiários, operadores e agentes públicos envolvidos.
Nesse cenário, a entrada de um novo advogado não seria suficiente, por si só, para reabrir as negociações. O fator decisivo permanece sendo o conteúdo que Vorcaro estaria disposto a entregar e a possibilidade de as informações produzirem resultados concretos, como recuperação de ativos, identificação de novos envolvidos ou aprofundamento das linhas investigativas existentes.
Disputa entre advogados amplia tensão interna
A possível entrada de Erik Navarro Wolkart ocorre enquanto permanece indefinida a composição definitiva da defesa. Desde maio de 2026, o criminalista Sérgio Leonardo, ex-presidente da Ordem dos Advogados do Brasil em Minas Gerais, é apontado como principal responsável pela representação de Vorcaro, após a saída de José Luis Oliveira Lima, conhecido como Juca.
A tensão aumentou com a aproximação de Cezar Roberto Bitencourt, advogado que participou da negociação da colaboração premiada do tenente-coronel Mauro Cid. Bitencourt e integrantes de sua equipe visitaram Vorcaro na Papudinha em julho, sem que houvesse, inicialmente, uma comunicação pública consensual sobre sua incorporação ao caso.
As informações divulgadas sobre a situação de Bitencourt são divergentes. Enquanto uma reportagem publicada em 23/07/2026 informou que o criminalista teria assumido oficialmente a defesa, outras apurações registraram que Sérgio Leonardo continuava formalmente à frente do caso e não havia substabelecido poderes a outro profissional. A controvérsia evidencia que a composição da equipe jurídica ainda dependia de uma definição entre Vorcaro, seus familiares e os advogados envolvidos.
De acordo com a apuração atribuída a O Globo, a presença simultânea de Bitencourt e Wolkart provocou desconforto entre os defensores que já acompanhavam o processo. Depois das visitas, integrantes da equipe procuraram Vorcaro na unidade prisional e teriam recebido dele a informação de que não pretendia promover novas mudanças. A mesma versão foi transmitida por esses profissionais em conversas com jornalistas.
Família busca saída jurídica após sucessivas derrotas
Desde a segunda prisão de Vorcaro, decretada em março, os advogados Pierpaolo Bottini, Roberto Podval e José Luis Oliveira Lima deixaram a defesa. As alterações sucessivas refletem as dificuldades para estabelecer uma estratégia capaz de produzir resultados nas negociações com a PF, a PGR e o Supremo Tribunal Federal.
Questionado pelos atuais defensores sobre as conversas com outros profissionais, Vorcaro teria atribuído à família as aproximações com Bitencourt e Wolkart. Segundo a reportagem, o ex-banqueiro afirmou que as visitas e sondagens não significavam necessariamente uma decisão pessoal de substituir a equipe.
A pressão familiar aumentou depois da transferência para a Papudinha e da ausência de perspectiva imediata para a retomada das tratativas. Além de Daniel Vorcaro, outros parentes foram alcançados pela Operação Compliance Zero. Seu pai, Henrique Moura Vorcaro, e seu primo, Felipe Cançado Vorcaro, tiveram as prisões preventivas mantidas pela Segunda Turma do STF em junho. O cunhado Fabiano Zettel também foi preso e permanece citado nas investigações conduzidas sob supervisão do Supremo.
O Globo informou ainda que a equipe jurídica vinha atuando sem receber honorários desde o início de 2026, diante das restrições patrimoniais e das dificuldades financeiras decorrentes das investigações. A expectativa seria resolver os pagamentos ao longo do processo, circunstância que acrescentaria um componente econômico às divergências sobre quem deve conduzir a defesa. A informação foi apresentada como relato de bastidores e não teve confirmação pública independente dos profissionais mencionados.
Quem é Erik Navarro Wolkart
Erik Navarro Wolkart exerceu a magistratura federal por aproximadamente 19 anos e atuou no 2º Juizado Especial Federal de Niterói, vinculado ao TRF-2. Formado em Direito pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, também desenvolveu atividades acadêmicas e estudos relacionados à economia, à neurociência, à psicologia e ao funcionamento do sistema de Justiça.
Em julho de 2023, a Corregedoria Nacional de Justiça determinou cautelarmente a suspensão dos perfis mantidos pelo então magistrado nas redes sociais. O procedimento analisava a suspeita de que conteúdos publicados ultrapassavam os limites da atividade docente e se aproximavam de serviços de mentoria ou treinamento destinados a melhorar o desempenho de advogados na tramitação de processos.
O Conselho Nacional de Justiça informou, na ocasião, que algumas publicações prometiam técnicas para reduzir o tempo de tramitação das ações, elevar o número de pedidos julgados procedentes, ampliar honorários e favorecer o crescimento profissional dos participantes. A Corregedoria considerou necessária a apuração sobre eventual autopromoção, superexposição ou comprometimento das exigências de imparcialidade associadas à magistratura.
Após a medida cautelar, Wolkart pediu exoneração. O ato foi formalizado pelo TRF-2 em 25/07/2023. Desde então, ele passou a concentrar sua atuação na docência, na produção de conteúdo digital e em cursos sobre inteligência artificial e gestão de escritórios de advocacia.
A reportagem de O Globo afirma que a experiência anterior no Judiciário é apresentada pela família Vorcaro como um possível diferencial para as negociações. Procurado pela coluna para comentar as visitas à Papudinha e as conversas sobre sua eventual entrada no caso, Wolkart não se manifestou.
Caso Banco Master envolve suspeitas de fraudes bilionárias
A crise que levou ao encerramento das atividades do Banco Master tornou-se pública em novembro de 2025. O Banco Central decretou a liquidação extrajudicial da instituição em 18/11/2025, mencionando o comprometimento da situação econômico-financeira, a deterioração da liquidez, infrações às normas aplicáveis ao sistema bancário e descumprimento de determinações do órgão regulador.
Daniel Vorcaro havia sido preso pela primeira vez na noite de 17/11/2025, no Aeroporto Internacional de Guarulhos, quando se preparava para viajar ao exterior. A defesa sustentou que o deslocamento tinha finalidade empresarial e negou que houvesse tentativa de fuga. A Operação Compliance Zero investigava a possível fabricação e negociação de carteiras de crédito sem lastro, além de suspeitas de gestão fraudulenta, gestão temerária e organização criminosa.
Depois de ser libertado mediante medidas cautelares, Vorcaro voltou a ser preso preventivamente em 04/03/2026, por determinação do ministro André Mendonça. Segundo o STF, a medida foi fundamentada na existência de risco concreto de interferência nas investigações, destruição de provas, ocultação de recursos e continuidade das atividades atribuídas ao grupo investigado.
Em 20/03/2026, a Segunda Turma do Supremo manteve a prisão por unanimidade. Os ministros entenderam que, naquele estágio da apuração, permaneciam presentes razões para impedir possíveis interferências na produção de provas e garantir a aplicação da lei penal. A decisão tem natureza cautelar e não representa condenação dos investigados.
Em julho, a PF deflagrou a décima fase da Operação Compliance Zero para apurar uma possível atuação coordenada destinada a atacar a credibilidade do Banco Central, intimidar jornalistas, monitorar pessoas ligadas a autoridades e obter informações sigilosas. Os fatos permanecem em investigação, sem julgamento definitivo sobre a responsabilidade dos envolvidos.
Linha do tempo da defesa e das tentativas de colaboração
- 17/11/2025 — Daniel Vorcaro é preso no Aeroporto Internacional de Guarulhos, na primeira fase da Operação Compliance Zero.
- 18/11/2025 — O Banco Central decreta a liquidação extrajudicial do Banco Master e determina a indisponibilidade dos bens de controladores e ex-administradores.
- 04/03/2026 — André Mendonça determina a segunda prisão preventiva de Vorcaro, diante do alegado risco de interferência nas investigações.
- 19/03/2026 — Vorcaro assina acordo de confidencialidade e inicia conversas preliminares para uma possível colaboração premiada.
- 20/03/2026 — A Segunda Turma do STF mantém a prisão preventiva.
- 22/05/2026 — José Luis Oliveira Lima deixa o caso, e Sérgio Leonardo assume a condução principal da defesa.
- 11/06/2026 — A Polícia Federal rejeita a segunda proposta de colaboração premiada por considerar insuficiente o conteúdo apresentado.
- 15/06/2026 — A PGR também rejeita a segunda proposta, mantendo o impasse em torno da utilidade das informações oferecidas.
- 25/06/2026 — Vorcaro é transferido para uma cela especial no 19º Batalhão da Polícia Militar do Distrito Federal, a Papudinha.
- Julho de 2026 — Cezar Bitencourt visita Vorcaro e inicia conversas sobre uma eventual participação na defesa.
- 23/07/2026 — Surgem versões divergentes sobre a entrada formal de Bitencourt, enquanto Sérgio Leonardo permanece apontado como responsável pelo caso.
- 25/07/2026 — O Globo revela que Erik Navarro Wolkart visitou Vorcaro e negocia com a família sua possível entrada na equipe jurídica.
A movimentação em torno da defesa de Daniel Vorcaro revela que o principal impasse do caso não é apenas jurídico ou processual, mas também estratégico. A sucessão de advogados, a atuação paralela de familiares e as versões contraditórias sobre quem representa formalmente o ex-banqueiro indicam ausência de unidade na condução do processo. Essa fragmentação pode dificultar a elaboração de uma proposta consistente, especialmente em uma investigação extensa, sob sigilo e com múltiplos núcleos financeiros, empresariais e institucionais.
A eventual entrada de Erik Navarro Wolkart acrescentaria à equipe um profissional com longa experiência na magistratura e atuação recente em tecnologia aplicada ao Direito, mas não eliminaria a exigência central formulada pela PF e pela PGR: a apresentação de informações novas, verificáveis e relevantes. O histórico profissional ou a capacidade de interlocução dos advogados não substituem a necessidade de provas, documentos e esclarecimentos que efetivamente ampliem o conhecimento das autoridades sobre os fatos investigados.
O episódio importa porque uma eventual colaboração de Vorcaro poderá influenciar a recuperação de recursos, a identificação de beneficiários e o esclarecimento das relações mantidas pelo antigo comando do Banco Master com agentes financeiros, empresários e autoridades. Os próximos passos dependerão da definição da equipe de defesa, da disposição do investigado de apresentar informações completas e da avaliação da Polícia Federal, da Procuradoria-Geral da República e do ministro André Mendonça, responsável pela supervisão do caso no Supremo Tribunal Federal.








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