O presidente Luiz Inácio Lula da Silva, de 80 anos, foi oficializado neste domingo, 02/08/2026, pelo Partido dos Trabalhadores como candidato à reeleição, novamente ao lado do vice-presidente Geraldo Alckmin, do PSB, durante convenção nacional realizada em São Paulo. A homologação abre formalmente a tentativa de Lula de conquistar um quarto mandato presidencial não consecutivo e insere na campanha uma trajetória que começou no interior de Pernambuco, ganhou projeção nas greves do ABC Paulista, atravessou a redemocratização, três vitórias eleitorais e processos judiciais posteriormente anulados pelo Supremo Tribunal Federal.
A candidatura ainda precisa ser registrada perante a Justiça Eleitoral. Conforme o calendário definido pelo Tribunal Superior Eleitoral, as convenções podem ser realizadas até 05/08/2026, enquanto partidos, federações e coligações têm até as 19 horas de 15/08 para apresentar os pedidos de registro. A propaganda eleitoral geral, inclusive na internet, estará autorizada a partir de 16/08.
A reconstrução da trajetória apresentada nesta reportagem parte dos principais acontecimentos reunidos no conteúdo fornecido, complementados por registros institucionais, eleitorais e judiciais.
Infância em Pernambuco e migração para São Paulo
Luiz Inácio Lula da Silva nasceu em 27 de outubro de 1945, na localidade que atualmente integra o município de Caetés, então distrito de Garanhuns, no Agreste pernambucano. Filho de Eurídice Ferreira de Melo, conhecida como dona Lindu, e Aristides Inácio da Silva, foi o sétimo de oito irmãos de uma família submetida às dificuldades econômicas e sociais que atingiam grande parte da população rural nordestina.
Em dezembro de 1952, aos sete anos, Lula deixou Pernambuco com a mãe e os irmãos em direção ao estado de São Paulo. A viagem, realizada na carroceria de um caminhão conhecido como pau de arara, inseriu a família no amplo movimento migratório de nordestinos que buscavam emprego e melhores condições de vida nas regiões industrializadas do Sudeste.
A família estabeleceu-se inicialmente em Vicente de Carvalho, no litoral paulista, antes de seguir para a capital. Ainda adolescente, Lula exerceu atividades como vendedor ambulante, engraxate e ajudante de tinturaria. Aos 14 anos, obteve o primeiro emprego com carteira assinada e, depois de concluir um curso de torneiro mecânico no Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial — Senai —, ingressou na indústria metalúrgica.
Sindicalismo e greves do ABC desafiaram a ditadura
A participação de Lula no movimento sindical começou no final da década de 1960. Em 1969, foi eleito suplente da direção do Sindicato dos Metalúrgicos de São Bernardo do Campo e Diadema. Posteriormente, tornou-se primeiro-secretário da entidade e, em 1975, foi eleito presidente, sendo reconduzido ao cargo em 1978.
A região do ABC Paulista concentrava algumas das principais indústrias automobilísticas e metalúrgicas do país. Naquele período, o Brasil vivia sob a ditadura militar, com restrições à organização sindical, repressão às mobilizações coletivas e limitação do direito de greve.
As paralisações de 1978, 1979 e 1980 devolveram o movimento operário ao centro da vida política nacional. Assembleias realizadas no Estádio de Vila Euclides, em São Bernardo do Campo, reuniram milhares de trabalhadores em defesa da recomposição salarial, de melhores condições de trabalho e da autonomia sindical.
A dimensão das mobilizações transformou Lula em uma liderança nacional. O sindicalista passou a representar não apenas as reivindicações dos metalúrgicos, mas também a rearticulação social que acompanhava o processo de abertura política e o enfraquecimento gradual do regime militar.
Prisão durante a greve de 1980
Em 19 de abril de 1980, durante uma greve dos metalúrgicos, Lula foi preso por agentes do Departamento de Ordem Política e Social — Dops. Ele e outros dirigentes foram enquadrados na Lei de Segurança Nacional após o governo federal intervir no sindicato.
Lula permaneceu detido durante 31 dias, até 20 de maio daquele ano. No período, recebeu a notícia da morte de dona Lindu e deixou temporariamente a prisão, sob escolta, para acompanhar o velório e o sepultamento da mãe, retornando posteriormente ao cárcere.
A prisão, destinada a enfraquecer a mobilização sindical, ampliou a projeção política do dirigente. O episódio tornou-se parte da memória do movimento operário brasileiro e das mobilizações que pressionaram pela abertura democrática.
Fundação do PT, criação da CUT e campanha das Diretas Já
A experiência das greves reforçou entre sindicalistas, intelectuais, integrantes de comunidades eclesiais de base e representantes de movimentos populares a avaliação de que os trabalhadores precisavam de uma organização político-partidária própria.
Em 1980, Lula participou da fundação do Partido dos Trabalhadores. A legenda reuniu diferentes setores sociais e políticos que atuavam contra a ditadura e defendiam a ampliação da representação popular nas instituições.
Lula presidiu o PT entre 1980 e 1988. Em 1983, participou também da criação da Central Única dos Trabalhadores — CUT —, organização sindical que se consolidaria como uma das principais centrais trabalhistas do país.
No ano seguinte, integrou as mobilizações pelas Diretas Já, campanha nacional que reivindicava o restabelecimento das eleições diretas para a Presidência da República. Embora a proposta de emenda constitucional não tenha alcançado os votos necessários no Congresso, o movimento intensificou a pressão social pelo encerramento do regime militar.
Deputado constituinte e ingresso na política institucional
Em 1986, Lula foi eleito deputado federal por São Paulo e tornou-se o candidato mais votado para a Câmara dos Deputados naquela eleição. Tomou posse em fevereiro de 1987 e participou da Assembleia Nacional Constituinte responsável pela elaboração da Constituição Federal de 1988.
Como parlamentar constituinte, atuou em debates relacionados aos direitos sociais, trabalhistas e sindicais, à reforma agrária, ao direito de greve e à participação popular. Exerceu também a liderança do PT na Câmara e na Constituinte.
O Partido dos Trabalhadores considerou insuficientes algumas disposições do texto final e votou contra a redação global da nova Constituição. A bancada petista, entretanto, assinou a Carta e participou diretamente de sua elaboração, reconhecendo os avanços democráticos e sociais incorporados ao documento.
Três derrotas presidenciais antes da vitória de 2002
Lula concorreu pela primeira vez à Presidência da República em 1989, na primeira eleição direta para o cargo desde 1960. Chegou ao segundo turno, mas foi derrotado por Fernando Collor de Mello.
O dirigente petista voltou a disputar a Presidência em 1994 e 1998, sendo derrotado nas duas ocasiões por Fernando Henrique Cardoso. Durante esses anos, percorreu diferentes regiões do país, participou das chamadas Caravanas da Cidadania e ampliou o diálogo com movimentos sociais, setores empresariais, lideranças políticas e organizações da sociedade civil.
As três derrotas sucessivas levaram o PT a rever estratégias eleitorais e ampliar alianças. Para a eleição de 2002, Lula apresentou um discurso de maior moderação econômica e escolheu o empresário e senador mineiro José Alencar como candidato a vice-presidente.
Em 27 de outubro de 2002, data em que completou 57 anos, Lula foi eleito presidente com quase 53 milhões de votos. A vitória colocou pela primeira vez um ex-operário e dirigente sindical na Presidência da República pelo voto popular.
Dois mandatos consecutivos e políticas sociais
A primeira posse ocorreu em 1º de janeiro de 2003, diante de uma grande concentração popular em Brasília. O combate à fome foi apresentado como prioridade do novo governo, que implantou o programa Fome Zero e reorganizou políticas federais de transferência de renda.
Em outubro de 2003, uma medida provisória criou o Bolsa Família, posteriormente convertido na Lei nº 10.836, de 9 de janeiro de 2004. O programa unificou iniciativas anteriores, como Bolsa Escola, Bolsa Alimentação, Auxílio-Gás e programas de acesso à alimentação, estabelecendo um sistema de transferência de renda com condicionalidades sociais.
Os dois primeiros governos Lula também foram associados à expansão do ensino técnico e superior, à criação do Programa Universidade para Todos — ProUni —, à valorização real do salário mínimo e à ampliação do crédito e do emprego. No segundo mandato, iniciado em 2007, foram lançados o Programa de Aceleração do Crescimento — PAC — e, em 2009, o Minha Casa, Minha Vida.
Lula foi reeleito em 29 de outubro de 2006, com mais de 58 milhões de votos. Encerrou o segundo mandato em dezembro de 2010 e apoiou a candidatura de Dilma Rousseff, que se tornou a primeira mulher eleita presidente da República.
Transposição do Rio São Francisco atravessou diferentes governos
O Projeto de Integração do Rio São Francisco tornou-se uma das principais obras de infraestrutura associadas aos primeiros governos Lula. O empreendimento começou a ser executado em 2007, após décadas de estudos, propostas e discussões ambientais, técnicas e políticas.
O sistema possui cerca de 477 quilômetros, distribuídos pelos eixos Norte e Leste, e foi projetado para ampliar a segurança hídrica de aproximadamente 12 milhões de pessoas em municípios de Pernambuco, Paraíba, Ceará e Rio Grande do Norte.
Embora iniciado durante o segundo mandato de Lula, o projeto atravessou sucessivas administrações federais. As obras continuaram nos governos Dilma Rousseff, Michel Temer e Jair Bolsonaro, com inaugurações, conclusões de trechos e entrada em operação de estruturas. No terceiro mandato de Lula, novos ramais, sistemas complementares e ampliações da capacidade de bombeamento passaram a integrar os investimentos federais.
A continuidade administrativa é indispensável para compreender a dimensão do empreendimento. A transposição não pode ser atribuída exclusivamente a um único governo, embora sua execução em larga escala tenha começado sob Lula e avançado mediante investimentos realizados por administrações posteriores.
Condenação, prisão e impedimento eleitoral em 2018
Em 7 de abril de 2018, Lula apresentou-se à Polícia Federal, em Curitiba, para iniciar o cumprimento da pena decorrente da condenação no processo relacionado ao tríplex do Guarujá. A sentença havia sido proferida pelo então juiz federal Sergio Moro e confirmada pelo Tribunal Regional Federal da 4ª Região.
Lula permaneceu preso durante 580 dias. Naquele momento, liderava pesquisas de intenção de voto para a eleição presidencial, mas teve a candidatura rejeitada pela Justiça Eleitoral com base na Lei da Ficha Limpa.
O ex-presidente deixou a prisão em 8 de novembro de 2019, após o Supremo Tribunal Federal decidir que o cumprimento automático de penas não poderia começar apenas com a confirmação da condenação em segunda instância, antes do trânsito em julgado, salvo quando houvesse fundamento específico para prisão cautelar.
STF anulou condenações e reconheceu parcialidade de Moro
Em março de 2021, o ministro Edson Fachin, do Supremo Tribunal Federal, anulou as decisões tomadas pela 13ª Vara Federal de Curitiba nos processos do tríplex do Guarujá, sítio de Atibaia, sede do Instituto Lula e doações ao instituto.
A decisão foi confirmada pelo plenário do STF em abril daquele ano. A Corte concluiu que a vara de Curitiba não tinha competência para julgar os casos porque os fatos atribuídos a Lula não possuíam relação direta com os desvios investigados na Petrobras.
A anulação eliminou os efeitos das condenações e restabeleceu os direitos políticos do ex-presidente. Juridicamente, a medida não correspondeu a uma absolvição sobre o mérito das acusações, mas tornou inválidos os atos processuais praticados pelo juízo considerado incompetente.
Em julgamento separado, a Segunda Turma do STF reconheceu a parcialidade de Sergio Moro na condução do processo do tríplex. O plenário posteriormente manteve o entendimento, anulando os atos praticados pelo ex-juiz naquela ação penal. A decisão sobre a suspeição foi específica para o caso analisado e não representou uma declaração genérica sobre toda a Operação Lava Jato.
Vitória de 2022 e retorno ao Palácio do Planalto
Com os direitos políticos restabelecidos, Lula disputou a eleição de 2022 por uma frente partidária mais ampla. Geraldo Alckmin, que havia concorrido contra o petista na eleição presidencial de 2006, foi escolhido para ocupar a vice-presidência da chapa.
No segundo turno, realizado em 30 de outubro de 2022, Lula recebeu 60.345.999 votos, equivalentes a 50,90% dos votos válidos. Jair Bolsonaro obteve 58.206.354 votos, ou 49,10%. A diferença de aproximadamente 2,14 milhões de votos tornou aquela a disputa presidencial mais apertada desde a redemocratização.
O resultado representou a terceira eleição de Lula para a Presidência e a primeira derrota de um presidente que buscava a reeleição desde que o instituto foi incorporado ao sistema político brasileiro. A votação nominal de Lula foi a maior já registrada por um candidato presidencial no país.
Lula tomou posse pela terceira vez em 1º de janeiro de 2023. Como Jair Bolsonaro havia deixado o Brasil e não participou da cerimônia, a faixa presidencial passou pelas mãos de representantes de diferentes segmentos da sociedade antes de ser colocada no presidente pela catadora de materiais recicláveis Aline Sousa.
O ato foi apresentado como símbolo da participação social na cerimônia de transmissão do cargo e marcou o retorno de Lula ao Palácio do Planalto quase quatro anos depois de deixar a prisão em Curitiba.
Convenção de 2026 abre disputa por quarto mandato
A convenção nacional do PT deste domingo consolida a chapa formada por Lula e Alckmin para as Eleições 2026. O evento ocorre dentro do período oficial definido pela Justiça Eleitoral para a escolha dos candidatos e a aprovação das coligações partidárias.
A permanência de Alckmin busca preservar a composição política construída em 2022, quando o antigo adversário do PT contribuiu para ampliar a candidatura em direção a setores de centro. Em 2026, a aliança volta a combinar a base social e partidária tradicional de Lula com a trajetória política moderada do vice-presidente.
A homologação partidária representa apenas uma das etapas formais da candidatura. Após o registro, caberá ao Tribunal Superior Eleitoral examinar a documentação, as condições de elegibilidade e eventuais impugnações antes da confirmação definitiva dos nomes que disputarão o pleito.
Caso vença, Lula iniciará em 2027 o quarto mandato presidencial, marca inédita desde a redemocratização. A campanha deverá confrontar o balanço do atual governo, o histórico das administrações anteriores, as condições econômicas e sociais do país e as propostas apresentadas pelos diferentes candidatos.
Linha do tempo da trajetória de Lula
- 1945 — Luiz Inácio Lula da Silva nasce em 27 de outubro, na região que atualmente pertence ao município de Caetés, em Pernambuco.
- 1952 — Migra com a mãe e os irmãos para o estado de São Paulo em uma viagem realizada em pau de arara.
- Década de 1960 — Torna-se torneiro mecânico e inicia sua participação no movimento sindical.
- 1975 — É eleito presidente do Sindicato dos Metalúrgicos de São Bernardo do Campo e Diadema.
- 1978 a 1980 — Lidera greves de metalúrgicos que desafiam as restrições impostas pela ditadura militar.
- 1980 — É preso durante 31 dias com base na Lei de Segurança Nacional e participa da fundação do Partido dos Trabalhadores.
- 1983 — Participa da criação da Central Única dos Trabalhadores.
- 1984 — Integra a campanha das Diretas Já.
- 1986 — É eleito deputado federal por São Paulo.
- 1987 e 1988 — Participa da Assembleia Nacional Constituinte.
- 1989 — Disputa pela primeira vez a Presidência e perde o segundo turno para Fernando Collor.
- 1994 e 1998 — É derrotado por Fernando Henrique Cardoso nas eleições presidenciais.
- 2002 — É eleito presidente da República com quase 53 milhões de votos.
- 2003 — Assume o primeiro mandato e cria o Bolsa Família por meio da Medida Provisória nº 132.
- 2006 — É reeleito presidente.
- 2007 — Começam as obras de integração do Rio São Francisco.
- 2010 — Encerra o segundo mandato presidencial.
- 2018 — É preso após condenação confirmada em segunda instância e fica impedido de disputar a eleição presidencial.
- 2019 — Deixa a prisão depois de o STF rever o entendimento sobre o cumprimento automático da pena após decisão de segunda instância.
- 2021 — O STF anula as condenações impostas pela Justiça Federal de Curitiba e reconhece a parcialidade de Sergio Moro no caso do tríplex.
- 2022 — É eleito presidente pela terceira vez, com 60.345.999 votos.
- 2023 — Assume o terceiro mandato ao lado de Geraldo Alckmin.
- 2026 — PT oficializa novamente a chapa Lula–Alckmin para a disputa presidencial.
A trajetória de Lula concentra transformações centrais da história política brasileira das últimas cinco décadas: o fortalecimento do movimento sindical durante a ditadura, a fundação de novos partidos, a redemocratização, a ampliação das políticas sociais e a crescente judicialização da política. Essa extensão histórica ajuda a explicar sua permanência no centro da disputa nacional, mas também faz com que seu legado seja objeto de interpretações profundamente divergentes entre apoiadores, adversários e pesquisadores.
A narrativa promovida pelo PT enfatiza a origem popular, as políticas de inclusão e as decisões judiciais que invalidaram as condenações. Uma abordagem jornalística exige acrescentar que os governos Lula também enfrentaram crises políticas, denúncias de corrupção, conflitos fiscais, controvérsias administrativas e críticas à condução econômica. Da mesma forma, a anulação dos processos pelo STF deve ser descrita com precisão: as condenações perderam validade em razão da incompetência do juízo de Curitiba, e Sergio Moro foi considerado parcial no caso do tríplex, sem que a decisão sobre competência equivalha, isoladamente, a uma absolvição de mérito.
A candidatura de 2026 transforma essa trajetória em ativo eleitoral, mas a decisão dos eleitores dependerá principalmente do desempenho do terceiro governo, das condições econômicas e sociais, da credibilidade das propostas e da capacidade dos candidatos de responder aos desafios atuais. Os próximos passos incluem o registro formal da chapa, a análise pela Justiça Eleitoral, a definição completa das alianças e o início da propaganda em 16 de agosto, etapas que deverão permanecer sob acompanhamento jornalístico e institucional.








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