Neste sábado (12/09/2026), documentos apresentados à Polícia Federal pela produtora de “Dark Horse” revelaram gastos de R$ 10 mil com a locação de uma peruca para o ator Jim Caviezel, mais de R$ 700 mil em hospedagem no hotel Unique, em São Paulo, além de passagens, serviços de beleza e outros custos associados à produção do filme sobre Jair Bolsonaro. A investigação também enfrenta uma limitação documental: o produtor norte-americano Michael Brian Davis informou que não autoriza a entrega voluntária de registros mantidos nos Estados Unidos e condicionou o fornecimento a ordem de um juiz norte-americano e aos canais formais de cooperação jurídica internacional.
Documentos detalham despesas da produção
Os comprovantes foram encaminhados à PF em 04/09/2026 pela defesa da Go Up Entertainment e de sua representante legal no Brasil, Karina Ferreira da Gama.
Entre os gastos identificados estão R$ 10 mil pelo aluguel de uma peruca utilizada por Caviezel, intérprete de Jair Bolsonaro, e ao menos R$ 700 mil em hospedagem dele, de seu agente, seguranças e outros integrantes da produção no hotel Unique.
Uma passagem aérea de Caviezel foi registrada por R$ 54.332,46. Também constam despesas com serviços estéticos destinados a integrantes do elenco.
A existência de custos elevados não representa, por si só, qualquer irregularidade. O interesse investigativo decorre da necessidade de confrontar essas despesas com a origem e o caminho dos recursos utilizados para financiar o projeto.
PF busca reconstruir orçamento completo
A polícia solicitou informações sobre origem do dinheiro, contratos de profissionais estrangeiros, transporte, fornecedores, locações e hospedagem.
O objetivo é estabelecer quanto efetivamente custou o filme no Brasil e no exterior e quais fontes financiaram cada etapa.
Uma perícia privada apresentada pela produtora calculou R$ 20,9 milhões em custos no Brasil, enquanto a análise policial considera informações financeiras que apresentam composição diferente.
Produtor nos EUA condiciona entrega de documentos
Ao receber a solicitação encaminhada por Karina Gama, Michael Davis informou que, por orientação jurídica, não autorizaria o envio voluntário ao Brasil de documentos contábeis, fiscais e bancários da empresa mantidos nos Estados Unidos.
Davis afirmou que eventual entrega deveria observar mecanismos formais de cooperação internacional e depender de ordem judicial americana.
A posição não equivale juridicamente a uma recusa a cumprir ordem judicial brasileira com efeitos internacionais. Ela significa que o produtor exige o uso dos instrumentos formais previstos entre os dois países.
Lacuna americana pode ser decisiva
A ausência imediata de documentação dos Estados Unidos limita a capacidade de reconstruir integralmente a contabilidade da produção.
A investigação já possui elementos que apontam transferências internacionais e participação de agentes ligados ao projeto na administração dos valores fora do Brasil.
Sem os extratos, contratos e comprovantes americanos, entretanto, permanece incompleta a comparação entre valores enviados ao exterior e despesas efetivamente realizadas.
Gastos chamam atenção, mas foco é origem do dinheiro
Itens como peruca, hospedagem e serviços pessoais possuem forte apelo público, mas não são necessariamente o ponto central da investigação.
Do ponto de vista criminal e financeiro, as questões mais relevantes são a origem do dinheiro, a regularidade das remessas, os beneficiários efetivos, a correspondência entre despesas e documentos e a existência ou não de recursos públicos misturados aos aportes privados.
A investigação também deverá distinguir despesas normais de uma produção cinematográfica internacional de pagamentos eventualmente sem causa econômica comprovada.
Linha do tempo dos principais acontecimentos
- 2025 — “Dark Horse” é filmado com participação de profissionais brasileiros e estrangeiros.
- 04/09/2026 — Defesa da produtora entrega documentos financeiros e comprovantes à Polícia Federal.
- 04/09/2026 — Michael Davis informa que documentos mantidos nos EUA somente serão fornecidos mediante procedimentos jurídicos formais.
- 11/09/2026 — Mendonça amplia a retirada do sigilo de investigações do Caso Master, incluindo o núcleo de “Dark Horse”.
- 12/09/2026 — Tornam-se públicos detalhes de despesas com hospedagem, passagens, figurinos e serviços de produção.
A divulgação de despesas incomuns ou elevadas possui interesse jornalístico, mas a investigação não pode ser reduzida a itens de consumo capazes de produzir impacto visual. Uma produção cinematográfica internacional pode envolver custos altos sem que isso represente ilícito.
O problema investigativo começa quando não existe correspondência clara entre origem dos recursos, registros bancários, contratos e despesas. Nesse ponto, a documentação mantida nos Estados Unidos assume relevância decisiva.
A exigência de ordem judicial americana é compatível com disputas transnacionais envolvendo documentos empresariais. Se a PF considerar esse material indispensável, deverá recorrer aos mecanismos formais de cooperação jurídica.
Caberá, portanto, às autoridades brasileiras demonstrar se existe apenas uma contabilidade cinematográfica complexa ou se os fluxos escondem irregularidades financeiras. O acompanhamento deverá concentrar-se nos documentos de origem dos recursos, remessas ao exterior e beneficiários, e não apenas nos gastos de maior apelo público.








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