Nesta sexta-feira (18/09/2026), um dia após a Polícia Federal deflagrar a 10ª fase da Operação Overclean, um levantamento sobre contratos públicos voltou a colocar sob escrutínio a trajetória empresarial da Roble Serviços, pertencente a Marco André Queiroz Barral, primo do ex-secretário municipal de Educação de Salvador e de Belo Horizonte Bruno Oitaven Barral. Dados publicados pelo Metrópoles indicam que a empresa recebeu R$ 197,8 milhões da Prefeitura de Salvador entre 2013 e julho de 2019, durante a administração de ACM Neto, e contabilizou outros R$ 273,3 milhões em empenhos entre 2021 e 2026, já na gestão de Bruno Reis. A nova etapa da investigação federal, entretanto, concentra-se em contratações da Secretaria Municipal de Educação de Belo Horizonte, e, até o momento, o material oficial tornado público pela Polícia Federal não vincula os contratos da Roble em Salvador aos fatos investigados nessa fase da Overclean.
Roble recebeu R$ 197,8 milhões entre 2013 e julho de 2019
A Roble Serviços Ltda., registrada sob o CNPJ 05.874.949/0001-34 e constituída em 3 de setembro de 2003, tem Marco André Queiroz Barral relacionado como sócio-administrador em cadastro público federal. A empresa, portanto, já existia antes do início da administração de ACM Neto em Salvador, em janeiro de 2013.
Segundo levantamento originalmente publicado em 8 de julho de 2019 e retomado pelo Metrópoles em 17 de setembro de 2026, a Roble havia recebido aproximadamente R$ 197,8 milhões da administração municipal entre o começo de 2013 e julho de 2019. Os serviços abrangiam atividades como reformas em escolas e unidades de saúde, manutenção de pavimentação asfáltica, intervenções em escadarias e poda de árvores.
O dado ganha relevância pública porque o proprietário da companhia é primo de Bruno Barral, que integrou a administração municipal naquele período. Documentos oficiais mostram que Barral exerceu a direção-geral da área de iluminação pública entre 2015 e 2017 e assumiu a Secretaria Municipal de Educação de Salvador em 2017, permanecendo no comando da pasta até 2020.
Contratos antecedem a chegada de ACM Neto ao governo municipal
O histórico contratual, contudo, não começou na administração iniciada em 2013. No último ano do governo do então prefeito João Henrique, em 2012, a Roble recebeu aproximadamente R$ 6,7 milhões da Prefeitura de Salvador, segundo os levantamentos publicados sobre os contratos municipais.
A comparação entre os R$ 6,7 milhões de 2012 e os R$ 197,8 milhões acumulados entre 2013 e julho de 2019 evidencia uma ampliação expressiva da relação financeira da companhia com o município, mas os números não correspondem a períodos equivalentes. O primeiro representa um único exercício, enquanto o segundo compreende mais de seis anos. Por essa razão, os valores não permitem, isoladamente, calcular uma taxa anual comparável de crescimento.
Em manifestação publicada em 2019, a Prefeitura de Salvador afirmou que as empresas mencionadas naquele levantamento haviam sido contratadas por meio de procedimentos licitatórios e que algumas delas, inclusive a Roble, já prestavam serviços ao município antes de 2013. A administração sustentou ainda que as contratações observavam os princípios da legalidade, impessoalidade e competitividade e argumentou que prorrogações de contratos de manutenção poderiam decorrer da natureza continuada dos serviços e de critérios de economicidade.
Empenhos chegam a R$ 273,3 milhões entre 2021 e 2026
Na administração de Bruno Reis, iniciada em janeiro de 2021, a Roble continuou mantendo relações contratuais com o Município de Salvador. Segundo dados do Portal da Transparência reunidos pelo Metrópoles, foram contabilizados R$ 273,3 milhões em empenhos entre 2021 e 2026.
Somados nominalmente aos R$ 197,8 milhões referentes ao período de 2013 a julho de 2019, os números ultrapassam R$ 471 milhões. Essa soma, entretanto, exige uma ressalva contábil fundamental: os levantamentos disponíveis utilizam categorias distintas.
O valor referente ao período da administração ACM Neto foi apresentado nas reportagens históricas como recursos recebidos ou faturados, enquanto a cifra de R$ 273,3 milhões relativa a 2021-2026 é identificada como empenhos. No orçamento público, o empenho representa a reserva da dotação para uma obrigação assumida pelo poder público e não significa necessariamente que o montante tenha sido integralmente liquidado e pago.
Assim, a expressão “mais de R$ 471 milhões” é útil para dimensionar o volume financeiro associado à relação contratual ao longo dos dois períodos, mas não deve ser interpretada automaticamente como valor efetivamente pago em bases contábeis idênticas. Uma comparação definitiva exigiria a consolidação dos contratos, empenhos, liquidações, pagamentos, eventuais anulações e aditivos, exercício por exercício.
Bruno Barral passou da Prefeitura de Salvador para a Educação de Belo Horizonte
A trajetória de Bruno Oitaven Barral conecta administrativamente Salvador e Belo Horizonte. Engenheiro eletricista formado pela Universidade Federal da Bahia (UFBA), ele exerceu funções de direção na Prefeitura de Salvador antes de assumir a Secretaria Municipal de Educação, cargo que ocupou entre 2017 e 2020.
Posteriormente, Barral assumiu a Secretaria Municipal de Educação de Belo Horizonte. Foi nessa etapa da carreira que passou a figurar diretamente nas investigações da Operação Overclean, desencadeada originalmente em dezembro de 2024 e conduzida pela Polícia Federal em cooperação com outros órgãos de controle e persecução penal.
Em 3 de abril de 2025, durante a terceira fase da operação, Barral foi alvo de mandado de busca e afastado do cargo por determinação judicial. A medida cautelar não representa condenação nem declaração de responsabilidade criminal, mas marcou sua entrada formal entre os investigados alcançados pelas diligências da Overclean.
Décima fase investiga contratos de mais de R$ 80 milhões em Belo Horizonte
Na manhã de quinta-feira (17/09/2026), a Polícia Federal deflagrou a 10ª fase da Operação Overclean para aprofundar suspeitas de irregularidades em processos de contratação realizados por uma secretaria municipal de Belo Horizonte nos anos de 2024 e 2025.
De acordo com a PF, existem indícios de direcionamento de procedimentos destinados à contratação de serviços e à aquisição de materiais didáticos. Ao menos três procedimentos investigados resultaram em contratos que, somados, ultrapassam R$ 80 milhões. Outros processos de contratação também são examinados.
Foram cumpridos 24 mandados de busca e apreensão em Minas Gerais, Bahia, São Paulo, Tocantins, Paraná e Espírito Santo. Os fatos são investigados, conforme a corporação, sob possíveis enquadramentos relacionados a crimes contra a administração pública, fraude em licitações e contratos, organização criminosa e lavagem de dinheiro. A existência da investigação não equivale a condenação, e a responsabilização de cada envolvido depende da produção de provas e das decisões das autoridades competentes.
Reportagens sobre a operação identificaram Bruno Barral novamente entre os alvos da etapa. Também foram mencionados Alex Parente e o empresário José Marcos de Moura, conhecido como “Rei do Lixo”, em apurações relacionadas às contratações examinadas em Belo Horizonte.
PF pediu busca contra ACM Neto, mas medida foi negada pelo STF
A investigação ganhou dimensão política adicional porque a Polícia Federal solicitou autorização judicial para realizar busca e apreensão contra ACM Neto. A Procuradoria-Geral da República (PGR) manifestou-se favoravelmente à diligência, mas o ministro Kassio Nunes Marques, do Supremo Tribunal Federal, não autorizou a medida por considerar insuficientes os fundamentos apresentados para justificar a busca.
Segundo reportagens que tiveram acesso aos elementos do procedimento, investigadores examinam a hipótese de participação de ACM Neto em articulações relacionadas à indicação de integrantes da administração de Belo Horizonte e à aproximação com empresários posteriormente alcançados pela apuração. Trata-se de uma linha investigativa atribuída à Polícia Federal, não de uma conclusão judicial nem de fato estabelecido por sentença.
ACM Neto negou qualquer envolvimento e afirmou não possuir “nenhuma relação com qualquer dos fatos que estão sendo investigados”. Também atribuiu a divulgação do episódio ao contexto político-eleitoral. A negativa da busca pelo STF significa que a diligência específica não foi autorizada nos termos apresentados, mas não corresponde, juridicamente, a julgamento definitivo sobre os fatos investigados.
Contratos da Roble em Salvador não aparecem no objeto oficial da décima fase
A proximidade familiar entre Marco André Barral, proprietário da Roble, e Bruno Barral, investigado na Overclean, constitui informação relevante para a transparência das relações entre agentes públicos e fornecedores do Estado. Isoladamente, porém, parentesco não constitui evidência de irregularidade, direcionamento de contrato ou participação em organização criminosa.
O comunicado oficial da Polícia Federal sobre a 10ª fase delimita a investigação a processos de contratação ocorridos em Belo Horizonte nos anos de 2024 e 2025. No material público consultado até 18/09/2026, a corporação não relacionou a Roble Serviços, seus contratos com Salvador ou Marco André Queiroz Barral ao objeto dessa etapa da operação.
Essa distinção é essencial. O levantamento sobre os milhões de reais destinados ou empenhados à Roble em Salvador e a investigação federal que alcança Bruno Barral em Belo Horizonte são fatos que se cruzam pela relação familiar e pela trajetória do ex-secretário, mas não podem ser fundidos em uma acusação única sem documentação que estabeleça conexão material entre eles.
Até a publicação das informações consultadas, também não havia sido localizada manifestação específica de Marco André Barral ou da Roble sobre a nova reportagem de 2026. Em 2019, quando os contratos da empresa com Salvador foram objeto de reportagem, a administração municipal defendeu a regularidade das licitações e ressaltou que a companhia já prestava serviços ao município antes da chegada de ACM Neto à prefeitura.
Prefeitura de Belo Horizonte diz estar à disposição das autoridades
Após a nova operação, a atual Secretaria Municipal de Educação de Belo Horizonte informou que, até então, não havia recebido solicitações relacionadas à investigação, mas declarou estar à disposição das autoridades e reafirmou compromisso com transparência e correta utilização dos recursos públicos.
A manifestação institucional não responde às condutas atribuídas individualmente aos investigados durante períodos anteriores, mas delimita a posição da administração municipal diante da operação em curso.
As investigações deverão esclarecer, entre outros aspectos, como foram estruturados os procedimentos de contratação, quais agentes participaram das decisões administrativas, se houve direcionamento das licitações, como teriam ocorrido eventuais vantagens indevidas e quais empresas ou intermediários se beneficiaram de possíveis irregularidades.
Overclean começou em 2024 com investigação sobre contratos e emendas parlamentares
A Operação Overclean foi deflagrada em 10 de dezembro de 2024 em ação conjunta da Polícia Federal, Ministério Público Federal, Receita Federal e Controladoria-Geral da União, com cooperação internacional. A investigação inicial mirava suspeitas de fraude em licitações, corrupção, desvio de recursos e lavagem de dinheiro envolvendo contratos públicos, inclusive no Departamento Nacional de Obras Contra as Secas (DNOCS).
Segundo a Receita Federal, a organização investigada teria movimentado aproximadamente R$ 1,4 bilhão no período analisado, enquanto contratos firmados somente em 2024 alcançavam aproximadamente R$ 825 milhões. Esses números se referem à movimentação financeira e aos contratos relacionados ao universo investigado e não representam, por si mesmos, valores comprovadamente desviados.
Na primeira fase, foram autorizados 42 mandados de busca e apreensão, 17 prisões preventivas, afastamentos de servidores e medidas de bloqueio patrimonial superiores a R$ 162 milhões, além da apreensão ou constrição de bens. Desde então, a operação avançou em sucessivas etapas sobre diferentes contratos, agentes públicos, empresários e estruturas empresariais.
Processo no Cade é distinto da Operação Overclean
Há ainda um antecedente administrativo independente envolvendo a Roble. Em 29 de julho de 2022, a Superintendência-Geral do Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade) instaurou processo administrativo para investigar possíveis infrações à ordem econômica em licitações, relacionando a Roble Serviços e Marco André Queiroz Barral entre diversos representados.
Despacho publicado em abril de 2025 mostra que o procedimento ainda passava por atos de instrução naquele momento. Nas fontes públicas localizadas para esta reportagem não foi identificada decisão final posterior que permita atribuir responsabilidade à empresa ou ao empresário nesse processo.
O processo do Cade é autônomo e distinto da Operação Overclean. A presença dos mesmos nomes em procedimentos diferentes não permite concluir que exista conexão probatória entre as duas apurações sem documento oficial que estabeleça essa relação.
Valores exigem comparação contábil detalhada
A dimensão financeira dos contratos da Roble constitui um dos principais pontos que ainda demandam aprofundamento documental. Os R$ 197,8 milhões relativos a 2013-julho de 2019 e os R$ 273,3 milhões em empenhos registrados entre 2021 e 2026 abrangem períodos extensos, diferentes contratos e, sobretudo, classificações contábeis que não são idênticas.
Uma avaliação completa exigiria identificar, contrato por contrato, o objeto licitado, valor original, modalidade da licitação, empresas concorrentes, aditivos, prazo inicial e final, empenhos, liquidações, pagamentos realizados, cancelamentos e fiscalização da execução. Também seria necessário verificar se houve concentração dos pagamentos em determinadas secretarias ou períodos.
Esses dados permitiriam responder de maneira objetiva se o crescimento financeiro decorreu de aumento no número de contratos, ampliação dos serviços contratados, aditivos, reajustes, novas licitações ou combinação desses fatores. Sem essa decomposição, o volume acumulado oferece um indicador de escala, mas não constitui prova de irregularidade.
Linha do tempo dos principais acontecimentos
- 2012 — Salvador: no último ano da administração de João Henrique, a Roble recebeu aproximadamente R$ 6,7 milhões da Prefeitura de Salvador. O dado demonstra que a relação contratual da empresa com o município antecede o governo ACM Neto.
- 2013 a julho de 2019 — Gestão ACM Neto: a Roble registra aproximadamente R$ 197,8 milhões em recursos provenientes da Prefeitura de Salvador, em contratos relacionados a obras, manutenção, pavimentação, reformas e serviços urbanos.
- 2015 a 2017 — Salvador: Bruno Barral atua na direção-geral da área de iluminação pública da Prefeitura.
- 2017 a 2020 — Salvador: Barral assume a Secretaria Municipal de Educação, durante o governo ACM Neto.
- 8 de julho de 2019 — Contratos ganham repercussão pública: reportagem sobre fornecedores ligados por relações familiares ou políticas a integrantes da administração municipal informa que a Roble havia recebido R$ 197,8 milhões desde 2013. A Prefeitura sustenta a regularidade das licitações.
- 2021 a 2026 — Gestão Bruno Reis: dados reunidos do Portal da Transparência apontam R$ 273,3 milhões em empenhos para a Roble. Por se tratar de empenhos, o valor não deve ser automaticamente tratado como pagamento efetivamente realizado.
- 29 de julho de 2022 — Cade: processo administrativo é instaurado para apurar possíveis infrações concorrenciais em licitações, incluindo a Roble e Marco André entre diversos representados. Trata-se de procedimento distinto da Overclean.
- 10 de dezembro de 2024 — Operação Overclean: Polícia Federal e órgãos parceiros deflagram a primeira fase da investigação sobre suspeitas de fraudes em contratos públicos, corrupção e lavagem de dinheiro.
- 3 de abril de 2025 — Terceira fase: Bruno Barral é alvo de busca e afastado da Secretaria Municipal de Educação de Belo Horizonte por determinação judicial.
- 17 de setembro de 2026 — Décima fase: a Polícia Federal cumpre 24 mandados de busca e apreensão em seis estados para investigar processos de contratação da Educação de Belo Horizonte em 2024 e 2025. Três procedimentos resultaram em contratos que superam R$ 80 milhões.
- 17 de setembro de 2026 — Pedido envolvendo ACM Neto: torna-se público que a PF pediu busca contra ACM Neto, com parecer favorável da PGR, mas a medida foi negada pelo ministro Kassio Nunes Marques. ACM Neto nega relação com os fatos investigados.
O interesse público do episódio decorre da convergência de três elementos que precisam permanecer juridicamente separados: o elevado volume financeiro dos contratos de uma empresa fornecedora da Prefeitura de Salvador; o vínculo familiar entre seu proprietário e um ex-integrante de primeiro escalão das administrações municipais; e uma investigação federal que, anos depois, alcançou esse ex-secretário por fatos relacionados à sua atuação em outra capital. O parentesco é relevante para a análise de transparência e prevenção de conflitos de interesse, mas não constitui, isoladamente, indício suficiente de ilegalidade nos contratos da Roble.
Também é necessário rigor ao interpretar os valores. A cifra superior a R$ 471 milhões resulta da agregação de R$ 197,8 milhões apresentados como recursos recebidos ou faturados entre 2013 e julho de 2019 com R$ 273,3 milhões em empenhos entre 2021 e 2026. Como as categorias e os períodos são diferentes, apenas a abertura integral dos dados de execução orçamentária e dos processos licitatórios poderá determinar quanto foi efetivamente contratado, liquidado e pago e em quais condições.
No campo criminal, o dado comprovado até agora é que a 10ª fase da Overclean examina contratações realizadas em Belo Horizonte e que Bruno Barral voltou a ser alcançado pela investigação. A PF chegou a requerer uma busca contra ACM Neto, com parecer favorável da PGR, mas o STF não autorizou a medida. Esses atos processuais representam estágios de uma investigação: nem a formulação de suspeitas pela polícia equivale a condenação, nem a negativa de uma diligência específica corresponde a absolvição sobre fatos que ainda estejam sob apuração.
Os próximos desdobramentos relevantes dependerão da Polícia Federal, PGR, STF, Prefeitura de Belo Horizonte, Prefeitura de Salvador, órgãos de controle e das manifestações das pessoas e empresas citadas. Para o escrutínio público dos contratos da Roble, será determinante confrontar contratos, licitações, aditivos, empenhos, liquidações e pagamentos em bases comparáveis. Para a Overclean, o ponto decisivo será a produção de provas capazes de individualizar condutas e estabelecer — ou afastar — conexões entre agentes públicos, empresários e os procedimentos de contratação investigados.








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