Brasileiros na Argentina alertam para efeitos do ajuste de Milei e levam “tesouraço” de Flávio Bolsonaro ao centro do debate eleitoral

Neste sábado (17/10/2026), a uma semana do segundo turno presidencial brasileiro, marcado para 25/10/2026, uma mobilização organizada por brasileiros residentes na Argentina ampliou nas redes sociais o debate sobre as consequências econômicas e sociais do programa de ajuste conduzido pelo presidente Javier Milei e sua eventual relação com propostas apresentadas pelo candidato Flávio Bolsonaro (PL). Batizada de “Eu venho do futuro”, a campanha reúne depoimentos sobre pobreza, emprego, aposentadorias e redução do Estado argentino. A comparação ganhou relevância porque o plano de governo de Flávio registrado no Tribunal Superior Eleitoral (TSE) adota a expressão “Tesouraço”, propõe corte de ministérios, reforma administrativa, retomada do Programa Nacional de Desestatização e uma política de redução da dívida pública. A experiência argentina, entretanto, apresenta resultados contraditórios: a inflação mensal caiu para 1,9% em setembro e o governo mantém superávit fiscal, enquanto a pobreza voltou a subir para 32,3%, o desemprego chegou a 7,9% e a atividade econômica apresentou sinais recentes de enfraquecimento.

Campanha “Eu venho do futuro” transforma experiência argentina em argumento no segundo turno

A mobilização começou a ganhar projeção depois do primeiro turno da eleição brasileira, realizado em 04/10/2026, quando Flávio Bolsonaro recebeu 56.104.268 votos, ou 47,03% dos votos válidos, e o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) obteve 53.876.617 votos, equivalentes a 45,16%. Como nenhum candidato ultrapassou metade dos votos válidos, ambos avançaram para a votação decisiva de 25 de outubro.

Reportagem da RFI, publicada neste sábado e reproduzida pelo UOL, descreve uma rede de brasileiros e argentinos que passou a produzir e compartilhar vídeos, organizar caronas, oferecer hospedagem e ajudar na edição de conteúdos destinados às redes sociais. A campanha utiliza experiências pessoais de residentes no país para advertir eleitores brasileiros sobre efeitos associados ao ajuste fiscal argentino.

Um dos depoimentos de maior repercussão partiu da psiquiatra brasileira Isla Montalier, residente na Argentina há cerca de 15 anos. Segundo ela, o objetivo inicial era relatar situações observadas no cotidiano e entre pacientes. À RFI, afirmou que o vídeo surgiu da “necessidade de informar os brasileiros sobre a realidade argentina”. De acordo com os números informados na reportagem, a publicação ultrapassou 1 milhão de visualizações, alcançando dezenas de milhares de interações e compartilhamentos.

A reportagem registra ainda a participação do Núcleo do PT na Argentina. Mayara dos Santos, integrante da organização, sustenta que a mobilização nasceu de forma espontânea a partir de experiências individuais. Essa caracterização deve ser corretamente atribuída: embora a campanha reúna residentes sem vínculo partidário declarado e argentinos que oferecem apoio logístico, parte da articulação relatada ocorre em ambiente eleitoral e possui participação explícita de militantes favoráveis à candidatura de Lula.

Portanto, os depoimentos constituem material político e testemunhal relevante, mas não substituem indicadores estatísticos. A avaliação dos efeitos do chamado “modelo Milei” exige confrontar os relatos com os números oficiais da economia argentina.

Milei e Flávio Bolsonaro possuem aproximação política

A associação entre os dois políticos não nasceu com a campanha digital. Em 25/07/2026, Javier Milei participou da convenção nacional do Partido Liberal, em São Paulo, na qual Flávio Bolsonaro foi oficializado candidato à Presidência. Na ocasião, o presidente argentino declarou apoio público ao senador brasileiro. A presença de um chefe de Estado estrangeiro em uma convenção partidária brasileira foi considerada um gesto político incomum e evidenciou a proximidade entre o libertário argentino e o bolsonarismo.

A relação, portanto, possui dimensão política objetiva. No campo econômico também existem convergências importantes: redução das dimensões administrativas do Estado, revisão de gastos, desregulamentação, privatizações ou desestatizações, busca por equilíbrio fiscal e redução da carga tributária aparecem, com formatos distintos, nos discursos ou programas dos dois grupos.

Isso não significa, contudo, que os programas sejam idênticos ou que uma eventual administração Flávio Bolsonaro necessariamente reproduziria os resultados argentinos. Os países apresentam estruturas fiscais, institucionais, monetárias, demográficas e produtivas diferentes. Além disso, o documento registrado pelo candidato brasileiro no TSE não apresenta uma reprodução integral do programa econômico argentino.

A correlação mais sólida está, portanto, em três dimensões verificáveis: a aliança política entre Flávio e Milei; a defesa de um forte ajuste do Estado; e o uso de uma linguagem política que associa redução do gasto público a uma mudança estrutural de governo.

“Tesouraço” está registrado oficialmente no programa de Flávio Bolsonaro

A expressão utilizada pela candidatura não é apenas retórica de campanha. O plano de governo 2027–2030 de Flávio Bolsonaro, disponível no TSE, contém uma seção específica intitulada “Tesouraço”.

O documento define a proposta como “um grande TESOURAÇO: um corte profundo e por todos os lados” e afirma que o objetivo seria enxugar a máquina pública, reorganizar as contas e reduzir impostos.

Na sequência, o plano propõe uma reforma administrativa, ampla revisão de normas, redução de cargos comissionados e despesas administrativas e o corte de no mínimo dez ministérios.

Outro ponto formalmente registrado é a intenção de retomar o Programa Nacional de Desestatização, com análise caso a caso das empresas nas quais, segundo o texto, a presença do Estado deixaria de fazer sentido.

Na política fiscal, a proposta prevê reformulação das regras atuais, geração de superávits primários, controle das despesas discricionárias e redução da relação entre dívida pública e PIB. O objetivo declarado é produzir condições para juros e inflação menores.

A página temática do TSE confirma entre as propostas oficiais os itens “Tesouraço”, “Corte de Ministérios”, “Programa Nacional de Desestatização”, “Reforma Administrativa”, “Revogaço regulatório”, “Reformulação das regras fiscais” e redução de impostos. O mesmo programa também registra expressamente a manutenção de programas sociais, elemento que impede atribuir automaticamente à candidatura a intenção de eliminar a rede de proteção social.

Quanto Flávio pretende cortar ainda é uma questão parcialmente aberta

A dimensão exata do ajuste permanece menos definida do que sua direção geral.

A Reuters informou que a equipe de Flávio trabalha com uma melhora do resultado primário equivalente a aproximadamente 1,5% do PIB em 18 meses, mas observou que a candidatura ainda não apresentou publicamente todos os instrumentos necessários para atingir o objetivo. O problema é relevante porque grande parte do Orçamento brasileiro está vinculada a despesas obrigatórias, reduzindo o espaço para um ajuste realizado exclusivamente sobre custeio administrativo.

Reportagem do Jornal Grande Bahia (JGB) publicada em 11/10/2026 analisou estudos atribuídos a integrantes da equipe econômica que chegaram a considerar um ajuste de até R$ 250 bilhões, incluindo hipóteses envolvendo INSS, BPC e pisos de saúde e educação. A própria candidatura, entretanto, afirmou que essas alternativas não integram o programa oficial registrado no TSE e sustentou que pretende preservar políticas sociais.

Neste 17/10/2026, Flávio Bolsonaro voltou a defender um ajuste fiscal para conter a expansão da dívida pública, mas rejeitou publicamente a hipótese de cortar gastos sociais sensíveis. Há, portanto, uma distinção que precisa ser preservada jornalisticamente entre o programa oficial, estudos associados a integrantes da equipe econômica e declarações posteriores do candidato.

A principal lacuna permanece sendo a composição quantitativa do ajuste: quanto viria de redução administrativa, quanto dependeria de reformas estruturais, quanto resultaria de revisão de benefícios tributários, quanto envolveria investimentos públicos e quais despesas obrigatórias seriam efetivamente alteradas.

O que os dados oficiais mostram sobre a Argentina de Milei

A experiência argentina não pode ser resumida exclusivamente como fracasso econômico, assim como os avanços na estabilização macroeconômica não eliminam os custos sociais registrados durante o processo.

Essa distinção é central para avaliar a campanha “Eu venho do futuro”.

Inflação caiu fortemente, mas permanece elevada em termos anuais

A redução da inflação constitui um dos resultados mais importantes obtidos pelo governo Milei.

Segundo o Instituto Nacional de Estatística e Censos (INDEC), o índice de preços ao consumidor avançou 1,9% em setembro de 2026 frente ao mês anterior. A inflação acumulada em 12 meses ficou em 33,4%, enquanto a variação acumulada entre janeiro e setembro alcançou 23,6%.

Os índices permanecem elevados em padrões internacionais, mas representam desaceleração substancial diante da inflação de três dígitos observada no começo do governo Milei.

Esse resultado limita uma interpretação segundo a qual todas as dimensões do programa econômico teriam fracassado. A política de estabilização efetivamente produziu desinflação.

Governo mantém superávit fiscal

O equilíbrio das contas públicas também constitui um resultado objetivo da política argentina.

Dados divulgados pelo Ministério da Economia em 16/10/2026 mostram que o setor público nacional obteve, somente em setembro, superávit financeiro de 977,173 bilhões de pesos argentinos e resultado primário positivo de 1,427 trilhão de pesos.

Entre janeiro e setembro, o superávit financeiro acumulado ficou em aproximadamente 0,3% do PIB, enquanto o superávit primário alcançou cerca de 1,2% do PIB.

A combinação de ajuste fiscal e desaceleração inflacionária representa o principal argumento do governo Milei para defender sua estratégia.

O debate, porém, muda quando são examinados emprego, renda, pobreza e atividade econômica.

Principais efeitos adversos associados ao ciclo de ajuste argentino

Pobreza voltou a subir em 2026

O dado social mais recente do INDEC mostra que 32,3% da população dos 31 aglomerados urbanos pesquisados estava abaixo da linha de pobreza no primeiro semestre de 2026. Entre os domicílios, o índice chegou a 24,4%.

A indigência atingiu 7,5% das pessoas e 5,6% dos domicílios.

A trajetória exige contextualização. No primeiro semestre de 2024, durante a fase inicial e mais severa do ajuste, a pobreza chegou a superar 50%. Depois, acompanhando a desaceleração inflacionária e alguma recuperação de renda, recuou progressivamente até 28,2% no segundo semestre de 2025.

No primeiro semestre de 2026, porém, ocorreu uma reversão: o índice passou de 28,2% para 32,3%, aumento de 4,1 pontos percentuais. Foi a primeira elevação desde o início da sequência de queda observada durante o governo Milei.

A conclusão precisa ser dupla. O governo conseguiu reduzir significativamente a pobreza em relação ao pico de 2024, mas a melhora perdeu força e se reverteu parcialmente em 2026.

Desemprego alcança 7,9% e emprego privado perde dinamismo

O mercado de trabalho é outro ponto de preocupação.

No segundo trimestre de 2026, a taxa oficial de desemprego alcançou 7,9%, enquanto a taxa de emprego ficou em 45% e a taxa de participação da força de trabalho em 48,9%, segundo o INDEC.

A Reuters informou ainda que o emprego privado vinha diminuindo havia mais de um ano quando o novo dado de pobreza foi divulgado. A combinação entre desemprego, menor geração de postos formais e pressão sobre a renda ajuda a explicar por que a redução da inflação deixou de produzir, sozinha, a mesma velocidade de melhora social observada anteriormente.

Esse é um dos aspectos economicamente mais relevantes para o debate brasileiro: estabilizar preços e equilibrar o orçamento não garante automaticamente crescimento do emprego ou aumento imediato da renda disponível das famílias.

Economia mantém crescimento anual, mas registra retração na margem

O Produto Interno Bruto argentino cresceu 2% no segundo trimestre de 2026 em relação ao mesmo período de 2025. Na comparação dessazonalizada com o primeiro trimestre, entretanto, houve queda de 0,6%.

Em julho, o indicador mensal de atividade econômica caiu 1,4% em relação a julho de 2025 e 2,9% na comparação dessazonalizada com junho. As vendas reais em supermercados diminuíram 2,1% em relação ao mesmo mês do ano anterior.

Portanto, os números não descrevem uma recessão contínua desde o início do governo Milei. Revelam algo mais complexo: houve recuperação depois da forte contração inicial, mas 2026 voltou a apresentar sinais de desaceleração e perda de fôlego em segmentos importantes da demanda interna.

Redução do Estado atingiu dezenas de milhares de empregos públicos

O governo argentino também executou uma redução administrativa muito superior ao que normalmente ocorre em reformas graduais.

No primeiro ano do programa, o número de ministérios foi reduzido de 18 para oito, enquanto o emprego no setor público diminuiu aproximadamente 10%, equivalente a cerca de 40 mil postos, segundo levantamento da Reuters publicado em fevereiro de 2025.

O governo argentino apresentou a medida como ganho de eficiência e redução de estruturas consideradas excessivas. Documento oficial publicado em março de 2025 informou ainda redução de 35% dos cargos superiores da administração central.

O efeito econômico possui duas dimensões. Cortes permanentes reduzem gastos públicos e ajudam o resultado fiscal; ao mesmo tempo, desligamentos concentrados em curto período retiram renda de trabalhadores e podem pressionar consumo e emprego nas áreas atingidas.

Aposentados estiveram entre os grupos expostos ao ajuste

Os aposentados tornaram-se um dos focos mais visíveis das tensões sociais argentinas.

Em reportagem de 2025, a Reuters registrou manifestações semanais de pensionistas e citou estimativa do economista Enrique Dentice segundo a qual o poder de compra dos aposentados havia caído 23% desde a posse de Milei. O cálculo é uma estimativa do economista citado pela agência, e não uma estatística oficial do INDEC.

O governo também reduziu subsídios de energia e transporte e vetou, em agosto de 2025, uma ampliação de benefícios previdenciários aprovada pelo Congresso, argumentando que a medida ameaçaria o equilíbrio fiscal.

Esses episódios ajudam a compreender por que aposentadorias e políticas sociais ocupam espaço destacado na campanha digital dos brasileiros residentes no país.

O paralelo com Flávio Bolsonaro: convergências existem, mas resultados não podem ser automaticamente transplantados

O paralelo entre Milei e Flávio Bolsonaro possui fundamento quando examinado como orientação política e fiscal.

Milei construiu sua identidade política em torno da motosserra, símbolo da redução do Estado. Flávio utiliza oficialmente a expressão “Tesouraço”. O argentino reduziu ministérios; o brasileiro propõe cortar ao menos dez. O governo Milei avançou em privatizações e desregulamentação; o plano do candidato do PL promete retomar o Programa Nacional de Desestatização e executar um revogaço regulatório. Ambos associam equilíbrio fiscal à possibilidade de redução futura de juros e inflação.

Existe ainda o vínculo político direto, materializado no apoio de Milei à candidatura de Flávio durante a convenção do PL em julho.

Mas há limites importantes.

O programa brasileiro registrado no TSE prevê manutenção de programas sociais, enquanto Flávio afirmou durante o segundo turno que não pretende executar cortes em gastos sociais politicamente sensíveis. A candidatura também não propõe, no documento oficial, reproduzir integralmente as reformas monetárias, cambiais ou institucionais adotadas pela Argentina.

Consequentemente, afirmar que o Brasil necessariamente teria os mesmos índices de pobreza, desemprego ou retração observados na Argentina seria extrapolação sem base documental.

A questão jornalisticamente relevante é outra: qual seria a distribuição do custo de um ajuste fiscal brasileiro da magnitude anunciada?

Onde estariam os principais riscos econômicos e sociais no Brasil

A experiência argentina oferece elementos para avaliar riscos, mas não permite prever resultados automaticamente.

O primeiro risco seria um ajuste excessivamente concentrado no curto prazo. Se reduções relevantes de despesas recaíssem sobre investimentos, transferências, remunerações ou benefícios de forte impacto sobre o consumo, poderiam ocorrer efeitos contracionistas semelhantes aos observados em determinados momentos da experiência argentina. O tamanho do efeito dependeria da composição das medidas e da reação de investimento privado, juros, câmbio e confiança.

O segundo é o mercado de trabalho. Reduções amplas do emprego público podem produzir economia fiscal permanente, mas também significam redução imediata da massa salarial. A Argentina demonstra que esse processo pode ocorrer simultaneamente ao aumento do desemprego e da informalidade, embora não seja possível atribuir toda a evolução laboral exclusivamente aos cortes do Estado.

O terceiro ponto são aposentadorias e benefícios sociais. Trata-se justamente da área na qual a candidatura brasileira passou a negar intenção de promover cortes. A controvérsia existe porque estudos atribuídos a integrantes da equipe econômica avaliaram alterações que alcançariam INSS e BPC, enquanto essas propostas não constam do programa oficial e foram rejeitadas pela campanha como medidas formalmente adotadas.

Há ainda o risco de redução de investimentos e capacidade de prestação de serviços públicos caso um ajuste muito rápido dependa das despesas discricionárias. A rigidez do Orçamento brasileiro torna esse problema particularmente relevante: segundo análise da Reuters, a maior parte das despesas federais está comprometida com obrigações legais, deixando espaço relativamente reduzido para cortes livres.

Por outro lado, ignorar a situação fiscal também possui custos potenciais. Dívida crescente pode pressionar juros, restringir investimentos e limitar a capacidade futura do Estado. Por isso, o debate tecnicamente relevante não é simplesmente “ajuste ou não ajuste”, mas qual ajuste, em que velocidade, sobre quais despesas e com quais mecanismos de proteção social e investimento.

Campanha argentina mistura testemunho, militância e dados verificáveis

A campanha “Eu venho do futuro” alcança repercussão porque transforma indicadores macroeconômicos abstratos em relatos cotidianos sobre aluguel, emprego, aposentadoria, alimentação e atendimento social.

Sua natureza eleitoral, entretanto, precisa permanecer explícita. Parte dos participantes está mobilizada contra Flávio Bolsonaro e em favor de Lula. Isso significa que as afirmações políticas produzidas pela campanha devem ser tratadas como posicionamentos de seus autores, submetidos à verificação independente.

Por exemplo, caracterizar todo o programa Milei simplesmente como um fracasso não é compatível com o conjunto dos dados: a inflação foi reduzida significativamente e o país acumulou superávits fiscais.

Da mesma forma, apresentar o processo apenas como um caso de sucesso econômico elimina elementos igualmente verificáveis: a pobreza voltou a 32,3%, o desemprego chegou a 7,9%, aposentados sofreram perda relevante de poder aquisitivo em fases do ajuste e a atividade econômica apresentou nova desaceleração em 2026.

A experiência argentina, portanto, oferece menos uma resposta pronta e mais uma demonstração dos trade-offs de um programa de estabilização baseado em forte compressão fiscal.

Linha do tempo dos principais acontecimentos

  • Primeiro semestre de 2024 — Durante a fase inicial do ajuste de Javier Milei, a pobreza argentina ultrapassa 50% da população; posteriormente, o indicador inicia trajetória de redução.
  • Fevereiro de 2025 — Levantamento da Reuters registra redução dos ministérios argentinos de 18 para oito e aproximadamente 40 mil empregos públicos eliminados no primeiro ano de reestruturação estatal.
  • 2025 — A inflação desacelera, a economia recupera parte das perdas e a pobreza recua para 28,2% no segundo semestre, enquanto permanecem conflitos relacionados a aposentadorias, subsídios e gasto público.
  • 25/07/2026 — Javier Milei participa da convenção nacional do PL em São Paulo e declara apoio público à candidatura presidencial de Flávio Bolsonaro.
  • 17/09/2026 — INDEC divulga desemprego de 7,9% no segundo trimestre; no mesmo período, o PIB cresce 2% ante 2025, mas recua 0,6% frente ao trimestre anterior.
  • 24/09/2026 — Pobreza argentina é calculada em 32,3% no primeiro semestre, contra 28,2% no semestre anterior; indigência alcança 7,5%.
  • 04/10/2026 — Flávio Bolsonaro obtém 47,03% dos votos válidos no primeiro turno brasileiro e Lula registra 45,16%; ambos avançam ao segundo turno.
  • 11/10/2026 — Estudos atribuídos à equipe econômica de Flávio passam a ser discutidos publicamente com hipóteses de ajuste de até R$ 250 bilhões; a candidatura afirma que medidas sobre INSS, BPC, saúde e educação analisadas nesses estudos não fazem parte do programa oficial.
  • 13/10/2026 — INDEC informa inflação argentina de 1,9% em setembro, com 33,4% em 12 meses.
  • 16/10/2026 — Ministério da Economia argentino informa superávit financeiro acumulado em torno de 0,3% do PIB nos nove primeiros meses de 2026 e superávit primário de aproximadamente 1,2% do PIB.
  • 17/10/2026 — A campanha digital “Eu venho do futuro” ganha repercussão no Brasil com relatos de brasileiros residentes na Argentina; Flávio Bolsonaro reafirma o ajuste fiscal, mas rejeita cortes em programas sociais sensíveis.
  • 25/10/2026 — Data marcada pelo TSE para o segundo turno da eleição presidencial brasileira entre Flávio Bolsonaro e Lula.

A campanha dos brasileiros na Argentina introduz no segundo turno uma questão legítima de política econômica: quem suportará o custo de um ajuste fiscal rápido no Brasil? A aproximação entre Milei e Flávio Bolsonaro está documentada politicamente, e há convergências programáticas relevantes em redução da estrutura estatal, desestatização, desregulamentação e disciplina fiscal. Isso, contudo, não autoriza concluir que os dois programas sejam equivalentes ou que os resultados argentinos se repetiriam mecanicamente no Brasil.

Os fatos confirmados mostram uma Argentina de resultados mistos. Milei conseguiu produzir superávits fiscais e uma redução expressiva da inflação. Ao mesmo tempo, o país registrou forte aumento inicial da pobreza, perdas para grupos como aposentados, ampla redução da máquina estatal e, mais recentemente, nova elevação da pobreza, desemprego de 7,9% e perda de dinamismo econômico. A interpretação de que esses custos invalidam integralmente o programa é uma avaliação política; a interpretação de que a estabilização fiscal eliminou seus efeitos sociais adversos também não encontra respaldo nos indicadores disponíveis.

No caso de Flávio Bolsonaro, permanece uma lacuna documental decisiva entre a magnitude do ajuste anunciado e o detalhamento das medidas capazes de produzi-lo. O programa oficial prevê corte de pelo menos dez ministérios, reforma administrativa, retomada das desestatizações e novas regras fiscais, mas simultaneamente promete preservar programas sociais. Estudos mais amplos atribuídos à equipe econômica foram tratados pela campanha como hipóteses, e o candidato voltou a rejeitar cortes sociais neste sábado. Até que a distribuição quantitativa do ajuste seja apresentada, projeções sobre consequências específicas para INSS, BPC, saúde ou educação devem ser tratadas como cenários, e não como fatos consumados.

Às vésperas do segundo turno de 25/10/2026, a relevância pública da experiência argentina está justamente em demonstrar que estabilização macroeconômica e custo social podem coexistir. Caberá às campanhas detalhar como pretendem compatibilizar dívida, equilíbrio fiscal, crescimento, emprego, investimento público e proteção social; ao TSE manter disponíveis os compromissos formalmente registrados; ao Congresso deliberar sobre eventuais reformas futuras; e à imprensa confrontar promessas eleitorais com números verificáveis. O ponto central não é presumir que o Brasil será a Argentina, mas exigir clareza sobre quem paga, quanto se corta, em quanto tempo e quais políticas seriam preservadas.


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