O presidente Luiz Inácio Lula da Silva iniciou, nos primeiros meses de 2025, uma nova etapa de sua estratégia política, mirando a eleição presidencial de 2026. Com foco na comunicação direta com a população, Lula intensificou suas viagens pelo país e ampliou sua presença nas redes sociais. O movimento marca uma tentativa de retomar a conexão popular que o impulsionou em mandatos anteriores. No entanto, o cenário político e econômico atual apresenta desafios complexos, que incluem tensões internas, dificuldades fiscais, aumento da inflação e escândalos de corrupção.
A mudança na comunicação do governo coincide com a nomeação de Sidônio Palmeira como chefe da equipe de marketing político do Planalto. Reconhecido por seu trabalho em campanhas anteriores do PT, Palmeira visa aproximar a imagem do presidente do público jovem e das novas dinâmicas das redes sociais. Vídeos mais descontraídos e interações espontâneas passaram a ser frequentes, em contraste com a formalidade que havia marcado os primeiros meses do governo.
Apesar da renovação estética, o presidente enfrenta obstáculos substanciais relacionados ao conteúdo de suas declarações, que por vezes geram repercussões negativas e alimentam críticas por parte da oposição e de analistas políticos.
Inflação dos alimentos e declarações polêmicas
Um dos principais desafios enfrentados pelo governo de Lula em 2025 é o aumento da inflação, com destaque para o impacto nos preços dos alimentos. O custo de itens básicos aumentou consideravelmente, gerando insatisfação popular e prejudicando a popularidade do presidente. Em resposta à crise, Lula publicou um vídeo em suas redes sociais gravado em uma horta, prometendo atuar para controlar a alta dos preços.
Entretanto, uma declaração feita pelo presidente durante uma entrevista gerou ampla controvérsia. Lula sugeriu que os consumidores boicotassem produtos com preços elevados como uma maneira de forçar a redução dos valores. A fala, interpretada por muitos como uma simplificação exagerada do problema, foi duramente criticada por economistas e por lideranças políticas, que consideraram a sugestão ineficaz frente às dinâmicas complexas do mercado.
A situação lembra um episódio ocorrido em 2014, quando a ex-presidente Dilma Rousseff criticou publicamente um auxiliar que sugeriu a substituição da carne por ovos como alternativa à inflação. A declaração de Lula reacendeu críticas sobre o conhecimento técnico da atual gestão em relação aos mecanismos de mercado.
Fernando Haddad e as limitações da política fiscal
O ministro da Fazenda, Fernando Haddad, tornou-se uma peça central na tentativa de conter a crise econômica. Desde o fim de 2024, Haddad buscou implementar medidas de ajuste fiscal, incluindo a contenção de gastos públicos e a limitação do aumento real do salário mínimo.
Apesar dos esforços, o plano fiscal não conseguiu conter o avanço das despesas obrigatórias nem reduzir a trajetória de crescimento da dívida pública. A percepção de enfraquecimento do ministro aumentou, especialmente após a interferência de Rui Costa, chefe da Casa Civil, que, segundo fontes do governo, tem dificultado a implementação de medidas mais rigorosas.
A tensão entre Haddad e Rui Costa representa uma disputa interna no núcleo do governo, que, segundo especialistas, compromete a coesão política e prejudica a eficiência das ações do Executivo. Essa rivalidade, já conhecida desde os primeiros meses da atual gestão, se tornou um fator de desgaste, ampliando a percepção de fragilidade no comando da política econômica.
Segurança pública: uma pauta travada
A segurança pública, tema de alta relevância para o eleitorado, também enfrenta impasses dentro do governo. O ministro da Justiça, Ricardo Lewandowski, apresentou uma proposta de Proposta de Emenda à Constituição (PEC) com o objetivo de fortalecer as instituições federais de segurança, como a Polícia Federal e a Polícia Rodoviária Federal.
O plano, que poderia servir como uma resposta às críticas da oposição, foi barrado por resistências internas, em especial pelo chefe da Casa Civil, Rui Costa, que argumenta que a segurança pública é de competência dos estados, conforme determina a Constituição. A disputa entre os ministros resultou em um impasse, e a PEC ainda não foi protocolada no Congresso Nacional.
Além disso, a falta de articulação entre os ministérios prejudica a execução de políticas públicas nessa área, limitando o alcance das ações planejadas para enfrentar a criminalidade e fortalecer as instituições de segurança.
Corrupção no Ministério do Desenvolvimento Social
O governo de Lula também enfrenta escândalos de corrupção que comprometem a imagem do presidente e reacendem críticas relacionadas a gestões anteriores do PT. Um caso recente envolve o Ministério do Desenvolvimento Social, liderado por Wellington Dias. Investigações revelaram que ONGs contratadas para distribuir refeições a pessoas em situação de vulnerabilidade em São Paulo não cumpriram os contratos estabelecidos com o governo federal.
O caso levou a Controladoria-Geral da União (CGU) e a Polícia Federal a abrir investigações para apurar as denúncias de desvio de verbas. A oposição, por meio do partido Novo, solicitou a intervenção do Tribunal de Contas da União (TCU) para suspender os repasses de recursos às ONGs envolvidas.
As acusações se tornaram um dos principais focos de ataques da oposição e reacenderam o debate sobre a corrupção no governo, questão que segue como uma das principais preocupações do eleitorado.
A crise de imagem no núcleo do governo
Pesquisas recentes apontam um aumento expressivo na rejeição ao governo. De acordo com o levantamento realizado pela AtlasIntel em parceria com a Bloomberg, 51% dos entrevistados avaliam o governo Lula de maneira negativa, enquanto 42% mantêm uma visão favorável.
A rejeição também atinge figuras próximas ao presidente, como o ministro da Fazenda, Fernando Haddad (52%), e a primeira-dama, Rosângela da Silva (Janja), que enfrenta uma desaprovação ainda maior, com 58% de avaliações negativas. Apesar de seu esforço para conquistar protagonismo e se engajar em ações sociais, sua imagem permanece arranhada, principalmente em comparação com a popularidade de figuras como a ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro.
Mesmo diante dos índices de rejeição, Lula continua liderando as pesquisas de intenção de voto para as eleições de 2026. No entanto, a vantagem que o presidente mantém sobre os candidatos de oposição é considerada frágil, e cenários de empate técnico começam a se tornar frequentes nas pesquisas eleitorais.
Cenário de incertezas para 2026
O presidente Lula enfrenta um contexto complexo, marcado por desafios econômicos, tensões internas no governo e escândalos de corrupção que minam sua credibilidade. Embora a estratégia de comunicação tenha sido reformulada com o objetivo de reconquistar a conexão com a população, as dificuldades em apresentar resultados concretos podem comprometer suas chances de reeleição em 2026.
Com a economia em desaceleração e a oposição fortalecendo sua presença no debate público, o governo precisará demonstrar capacidade de articulação política e eficiência administrativa para reverter a tendência de desgaste. A manutenção da liderança nas pesquisas dependerá não apenas de uma comunicação eficaz, mas da capacidade de entregar resultados concretos nas áreas econômica, social e de segurança pública.
*Com informações de Daniel Pereira, Laryssa Borges e Marcela Mattos, da Revista Veja.

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