A crise aberta no Supremo Tribunal Federal (STF) pelas investigações relacionadas ao Banco Master passou a produzir efeitos que ultrapassam os procedimentos envolvendo Alexandre de Moraes e André Mendonça. Nesta quinta-feira (17/09/2026), relatos de bastidores indicam preocupação com possível uso de pedidos de vista para obstruir pautas sensíveis, enquanto interlocutores de ministros avaliam que o ambiente de desconfiança poderá comprometer a proposta de um código de conduta defendida pelo presidente Edson Fachin. A sessão de 15 de setembro também gerou manifestações públicas de magistrados, repercussão política, exposição de mensagens privadas e reforço excepcional do esquema de segurança na Praça dos Três Poderes. Essas avaliações sobre obstrução e inviabilidade do código são relatos atribuídos a ministros, interlocutores e observadores da Corte, e não decisões formalmente adotadas pelo STF.
O quadro se agravou depois que a sessão extraordinária convocada para examinar informações relacionadas a Moraes se transformou em uma discussão prolongada sobre rito, competência, impedimentos e atuação dos próprios ministros. O mérito não chegou a ser julgado, e o pedido de vista de Flávio Dino deixou sem resposta a questão sobre eventual reunião das Petições 16.662 e 16.704.
Nesta quinta-feira, Fachin retirou da pauta a sessão que examinaria a atuação de Mendonça em 23 de setembro, sem definir nova data, ampliando a dimensão institucional do impasse.
Pedidos de vista entram no centro da disputa interna
Relatos publicados nesta quinta indicam que integrantes da Corte passaram a discutir a possibilidade de utilizar pedidos de vista em julgamentos considerados sensíveis, cenário que poderia dificultar o andamento de outras matérias do STF.
A preocupação descrita por interlocutores da Presidência é que o confronto entre grupos internos seja transferido para a rotina do Tribunal, com reflexos em processos sem relação direta com o Banco Master. Também foi discutida, segundo esses relatos, a utilização mais frequente do Plenário Virtual para reduzir confrontos presenciais.
Não existe, até o momento, decisão institucional estabelecendo uma estratégia de obstrução. Trata-se de informação de bastidores sobre discussões e possibilidades avaliadas por ministros, que dependeriam de atos concretos para produzir efeitos processuais.
Código de conduta enfrenta resistência em meio à crise
Antes do agravamento da disputa, Fachin havia colocado a criação de um código de ética ou de conduta para os ministros do Supremo entre as prioridades de sua gestão.
Em 4 de setembro, ao tratar publicamente da escalada das divergências internas, o presidente afirmou que os acontecimentos reforçavam a urgência de três objetivos: adoção de um código de ética, encerramento do Inquérito das Fake News e modernização do sistema de Justiça.
Depois da sessão de 15 de setembro, porém, ministros e observadores ouvidos pela Folha passaram a avaliar que o grau de desconfiança entre as diferentes alas pode dificultar ou mesmo inviabilizar, nas atuais condições, a construção de consenso para aprovar o documento. Essa avaliação deve ser compreendida como relato de bastidor e não como abandono formal da proposta por Fachin.
Confrontos atingem relações pessoais entre ministros
As divergências ultrapassaram os votos apresentados no Plenário.
O Jornal Grande Bahia já revelou, com base em mensagens publicadas pela imprensa, comunicações privadas enviadas pelo decano Gilmar Mendes a Kassio Nunes Marques e Luiz Fux durante o conflito. Uma das mensagens atribuídas a Gilmar continha a frase “Assumam que estão ferrados”, em contexto de críticas relacionadas aos efeitos das investigações do Master. Nunes Marques posteriormente bloqueou o decano no WhatsApp.
O episódio tornou visível uma ruptura de confiança que antes era percebida principalmente por decisões e votos divergentes.
Nesta quinta-feira, Gilmar voltou a criticar André Mendonça, desta vez pela exposição do nome do procurador-geral da República, Paulo Gonet, no contexto das investigações. Mendonça respondeu por nota e afirmou que o colega demonstrava indignação “de forma seletiva”.
Sessão expõe ambiente de tensão dentro do Plenário
Relatos jornalísticos sobre os bastidores da sessão registraram um ambiente incomum no Plenário.
Durante diferentes momentos, Cármen Lúcia acompanhou os embates sem intervir imediatamente; André Mendonça permaneceu em determinados períodos com as mãos juntas; Gilmar Mendes manuseava documentos impressos relacionados às mensagens extraídas do celular de Daniel Vorcaro; e ministros mantiveram conversas durante os intervalos.
Essas descrições documentam comportamentos observados durante a sessão, mas não permitem concluir estados mentais, intenções ou motivações pessoais dos magistrados.
No intervalo, Dino aproximou-se de Fachin e, segundo relatos de interlocutores, deixou claro que suas críticas ao procedimento adotado pela Presidência não tinham caráter pessoal. O ministro também conversou com Mendonça sobre aspectos processuais.
Cármen Lúcia recebe flores e carta de magistradas
A manifestação de Cármen Lúcia durante a crise provocou uma reação de grupos de magistradas.
Na quarta-feira (16/09/2026), a ministra recebeu 12 buquês de flores e um vaso de orquídea, acompanhados por carta assinada por 12 coletivos de juízas de diferentes tribunais. O documento dizia, entre outros trechos, que “a senhora não está sozinha”.
A iniciativa ocorreu depois de Cármen Lúcia manifestar tristeza diante do quadro institucional vivido pela Corte e refletir publicamente sobre a responsabilidade dos integrantes do Tribunal.
A carta não tratou do mérito dos processos nem apresentou posição jurídica sobre Moraes, Mendonça ou o Banco Master. As magistradas concentraram o texto em uma manifestação de solidariedade pessoal à ministra.
Segurança da sessão incluiu drones térmicos e sistema antidrones
A excepcionalidade do julgamento também se refletiu no esquema de segurança.
A Praça dos Três Poderes recebeu reforço policial e restrições ao uso de drones. O aparato incluiu equipamentos com câmeras térmicas e um sistema capaz de identificar aeronaves não autorizadas, localizar operadores e, de acordo com as condições operacionais, interferir em voos irregulares em uma área de até aproximadamente 2 quilômetros.
Também foram previstas linhas de contenção policial, presença de cavalaria e restrições de estacionamento nas proximidades do STF.
O reforço não é elemento probatório do Caso Master. Ele documenta, contudo, a dimensão de segurança pública associada a uma sessão com elevada repercussão política e institucional.
Redes sociais ampliam exposição da crise
A sessão também repercutiu de maneira intensa nas plataformas digitais.
Levantamento privado divulgado pela imprensa, produzido pela Ativaweb DataLab, classificou 90,8% das manifestações analisadas sobre a atuação dos ministros como críticas. Por se tratar de monitoramento privado de redes sociais, o percentual descreve somente o universo e a metodologia utilizados pela empresa e não pode ser interpretado como pesquisa representativa da opinião de toda a população brasileira.
Vídeos, trechos de debates e imagens da sessão passaram a circular nas redes em meio à campanha eleitoral de 2026, risco que já havia sido discutido internamente pelo Tribunal antes da realização do julgamento.
A circulação de conteúdo editado acrescenta outro desafio: falas retiradas do contexto integral de um julgamento podem assumir sentidos diferentes quando utilizadas em propaganda eleitoral ou confrontos políticos.
Crise alcança debate político nacional
As repercussões chegaram também ao Poder Executivo e às campanhas eleitorais.
Reportagem publicada nesta quinta-feira afirma, com base em relatos de aliados, que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva teria classificado a sessão como um “show de horrores” e manifestado intenção de conversar com Fachin. Como a expressão foi atribuída a interlocutores e não apresentada inicialmente em declaração pública direta, essa condição deve acompanhar qualquer reprodução jornalística da informação.
A crise ocorre durante o período eleitoral, circunstância que ampliou as acusações recíprocas de instrumentalização política dos procedimentos. Essas acusações são contestadas pelos ministros atingidos e não constituem, por si, demonstração de finalidade eleitoral nas decisões judiciais.
O caráter eleitoral do ambiente reforça a necessidade de distinguir decisões, documentos oficiais e provas dos posicionamentos políticos formulados por candidatos, partidos e aliados.
Autoridade da Presidência é colocada sob pressão
Fachin assumiu a Presidência com o desafio de coordenar uma Corte dividida sobre procedimentos relacionados a seus próprios integrantes.
Durante a sessão, recebeu críticas de ministros que questionaram sua competência para assumir relatorias e a forma como organizou o julgamento. Ao mesmo tempo, Luiz Fux e Cármen Lúcia sustentaram posições compatíveis com a manutenção inicial dos processos separados.
A divisão não significa que a Presidência tenha perdido formalmente suas competências. O ponto institucional está na dificuldade política de construir decisões consensuais em questões administrativas e éticas que dependem da colaboração dos demais ministros.
O código de conduta é um exemplo dessa dependência: sem adesão interna, uma proposta de autorregulação pode enfrentar obstáculos independentemente das atribuições formais do presidente.
Linha do tempo dos principais acontecimentos
- 04/09/2026 — Fachin defende código de ética: o presidente do STF afirma que a crise demonstra urgência na adoção de regras de conduta e em outras reformas internas.
- 09/09/2026 — Presidência intervém na disputa: Fachin suspende decisões conflitantes e afirma que os choques entre procedimentos ameaçam a ordem e a integridade institucional do STF.
- 15/09/2026 — segurança extraordinária: sessão sobre o Caso Master ocorre com reforço policial, monitoramento de drones e restrições na Praça dos Três Poderes.
- 15/09/2026 — confrontos no Plenário: ministros divergem sobre relatoria, rito, impedimentos e reunião das petições; o mérito sobre Moraes não é examinado.
- 15/09/2026 — Dino pede vista: o julgamento é suspenso sem decisão final sobre a organização dos processos.
- 16/09/2026 — apoio a Cármen Lúcia: 12 coletivos de juízas enviam flores e carta de solidariedade à ministra.
- 17/09/2026 — nova troca pública de críticas: Gilmar Mendes critica Mendonça pela exposição de Paulo Gonet, e Mendonça responde por nota.
- 17/09/2026 — sessão de Mendonça é retirada da pauta: Fachin cancela o julgamento previsto para 23 de setembro.
- 17/09/2026 — relatos sobre risco à pauta e ao código de conduta: reportagens registram discussões sobre pedidos de vista e avaliações de que a crise pode dificultar a proposta de autorregulação.
A principal consequência institucional da crise é que um problema originalmente relacionado ao tratamento de informações de uma investigação financeira passou a atingir a capacidade do Supremo de organizar internamente seus próprios processos. Quando divergências sobre mérito se combinam com questionamentos sobre relatoria, impedimentos, relações pessoais e regras de votação, a discussão deixa de ser apenas sobre o destino de um processo específico e alcança os mecanismos de governança da Corte.
Há, porém, distinções necessárias. O eventual uso de pedidos de vista para obstruir julgamentos e a possível inviabilidade do código de conduta são, neste momento, avaliações e relatos de bastidores, não fatos institucionalmente consumados. Já a interrupção do julgamento, as manifestações públicas dos ministros, a retirada da sessão de 23 de setembro e a existência de conflitos processuais estão documentadas.
A exposição pública dos confrontos também cria pressão por respostas que ultrapassam os dois casos individuais. Transparência, critérios de impedimento, regras sobre relações privadas de magistrados, distribuição processual e mecanismos para administrar conflitos de interesse passam a integrar o debate sobre a capacidade de autorregulação do Tribunal. O acompanhamento jornalístico deverá verificar se o código de conduta será efetivamente abandonado, reformulado ou retomado depois da crise, sem transformar previsões de bastidores em decisões antecipadas.
Os próximos passos dependerão principalmente de Edson Fachin, responsável pela condução administrativa e pela pauta, de Flávio Dino, enquanto permanecer com a vista da questão de ordem, e do Plenário do STF, que terá de resolver os conflitos processuais antes de avançar sobre o mérito. A relevância pública do episódio reside precisamente nessa dupla dimensão: o Tribunal precisa decidir sobre fatos envolvendo seus integrantes enquanto demonstra que suas próprias regras são capazes de produzir decisões juridicamente previsíveis, transparentes e submetidas ao colegiado.








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