PF aponta ACM Neto como possível “líder político” de grupo investigado na Overclean; STF negou busca; 232 chamadas foram para o Rei do Lixo

Na quarta-feira (30/09/2026), informações tornadas públicas sobre a Operação Overclean mantêm no centro da disputa política da Bahia o candidato ao Governo do Estado ACM Neto (União Brasil). Elementos da investigação da Polícia Federal (PF), reproduzidos em decisão do ministro Kassio Nunes Marques, do Supremo Tribunal Federal (STF), atribuem ao ex-prefeito de Salvador uma possível posição de “liderança política” em grupo investigado por suspeitas de desvios de recursos públicos. A corporação identificou 232 chamadas entre Neto e o empresário José Marcos de Moura, conhecido como “Rei do Lixo”, entre agosto e dezembro de 2024. A PF chegou a pedir busca e apreensão contra o candidato, com parecer favorável da Procuradoria-Geral da República (PGR), mas Nunes Marques negou a medida por considerar insuficientes, naquele momento, os elementos apresentados para justificar a diligência. ACM Neto nega envolvimento em ilícitos e afirma que a divulgação das suspeitas representa tentativa de interferência no processo eleitoral.

PF atribui papel político a ACM Neto em linha de investigação

A referência a ACM Neto como possível “líder político” aparece vinculada à interpretação dos investigadores sobre relações, contatos e indicações políticas identificadas durante a apuração. A expressão não corresponde a uma condenação judicial nem significa que o STF tenha reconhecido a participação do candidato em uma organização criminosa.

Segundo informações reproduzidas a partir da investigação, a PF sustentou que o ex-prefeito ocuparia uma posição política relevante em relação a integrantes do grupo sob apuração, entre eles José Marcos de Moura. Um dos elementos examinados foram os 232 contatos por chamadas de WhatsApp registrados entre agosto e dezembro de 2024.

A investigação também analisou mensagens relacionadas a indicações para cargos públicos na Prefeitura de Belo Horizonte, em Minas Gerais. Conforme o conteúdo atribuído à representação policial, Moura teria mencionado a necessidade de consultar ACM Neto sobre determinadas indicações, elemento utilizado pelos investigadores para sustentar a hipótese de influência política do baiano sobre integrantes do grupo.

Contatos com José Marcos de Moura chegam a 232 chamadas

A PF identificou 232 chamadas telefônicas entre ACM Neto e José Marcos de Moura no período de agosto a dezembro de 2024. Os registros passaram a integrar a análise sobre as relações entre o empresário e agentes políticos mencionados na Operação Overclean.

Moura, empresário do setor de limpeza urbana conhecido como “Rei do Lixo”, aparece em diferentes etapas da investigação. Reportagens baseadas nos autos informam que ele foi indiciado em apurações relacionadas a suspeitas de corrupção, fraude em licitações e desvio de recursos públicos.

A existência de contatos telefônicos, isoladamente, não demonstra a prática de crime. No contexto do inquérito, entretanto, a PF procura estabelecer se as comunicações, quando confrontadas com mensagens, indicações administrativas, movimentações financeiras e contratos públicos, apresentam relação com as irregularidades investigadas.

Investigação alcança contratos da Educação de Belo Horizonte

A 10ª fase da Operação Overclean, deflagrada em 17/09/2026, concentra uma de suas frentes na possível atuação de uma organização criminosa em contratações realizadas por uma secretaria municipal de Belo Horizonte, entre 2024 e 2025.

Em comunicado oficial, a Polícia Federal informou investigar indícios de direcionamento de procedimentos para o fornecimento de serviços e materiais didáticos. Pelo menos três procedimentos analisados resultaram em contratos que, somados, ultrapassam R$ 80 milhões. Outros processos de contratação também estão sob investigação.

A operação cumpriu 24 mandados de busca e apreensão distribuídos por Minas Gerais, Bahia, São Paulo, Tocantins, Paraná e Espírito Santo. Segundo a PF, os fatos investigados podem configurar, em tese, crimes contra a Administração Pública, fraude em licitações e contratos, organização criminosa e lavagem de dinheiro.

O emprego da expressão “em tese” é juridicamente relevante: a operação está em fase investigativa, e a descrição de possíveis crimes pela Polícia Federal não equivale a condenação dos investigados.

Bruno Barral aparece na investigação sobre Belo Horizonte

Outro personagem citado nessa frente da Overclean é Bruno Oitaven Barral, ex-secretário municipal de Educação de Belo Horizonte que anteriormente exerceu função equivalente na Prefeitura de Salvador durante a gestão de ACM Neto.

De acordo com informações publicadas sobre o inquérito, a PF investiga se a indicação de Barral para a administração da capital mineira estaria relacionada a uma estrutura destinada a favorecer determinados empresários em contratações públicas.

A investigação busca esclarecer se havia articulação entre agentes políticos, servidores e empresários para interferir em procedimentos administrativos e, posteriormente, produzir retornos ilícitos. Essa hipótese permanece sob apuração e não constitui conclusão judicial definitiva.

Polícia Federal pediu busca contra ACM Neto

A Polícia Federal solicitou autorização ao STF para realizar busca e apreensão contra ACM Neto. O pedido teria sido apresentado em janeiro de 2026, antes do período oficial da campanha eleitoral.

Em fevereiro, a Procuradoria-Geral da República apresentou parecer favorável à diligência. O pedido, entretanto, foi rejeitado pelo ministro Kassio Nunes Marques, relator do caso no Supremo.

A decisão judicial representa um ponto essencial para a compreensão do episódio: embora a PF tenha apresentado elementos que, em sua avaliação, justificariam aprofundar a investigação por meio da busca, o relator considerou que as informações reunidas não ofereciam fundamento suficiente para autorizar medida dessa natureza contra o político.

Reportagens que tiveram acesso ao conteúdo da decisão indicam que Nunes Marques avaliou que parte dos elementos poderia ser compatível com articulações políticas, sem estabelecer, naquele estágio, ligação direta suficiente entre ACM Neto e os crimes investigados.

Decisão do STF não encerra investigação

A negativa do pedido de busca e apreensão não corresponde a uma declaração judicial de inocência nem, no sentido oposto, a PF obteve reconhecimento judicial da hipótese segundo a qual ACM Neto faria parte de uma organização criminosa.

O que existe é uma divergência sobre a suficiência dos elementos para justificar uma medida específica de investigação. A PF sustentou a necessidade da busca; a PGR concordou com a diligência; e o ministro relator considerou insuficiente o conjunto apresentado para autorizar a medida contra o candidato.

Essa distinção é decisiva para evitar duas interpretações igualmente imprecisas: transformar uma hipótese policial em culpa estabelecida ou interpretar o indeferimento de uma busca como encerramento definitivo das suspeitas.

ACM Neto nega irregularidades e fala em interferência eleitoral

Após a divulgação das informações, ACM Neto negou participação nos fatos investigados e afirmou que estaria ocorrendo uma “tentativa de interferir no processo eleitoral com a criação e divulgação de factoides e insinuações mentirosas e falsas”.

O candidato também atribuiu a repercussão do caso a “vazamentos seletivos”, argumentando que seu nome estaria sendo associado a situações das quais afirma nunca ter participado.

Na manifestação divulgada em 17/09/2026, Neto ressaltou que a Operação Overclean começou em dezembro de 2024 e sustentou que, ao longo da investigação, não teria sido identificada conduta ilícita praticada por ele.

O candidato ainda vinculou a divulgação das informações à proximidade da eleição estadual de 04/10/2026 e afirmou tratar-se de uma tentativa de influenciar o processo eleitoral baiano. A alegação de interferência eleitoral corresponde à versão apresentada por ACM Neto e não foi comprovada, nas informações disponíveis, por decisão judicial ou documento oficial.

Neto usa negativa de busca como argumento de defesa

Em sua manifestação, ACM Neto também sustentou que a decisão de Nunes Marques teria demonstrado a inconsistência das suspeitas contra ele.

Do ponto de vista jurídico, contudo, a decisão conhecida refere-se especificamente à existência ou não de fundamentos suficientes para autorizar a busca e apreensão requerida pela Polícia Federal naquele momento.

Portanto, o conteúdo disponível permite afirmar que a diligência foi recusada pelo STF, mas não autoriza concluir que todas as linhas de investigação relacionadas aos fatos tenham sido definitivamente afastadas.

Overclean começou em dezembro de 2024

A Operação Overclean foi deflagrada inicialmente em dezembro de 2024 e passou a investigar suspeitas de desvios de recursos públicos, fraudes em licitações, corrupção e lavagem de dinheiro envolvendo contratos públicos e recursos provenientes, entre outras fontes, de emendas parlamentares.

Ao longo das sucessivas etapas, a apuração alcançou empresários, agentes públicos e políticos em diferentes estados. Na fase relacionada a Belo Horizonte, o foco passou a incluir contratos firmados entre 2024 e 2025 na área da educação municipal.

A Polícia Federal informou oficialmente que, somente entre os procedimentos analisados nessa frente, três contratos ultrapassam R$ 80 milhões, dimensão financeira que amplia o interesse público sobre a identificação dos beneficiários, a regularidade das licitações e eventual participação de agentes públicos ou privados.

Relações políticas com o “Rei do Lixo” já vinham sendo noticiadas

Antes da divulgação dos 232 contatos, as relações de José Marcos de Moura com integrantes do União Brasil e com pessoas próximas a ACM Neto já haviam sido objeto de reportagens.

O Jornal Grande Bahia publicou em agosto informações atribuídas à coluna da jornalista Malu Gaspar segundo as quais Moura teria chegado à direção nacional do União Brasil por indicação de ACM Neto e participado de articulações eleitorais na Bahia.

Outra reportagem do JGB registrou informações publicadas por O Globo sobre sociedade envolvendo Renata Magalhães, irmã de ACM Neto, e José Marcos de Moura na propriedade de uma aeronave. Esses antecedentes não comprovam participação do candidato em crimes, mas integram o conjunto de relações políticas e empresariais que passaram a receber atenção pública no contexto da Overclean.

Investigação, disputa eleitoral e necessidade de separar fatos de versões

O momento de divulgação dos elementos da investigação adiciona uma dimensão eleitoral ao episódio. ACM Neto disputa o Governo da Bahia e sustenta que a repercussão das informações pouco antes da votação teria objetivo político.

Essa afirmação precisa ser tratada como posição do candidato, da mesma forma que a hipótese de liderança política precisa ser atribuída expressamente à Polícia Federal.

Até o momento contemplado pelas informações disponíveis, não existe condenação judicial de ACM Neto relacionada a esses fatos. Também não há decisão do STF reconhecendo que o candidato integre uma organização criminosa. Há uma investigação em andamento, elementos apresentados pela PF, um parecer da PGR favorável à realização de busca e uma decisão de Nunes Marques que negou essa medida específica.

Linha do tempo dos principais acontecimentos

  • Agosto a dezembro de 2024 — A Polícia Federal identifica posteriormente 232 chamadas entre ACM Neto e José Marcos de Moura, o “Rei do Lixo”. Os registros passam a integrar a análise sobre as relações políticas do grupo investigado.
  • Dezembro de 2024 — É deflagrada a primeira fase da Operação Overclean, destinada a investigar suspeitas de fraudes, desvios de recursos públicos e outros ilícitos envolvendo contratos e administrações municipais.
  • 2024 a 2025 — Contratações realizadas na área da educação municipal de Belo Horizonte tornam-se objeto de investigação. Pelo menos três contratos analisados posteriormente pela PF ultrapassam R$ 80 milhões.
  • Janeiro de 2026 — A Polícia Federal solicita busca e apreensão contra ACM Neto no âmbito da investigação relacionada à Overclean.
  • Fevereiro de 2026 — A Procuradoria-Geral da República emite parecer favorável ao pedido de busca apresentado pela PF.
  • 17/09/2026 — A PF deflagra a 10ª fase da Operação Overclean, com 24 mandados de busca e apreensão em seis estados. O ministro Kassio Nunes Marques não autoriza a busca contra ACM Neto.
  • 17/09/2026 — ACM Neto divulga nota, nega envolvimento com irregularidades e afirma haver tentativa de interferência no processo eleitoral por meio de “vazamentos seletivos” e “factoides”.
  • 21 e 22/09/2026 — Tornam-se públicas informações sobre as 232 chamadas e sobre a avaliação atribuída à PF de que ACM Neto teria papel de liderança política no grupo investigado.

O aspecto institucionalmente mais relevante do caso está na diferença entre hipótese investigativa, elemento indiciário e conclusão judicial. A Polícia Federal reuniu contatos telefônicos, mensagens e informações sobre indicações políticas que, em sua interpretação, justificariam aprofundar a apuração sobre o papel de ACM Neto. A PGR concordou com a realização da busca, mas o relator no STF considerou insuficiente a fundamentação para a medida. Nenhuma dessas etapas, isoladamente, estabelece responsabilidade criminal.

O número de 232 chamadas, a relação política atribuída a Neto e José Marcos de Moura e as referências a indicações na Prefeitura de Belo Horizonte constituem elementos objetivos que justificam interesse jornalístico e acompanhamento institucional. Ao mesmo tempo, o conteúdo das conversas, a finalidade dos contatos e sua eventual relação direta com contratos ou pagamentos precisam ser demonstrados por documentos, perícias, depoimentos ou outras provas para que se possa avançar de uma relação de proximidade para eventual responsabilidade criminal.

Também permanece sem comprovação independente a acusação de ACM Neto de que a divulgação do caso teria como propósito interferir na eleição. A proximidade temporal entre os desdobramentos da operação e a votação constitui um fato verificável; a existência de uma estratégia deliberada para atingir sua candidatura, porém, exigiria evidências próprias. A cobertura jornalística deve, portanto, registrar a alegação sem incorporá-la como conclusão.

O núcleo disponível é que a Polícia Federal investiga suspeitas de fraude em contratos públicos superiores a R$ 80 milhões, identificou 232 chamadas entre ACM Neto e José Marcos de Moura (Rei do Lixo), atribuiu ao candidato possível posição de liderança política dentro da estrutura sob investigação e solicitou uma busca que recebeu parecer favorável da PGR, mas foi negada pelo ministro Kassio Nunes Marques. ACM Neto rejeita qualquer envolvimento ilícito. Os próximos esclarecimentos dependerão do avanço da PF, de eventuais manifestações da PGR, de novas decisões do STF e da apresentação de documentos capazes de demonstrar — ou afastar — relação entre as articulações políticas identificadas e os crimes investigados.

A Polícia Federal identificou 232 chamadas entre ACM Neto e José Marcos de Moura, o “Rei do Lixo”, e atribuiu ao candidato possível papel de liderança política em grupo investigado pela Operação Overclean. A apuração envolve contratos superiores a R$ 80 milhões em Belo Horizonte. A PGR apoiou pedido de busca contra Neto, mas Kassio Nunes Marques o negou. O candidato rejeita irregularidades e alega interferência eleitoral.
Relatório da Polícia Federal aponta ACM Neto (União Brasil), candidato ao Governo da Bahia nas eleições de 2026, como líder de uma organização criminosa investigada por suposto esquema em Minas Gerais. Em resposta, ACM Neto rejeitou as acusações e afirmou que há uma “tentativa de interferir no processo eleitoral com a criação e divulgação de factoides e insinuações mentirosas e falsas”. As informações foram divulgadas pela CNN Brasil, nesta quarta-feira (30/09/2026).

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